A reflexão conceitual sobre gênero e suas interfaces
com a saúde da mulher em geral, e com a prevenção
das DST/AIDS em especial, é bastante rica e complexa, e não
caberia nos limites deste texto senão referir alguns dos
trabalhos recentes de levantamento destas interfaces, possibilidades
e limites (1). Nos limites deste trabalho, consideraremos o gênero
como o sexo socialmente construído (2), ou ainda, como o
conjunto de dispositivos pelos quais uma sociedade transforma a
sexualidade biológica em produtos da atividade humana, e
nesse conjunto se satisfazem estas necessidades humanas transformadas
(3).
O gênero é um construto social e cultural que estabelece
valores diferenciados para homens e mulheres, e as formas como eles
(homens e mulheres) se relacionam na sociedade. É um construto
específico em cada cultura - há diferenças
significativas nas quais os homens e as mulheres podem e não
podem ser comparados aos outros. Mas o que há de consistente
entre as culturas é que há diferenças entre
os papéis de homens e mulheres, no acesso aos recursos produtivos
e na autoridade para tomar decisões. Este poder diferenciado
entre os gêneros está articulado de forma complexa
na vivência da sexualidade.
O poder diferenciado na esfera sexual amplia a vulnerabilidade
tanto de das mulheres quanto de homens por várias razões,
muito presentes mesmo nos dias de hoje, como veremos adiante. No
caso das mulheres, isso se dá
pela expectativa de que as mulheres "direitas" devam
ser ignorantes e passivas sexualmente;
pelo valor dado à virgindade vaginal;
pela cultura do silêncio sobre as doenças de transmissão
sexual;
pela relação da sexualidade com a dependência
econômica das mulheres (mesmo dentro do casamento e fora
do sexo comercial);
e ainda pela violência de gênero contra mulheres
adultas, e crianças e adolescentes de ambos os sexos, que
está fortemente associada à vulnerabilidade a infecções
sexualmente transmissíveis (4, 5).
Junte-se a isso a "divisão sexual do cuidado",
as expectativas de gênero com relação ao cuidado
de si e dos outros: espera-se que as mulheres cuidem dos homens,
das crianças, da casa e de si mesmas. Parece haver uma expectativa
masculina de que nascer homem os autoriza a esperar cuidados (comida
e roupa lavada, monitoramento da saúde e de maus hábitos,
etc.), e a frustração dessa expectativa pode levar
a conflitos e mesmo à desestruturação do homem
"largado" (6). O auto-cuidado* seria diferente
entre homens e mulheres, o que nos leva a crer que devemos estar
abertos para compreender estas diferenças se queremos ter
uma assistência mais sensível e mais apropriada a essas
diferenças.
Para compreender a questão que nos propusemos, temos ainda
dois desafios: primeiro, a incorporação dos homens
ao debate e ao desenho de políticas, e segundo, a necessidade
de contemplar o respeito e a promoção dos direitos
humanos de todos os envolvidos. Para nós como feministas,
essa incorporação é contraditória, e
muitas vezes, nossa concessão só chega até
ao benefício indireto aos homens, caso eles funcionem adequadamente
como meios à saúde feminina. Tê-los como finalidade
principal de nossas ações é outro desafio,
que certamente eles estão mais habilitados a vislumbrar.
Apesar dessas contradições, para estudar nossa questão
de uma perspectiva relacional, buscamos incorporar a fala masculina,
por duas perspectivas: uma mais direta (o que dizem os homens),
e outra mais indireta (o que entendem as mulheres sobre o que dizem
os homens).
Fizemos entrevistas semi-estruturadas com mulheres e homens, e
grupos focais com homens, procurando compreender da perspectiva
de gênero o que contribui para um tratamento "tranqüilo",
e como cada um cuida de sua saúde.
Pedimos para cada um contar
como aprendeu a identificar o "normal" e o alterado
do seu funcionamento genital;
o que fazem quando identificam algum problema de saúde
sexual, explorando as relações entre o cuidado da
saúde física e cuidado da saúde afetiva e
moral (questão que apareceu no decorrer da pesquisa);
a quem, quando e como recorrem; o que acham que facilitaria
para a mulher ou para o homem o acesso a uma boa assistência
(o serviço amigável, acolhedor);
como é que o homem com quem se relacionam se cuida; e
o que acha que facilitaria para o homem;
e também perguntamos como seria o serviço ideal
para se recorrer quando aparece algum problema, para o homem e
para a mulher.
O projeto foi uma parceria com o CES (Centro de Educação
para a Saúde, de Santo André) e com a Faculdade de
Saúde Pública.
As entrevistas de mulheres foram feitas por mulheres, depois de
um treinamento sobre os temas da pesquisa. As mulheres pesquisadas
foram 18 usuárias do Coletivo, de diferentes idades, cor
da pele, faixas de renda e escolaridade. No decorrer do projeto,
desenvolvemos uma oficina e uma cartilha sobre auto-cuidado sexual
e reprodutivo, que oferecemos a nossas usuárias e que planejamos
em um futuro próximo ter um equivalente para os homens.
Um dado interessante da pesquisa é que tentamos muitas vezes
fazer esse trabalho com homens, mas os resultados foram muito limitados,
talvez porque para os homens seja difícil mesmo reconhecer
que há algo sobre eles mesmos que eles desconheçam.
As entrevistas e grupos focais com homens foram feitos por um pesquisador
do sexo masculino, com experiência com o tema. Nesse texto,
apresentaremos os resultados da pesquisa com as mulheres, e esperamos
que na apresentação oral possamos combinar as duas
partes da pesquisa.
*Por auto-cuidado, estamos usando a definição do Health Canada
Exploratory Study, como "as decisões e ações feitas por alguém que
enfrenta um problema de saúde, no sentido de lidar com ele e de melhorar"