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Todos os anos, milhões de mulheres na América Latina
têm sua vulva e vagina cortadas cirurgicamente (musculatura
vaginal, tecidos eréteis da vulva e vagina, vasos e nervos)
sem que haja qualquer necessidade médica(1). Esse corte,
chamado episiotomia, tem sido utilizado de rotina em centenas de
milhões de mulheres desde meados do século XX, com
base na crença de sua necessidade para facilitar o parto,
e para a preservação do estado genital da parturiente.
A partir da metade da década de 80, há evidência
científica sólida recomendando a abolição
da episiotomia de rotina (redução do seu uso a no
máximo 10-15% de casos), uma vez que para a grande maioria
das mulheres, o procedimento ao invés de promover a saúde
genital ou a do bebê, provoca danos sexuais importantes, dor
intensa, aumenta os riscos de incontinência urinária
e fecal, e leva a freqüentemente complicações
infecciosas, problemas na cicatrização e deformidades,
entre outros(2). No Brasil e em outros países, temos o agravante
do chamado "ponto do marido", a apertada adicional da
vulva supostamente para "devolver à mulher a condição
virginal", muito freqüentemente associada a dores na relação
sexual e mesmo à impossibilidade da penetração,
necessitando correção cirúrgica(3,4).
Por esses motivos, a episiotomia de rotina tem sido considerada
por vários autores como uma forma de mutilação
genital(5,6), e mesmo como violência de gênero cometida
pelas instituições e profissionais(7,8,9). Alguns
já propõem uma mudança de nomenclatura, chamando
a episiotomia desnecessária de rotina como "lesão
genital iatrogênica no parto", "agravo sexual iatrogênico"
ou de "ferimento sexual iatrogênico no parto"(10).
O abuso de episiotomias tem sido considerado uma questão
exemplar de desrespeito aos direitos humanos na área de saúde(11).
Poucas questões de saúde e de violência sexual
tem a magnitude e a gravidade na vida das mulheres, e são
tão preveníveis quanto a episiotomia. Além
de seu potencial em reduzir o sofrimento das mulheres, a restrição
do uso da episiotomia implicaria ainda em uma importante economia
do setor saúde, preservando desse agravo milhões de
mulheres por ano. Nas demais regiões do mundo, as evidências
científicas levaram a uma gradual redução das
episiotomias, enquanto na América Latina, há uma enorme
resistência à mudança e a maioria dos serviços,
públicos ou privados, mantêm uma taxa de episiotomia
de mais de 90% nos partos vaginais(12).
Se for considerado que, de acordo com evidências científicas,
a episiotomia tem indicação de ser usada em cerca
de 10% a 15% dos casos e ela é praticada em mais de 90% dos
partos hospitalares na América Latina, pode-se entender que
anualmente milhões de mulheres têm sua vulva e vagina
cortadas e costuradas sem qualquer indicação médica.
Um estudo mostrou que o uso rotineiro e desnecessário da
episiotomia na América Latina desperdiça anualmente
cerca de US$ 134 milhões só com o procedimento, sem
contar nenhuma de suas freqüentes complicações(13).
No caso brasileiro, a questão da episiotomia é marcadamente
um problema de classe social e de raça: enquanto as mulheres
brancas e de classe média que contam com o setor privado
da saúde, em sua maioria serão "cortadas por
cima" na epidemia de cesárea, as mulheres que dependem
do SUS (mais de dois terços delas) serão "cortadas
por baixo", passarão pelo parto vaginal com episiotomia.
Como as mulheres negras têm características diferentes
em termos de cicatrização, pela maior tendência
a formação de quelóides [cicatrizes tumoriformes
mais comuns nos indivíduos de raça negra(14)], acreditamos
que estão mais sujeitas a complicações cicatriciais
da episiotomia.
Não raro os casos de aleijões genitais resultantes
da episitomia (informal e jocosamente classificados pelos profissionais
como "hemibundectomia lateral direita" ou como "AVC
de vulva") vão depois compor a demanda de outro profissional,
o cirurgião plástico especializado em corrigir genitais
deformados por episiotomias - isso para as mulheres que têm
recursos para pagar os procedimentos corretivos.
