O condom masculino, por sua onipresença nos materiais de divulgação sobre prevenção do HIV nas várias populações envolvidas na transmissão sexual do HIV, é considerado o método de eleição – inclusive na dupla proteção. Dado o consenso sobre sua eficácia, e o fato deste método estar controlado por seu usuário, o homem, a discussão sobre seu uso tem se limitado, em grande medida, à resistência ao seu uso e às dificuldades da negociação entre os casais. Esse tema será retomado na abordagem da dupla proteção, da hierarquia de métodos e do controle das DSTs.
A resistência ao uso do condom seria associada à própria cultura sexual, em especial nas relações estáveis, nas quais a sugestão do uso do condom levanta suspeitas de infidelidade por parte de quem propõe e sua suposta confirmação por quem aceita. Nas relações eventuais ou mais recentes, seu uso é considerado mais aceitável, ainda que exista uma tendência ao abandono do uso assim que a relação é considerada estável (Guimarães, 1994).
Pode-se dizer que a relação sexual sempre inclui alguma forma de negociação entre homens e mulheres, ainda que assimétrica, onde estão incluídos valores e expectativas orientadas pelo gênero, entre elas o prazer sexual, a segurança afetiva e/ou material e/ou física, a identidade, a auto-estima. No entanto, essa modalidade de negociação é inadequada ou mesmo problemática frente à ameaça do HIV, cujas alternativas de prevenção – sexo não penetrativo, métodos de barreira – “exigem não só uma maior explicitação, como rompem o sistema tradicional de trocas sexuais entre homens e mulheres“ (76:186)
Uma hipótese interessante sobre essa resistência ao uso do condom é levantada por uma pesquisa qualitativa que vincula a recusa dos clientes de mulheres prostitutas ao uso de camisinha (ou o oferecimento de maior remuneração para o sexo desprotegido), à expressão de poder sobre o outro contida no despejar o esperma, como marca de virilidade, o que seria bloqueado pela camisinha, deixando a mulher numa posição de poder, “livre” da carga do poder do outro (O-71). Isto certamente se aplica a relações sexuais não comerciais.
Um dos temas mais relevantes nesse debate é o da negociação do sexo protegido e o tratamento dos parceiros no contexto do manejo das DSTs, pois traz à tona elementos dessa negociação mesmo em situações precisas, do uso do condom por tempo limitado e prescrito como parte de um tratamento da mulher ou do casal. Alguns trabalhos fazem referência a esses casos, e mostram que os serviços de saúde - quando avaliam o resultado dessas prescrições - evidenciam a reduzida eficácia dessas prescrições. Esta é uma área que merece mais atenção, pois dela depende em grande medida a efetividade da ação sobre os casos que chegam aos serviços. No aconselhamento do uso do condom masculino, é importante orientar as mulheres e homens sobre o risco de acidentes contraceptivos como a sua ruptura, e deixar claro o esquema terapêutico de contracepção de emergência, seja com o produto específico, seja com os contraceptivos convencionais.
Vários estudos mostram que a aderência ao uso do condom em casais discordantes é, muitas vezes, reduzida. Um desses trabalhos estudou sete casais (a maioria dos indivíduos já apresentavam a doença, entre os casais haviam dois homens soronegativos com parceiras positivas) e mostrou que, entre os sete homens, “apenas um deles relatou uso esporádico do preservativo, os demais referiram nunca fazê-lo”, e entre as mulheres, todas alegavam que não usavam porque os parceiros se recusavam, “o que as leva a aceitar essa imposição por medo de perdê-los” (P-110)
É importante chamar a atenção para a relativa desarticulação dos trabalhos de promoção do uso de condom com as ações de saúde da mulher, e a existência de poucas iniciativas que lidam especificamente com contracepção, no qual a questão da prevenção esteja inserida.