O condom feminino, o primeiro método pós-Cairo (27), é um recurso que alia a dupla proteção, contraceptiva e a infecções. O método, já testado em vários países, está disponível no mercado desde 1997. Consiste de um tubo de um plástico fino e resistente (poliuretano), com dois anéis do mesmo material, que se insere na vagina antes da relação sexual. O método tem como vantagens ser controlado pela mulher, independer da ereção do parceiro (ao contrário do condom masculino), prevenir as DST/AIDS, e não ter contra-indicações nem efeitos colaterais conhecidos. Como desvantagens são apontados o seu custo, o fato de requerer o conhecimento (ou a aprovação do parceiro), o fato de que a mulher tenha que tocar os genitais. Estima-se que a sua eficácia teórica (uso adequado e consistente) como contraceptivo seja equivalente ao do condom masculino (uma taxa de cerca de cinco gravidezes por 100 mulheres/ano) (28). Ou seja, para os padrões brasileiros de métodos reversíveis, um resultado muito bom se usado consistentemente, pois os estudos brasileiros mostram eficácias práticas de anticoncepcionais orais abaixo dessas taxas (29).
A experiência brasileira com o uso do método tem mostrado uma aceitabilidade bastante alta, indicando uma ótima receptividade inicial ao método. Estudo conduzido por Kalkmann e cols. (30) mostrou que a maior dificuldade para o uso do preservativo feminino está relacionado ao seu manuseio, e que o diálogo entre o casal propicia a superação deste problema e amplia a aceitabilidade do método. O método seria especialmente importante para populações mais vulneráveis, tais como mulheres soropositivas, trabalhadoras sexuais, mulheres UDI ou parceiras de UDI (31)
Entre as condições para uma maior aceitabilidade e eficácia do método estão a melhor qualidade do aconselhamento, e dos serviços de saúde em geral. Isso mostra mais uma vez que, a qualidade do acolhimento do usuário e a capacidade de escuta e de diálogo por parte dos provedores é o elemento definidor paras o sucesso, o que em geral ocorre onde os serviços estão melhor estruturados.
A aceitabilidade do método foi um pouco maior entre as usuárias do condom masculino, conforme já demonstrado em estudos anteriores, e não variou segundo a faixa etária, escolaridade e a presença de parceiro fixo, se mantendo alta em todos os grupos analisados. Os estudos brasileiros indicam que a introdução e o oferecimento do condom feminino, como método de dupla proteção, contribui para ampliar as alternativas de proteção para as mulheres, tanto entre as que fazem uso dele como contraceptivo e protetor das DSTs/AIDS, como entre as que não precisam de contracepção (por serem esterilizadas, por exemplo), o que no caso brasileiro é especialmente relevante (32). Segundo a UNAIDS, a experiência acumulada em 1999 em nível mundial sobre aceitabilidade e uso do condom feminino já seria suficiente para recomendar aos países a aquisição desse insumo, bem como estimular novos fabricantes (33). O condom feminino teria ainda como vantagem uma maior facilidade da negociação do sexo protegido por parte das mulheres, sendo considerada uma alternativa de fortalecimento/empowerment das mulheres neste âmbito (34,35).
Por parte das mulheres, as dificuldades no uso são mais que justificáveis dada a restrita ou ausente experiência anterior de manipulação genital, assim como o compreensível estranhamento pelo parceiro de sua introdução na relação sexual. Estas dificuldades podem ser contornadas com um investimento importante na qualidade da orientação das mulheres quanto ao uso do método e a habilidades de diálogo com o parceiro (32). Experiências com métodos contraceptivos vaginais como o diafragma mostram que, quando as usuárias são devidamente orientadas para o uso, através de recursos como o auto-toque da vagina, o “treinamento em serviço” da inserção e retirada do método, e monitoradas durante as semanas iniciais do uso, o resultado é muito positivo (38).[i]
Por parte dos profissionais de saúde, é importante lembrar que a maioria deles tem pouca ou nenhuma experiência com procedimentos educativos participativos, adequados para a orientação do uso. Deve haver para tanto treinamentos específicos, em especial no atual contexto da distribuição do método na rede, e especialmente no modelo assistencial de Saúde da Família, pois há um reconhecimento do relativo despreparo dos profissionais para abordar os assuntos relativos à saúde sexual e reprodutiva em geral, e em especial os que dependam de treinamento específico, como é o caso[ii].
Uma revisão de estudos sobre o tema chama a atenção para a importância crucial desse trabalho com os profissionais de saúde, que tendem a superestimar as dificuldades das mulheres, muitas vezes por não terem eles mesmos experiência nem com o método, nem com a manipulação dos genitais. Essa revisão reforça a necessidade de um treinamento com os provedores que inclua tanto dimensões técnicas como as atitudes destes frente ao método, de forma a viabilizar um aproveitamento mais amplo do potencial preventivo do condom feminino no âmbito da saúde pública (35).
Um programa bem estruturado de treinamento e monitoramento da introdução do método é especialmente importante neste momento de entrada de dois milhões de condons femininos no setor público, e pode fazer toda a diferença para o sucesso da iniciativa – principalmente se lembrarmos que esse é ainda o único recurso controlado pelas mulheres.

[i] Quatro trabalhos apresentados no III CBPDST/AIDS tratam de experiências com a introdução do método em diferentes contextos, em geral com resultados muito promissores. Um dos estudos chama a atenção de que 70% das mulheres acharam que o método aumentava a excitação sexual (P-118); outro colocava o método no contexto de uma abordagem hierárquica de escolhas contraceptivas e de proteção à infecção (P-131). Um dos trabalhos apresentava o desenvolvimento de material educativo específico para o método, dirigido para usuárias (ME-8)
[ii] A experiência em São Paulo de treinamento de equipes do PSF no Coletivo Feminista mostrou a grande lacuna na área de saúde reprodutiva e sexual, que corresponde a uma parte desproporcional do trabalho das equipes, e segundo os profissionais, para a qual esses se sentem menos preparados. Chamamos a atenção de que, ao menos entre a clientela que treinamos, praticamente inexistem os gineco-obstetras, e mesmos esses não teriam treinamento para este tipo de trabalho com as mulheres. Sabemos por outras experiências – como é o caso das tentativas de introdução do diafragma vaginal - que o sucesso do uso dessas tecnologias dependem tanto da sensibilização para sua importância como do treinamento nas habilidades.