Diferentemente das mulheres que são atendidas no setor
privado e nas quais os procedimentos cortantes como a episiotomia
serão realizados sob a ação da anestesia peridural,
no caso das mulheres do SUS a episiotomia e sua sutura será
feita com bloqueio local do períneo, procedimento considerado
em estudos qualitativos como altamente ineficaz, resultando em dor
intensa, com as mulheres chorando e gemendo "do primeiro ao
último ponto"(15). Nesses casos, as mulheres relatam
que o momento mais doloroso da parto foi exatamente o da sutura
da episiotomia. Muitas mulheres relatam que escolhem a cesárea
para fugir de uma episiotomia, especialmente depois de uma experiência
traumática e com seqüelas(16).
Estudos sobre o risco de infecção da episiotomia
de rotina mostram que, se comparado com o risco das mulheres que
não sofreram episiotomia ou que tiveram laceração
espontânea, foi de 5 a 11 vezes maior nas submetidas ao procedimento(17).
Há mesmo uma complicação infecciosa rara mas
freqüentemente fatal da episiotomia, a fasciíte necrotizante.
Dados dos Estados Unidos e Inglaterra mostram que naquelas pesquisas
essa complicação respondeu até por um quarto
das mortes maternas(18).
Um dos argumentos a favor da episiotomia mais enfatizado no Brasil
é o de que o parto vaginal deixaria a musculatura vaginal
flácida, desqualificando a mulher sexualmente. A evidência
científica é clara de que a episiotomia piora o estado
genital ao invés de protegê-lo(19), e que o único
fator que propicia um tônus vaginal adequado é a prática
de exercícios vaginais - orientação virtualmente
ausente da assistência pré-natal ou ginecológica
em geral no Brasil. O apelo da episiotomia para "devolver a
mulher à sua condição virginal", como
proposto por alguns autores na década de 20, teve grande
eco na cultura brasileira.
A imagem que o discurso médico sugere é que, depois
da passagem de um "falo" enorme - que seria o bebê
- o pênis do parceiro seria proporcionalmente muito pequeno
para estimular ou ser estimulado pela vagina(20). Isso poderia implicar
numa autorização para que o homem procure uma mulher
"menos usada" ou demande como alternativa o coito anal(21).
A necessidade masculina de um orifício devidamente continente
e estimulante para a penetração seria então
prevenida ou resolvida pela episiotomia, ou mesmo pela cesárea,
preservando-se o estatuto da vagina como órgão receptor
do pênis. No Brasil, prevalece um "sistema erótico"
baseado nas noções de atividade-masculino e passividade-feminino.
Essa idéia ratifica a teoria da vagina apertada ou frouxa
(passiva, diante do falo que a estimula e é estimulado),
em oposição à compreensão de vagina
e vulva como órgãos ativos, capazes de se contrair
e relaxar, de acordo com a vontade feminina, pois são músculos
voluntários(22).
Essa concepção mecânica e passiva da vagina
é transposta para o parto, dificultando a compreensão,
mesmo pelos médicos, de que esse órgão se distende
para o parto e depois volta ao tamanho normal. Mais uma vez, não
se trata do que é "cientificamente correto", mas
de sua representação(23).
No Brasil, a episiotomia e seu "ponto do marido", assim
como a cesárea e sua "prevenção do parto",
funcionam, no imaginário de profissionais, parturientes e
seus parceiros, como promotores de uma vagina "corrigida".
Se as mulheres acham que vão ficar com problemas sexuais
e vagina flácida após um parto vaginal, e que a episiotomia
é a solução, elas tendem a querer uma episiotomia(24).
Mas, quando as mulheres têm acesso a informação
e sabem que é possível ter uma vagina forte por meio
de exercícios, elas passam a compreender que a episiotomia
de rotina é uma lesão genital que deve ser prevenida
e que elas podem recusá-la(25). Um dos recursos seria a adoção
pelos serviços de saúde, no pré-natal e no
parto, de um consentimento informado sobre episiotomia com base
nas evidências científicas, para que as mulheres possam
decidir sobre seu corpo, como já realizado em outros países.
Mas contamos sobretudo com a mudança na formação
dos recursos humanos e a informação da opinião
pública através da mídia.
Essa é a finalidade da Campanha pela Abolição
da Episiotomia de Rotina no Estado de São Paulo, que estamos
iniciando em 2003. Sabemos que a prevenção da episiotomia
passa por mudanças institucionais mais amplas na forma de
assistência - desde a liberdade de posição do
período expulsivo até manobras simples que facilitam
a saída do bebê e os exercícios pélvicos.
Por isso, embora o foco seja a episiotomia de rotina, pretendemos
contemplar um conjunto mínimo de mudanças que promovam
a integridade genital das mulheres e uma experiência satisfatória
e segura no parto.
Em resumo, nosso problema é: como promover mudanças
institucionais e de opinião pública para reduzir os
índices de episiotomia desnecessária (lesão
sexual iatrogência no parto), promovendo uma assistência
ao parto menos agressiva e uma vida sexual mais satisfatória
para mulheres (e seus parceiros).
BIBLIOGRAFIA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
TOMASSO, Gisella (col.). ¿Debemos seguir haciendo la episiotomía
en forma rutinaria? Revista de Obstetricia y Ginecología
de Venezuela, Caracas, v.62, n.2, p.115-121, 2002.
2 COCHRANE COLLABORATION: consumer network. Disponível em:
http://www.cochraneconsumer.com/. Acesso em: 2003.
3 DINIZ, Simone Grilo. Humanização da assistência
ao parto: um diálogo. Disponível em: www.mulheres.org.br/parto.
Acesso em: 2003.
4 http://www.goodnewsnet.org/temporary02/BookOne_Ch_twoSept02.htm
5 BOSTON WOMEN'S HEALTH BOOK COLLECTIVE-BWHBC. The new our bodies,
ourselves. Nova York: Touchstone Simon and Schuster, 1998.
6 KITZINGER, S. The Sexuality of Birth. In: Women's Experience of
Sex. S. Kitzinger (ed.) 209-218. New York: Penguin.
7 WAGNER M. Episiotomy: a form of genital mutilation. Lancet 1999;
353: 1977.
8 GOER HENCI. The Tragedy of Routine Episiotomy. http://www.gentlebirth.org/nwnm.org/Tragedy_Routine_Episiotomy.htm
9 GIBSON, FAITH. The Brave New World of 21st Century Maternity Care,
LM,CPM
http://www.goodnewsnet.org/temporary02/Book_one_ch_5_Sept02.htm
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10 www.amigasdoparto.com.br/episiotomia4.html
11 França Jr., Ivan. Saúde Pública e Direitos
Humanos. In: Zóbole, Elma e Fortes, Paulo. Bioética
e Saúde Pública. São Paulo. Ed. Loyola, 2003.
(no prelo)
12 TOMASSO, Gisella (col.), op. cit.
13 TOMASSO, Gisella (col.), op. cit.
14 http://www.usp.br/fo/lido/patoartegeral/patoarterepa3.htm
15 ALVES, M.T.S.B., SILVA, A A M. S (ORGS.) Avaliação
da qualidade de Maternidades - Assistência à mulher
e seu recém nascido no SUS - UFMA/UNICEF - São Luís,
2000.
16 www.amigasdoparto.com.br/depoimentos (checar)
17 RÖCKNER G, HENNINGSSON A, WAHLBERG V, ÖLUND A. Evaluation
of episiotomy and spontaneous tears of perineum during childbirth.
Scand J Caring Sci 1988; 2:19-24.
18 GOER HENCI., op. cit.
19 REDE NACIONAL FEMINISTA DE SAÚDE, DIREITOS SEXUAIS E DIREITOS
REPRODUTIVOs. Dossiê Humanização do Parto.
20 CERES, GRUPO. Espelho de Vênus. Identidade Social e Sexual
da Mulher. Rio de Janeiro. Brasiliense, 1981.
21 AUSTRALIAN BROADCASTING COMPANY. Transcript and further information
for "Body of Knowledge". Disponível em: http://www.abc.net.au/quantum/scripts98/9825/clitoris.html.
Acesso em: 2003.
22 DAVIS FLOYD, R. Birth as an American Rite of Passage. Berkeley
and Los Angeles, University of California Press, 1992.
23 TOMASSO, Gisella (col.), op. cit.
24 TOMASSO, Gisella (col.), op. cit.
25 COCHRANE COLLABORATION: consumer network. Disponível em:
http://www.cochraneconsumer.com/. Acesso em: 2003.
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