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Gênero, Sexualidade e Auto-cuidado:

Discussão

A reflexão sobre sexualidade, as relações de gênero e a vulnerabilidade dos homens é um dos temas centrais a ser incorporado aos programas de prevenção, trazendo desafios adicionais. É importante aqui partir da evidência de que existem diferentes masculinidades, referidas às diferenças de classe social, raça e etnia, orientação sexual, entre outras variáveis, que tornam os homens consideravelmente diferentes e desiguais entre si, e portanto, enfrentando diferentes situações de vulnerabilidade.

Em termos gerais, a vulnerabilidade masculina às DST/Aids se constrói a partir da socialização dos homens para um estilo de vida em que o risco não é visto como algo a ser evitado ou prevenido, mas enfrentado e superado; e em que o sexo deve ser buscado à revelia do risco e jamais recusado.

Some-se a isso a crença de que o cuidado consigo e com o outro são valores, em nossa sociedade, associados ao feminino: homem que é homem nem adoece. Esses repertórios parecem fazem parte e orientar, em maior ou menor grau, o cotidiano dos homens em geral, a despeito de raça, cor, credo e orientação sexual (7).

Nos limites desse trabalho, lidamos basicamente com as masculinidades heterossexuais, reconhecendo que a complexidade do debate sobre vulnerabilidade dos HSH exige um espaço específico na prevenção. Por outro lado, é necessário considerar que a tendência à culpabilização dos homens e à vitimização das mulheres, não tem sido útil à organização de programas nem tem ajudado a trazer os homens aos serviços de saúde ou contribuído para que esses mudem suas práticas.

Se o discurso prescritivo na saúde sexual-reprodutiva é freqüentemente inadequado para as mulheres, é ainda mais para homens. Para muitos, aceitar o tratamento sem ter sintomas podia ser percebido como reconhecimento de vulnerabilidade; estar doente ou precisar de ajuda pareceria pouco masculino. Aceitar tratamento também pode soar como reconhecimento de culpa por adultério, uma autorização implícita para infidelidade dela (revanche). A ausência de sintomas dele pode justificar suspeitas de infidelidade dela, levando a mais conflitos.

Como recomendações para a prática, a prescrição de tratamento simultâneo de DSTs deve reconhecer as relações de poder e as diferentes concepções de saúde e autocuidado de mulheres e homens. Como freqüentemente essa prescrição desencadeia conflitos, o aconselhamento para essa negociação é fundamental. Considerando a associação entre DST e conflitos em geral, faz sentido estar aberto à escuta do contexto da relação quando se for prescrever um tratamento simultâneo, para mulheres ou para homens, oferecendo aconselhamento e eventual referência a serviços especializados.

O nosso discurso sobre saúde freqüentemente confina os homens em dois papéis: ou no papel de meio (para atingir as mulheres, promover a saúde delas, não como finalidade), ou pior, no papel de perpetrador (da contaminação, da agressão, etc.). Ao nosso entender, homens e mulheres definem sua 'saúde' de forma muito diferente: eles descrevem sua saúde como "o silêncio dos órgãos", uma noção mais funcional - enquanto continua funcionando, mesmo que mal, dá pra levar. Há uma valorização do comportamento de risco e uma noção (muitas vezes realista) de que ir ao médico é procurar problemas - "quem procura acha". Para elas há uma aceitação, muitas vezes passiva e vitimizada, de uma fiscalização infinita de doenças assintomática, reais ou supostas, com uma intensa atenção para os ritmos e ciclos e suas possíveis alterações.

E por fim, uma pergunta: apesar de haver um evidente problema de auto-cuidado para os homens, que resulta em graves problemas de saúde tais como uma expectativa de vida menor, quanto da postura masculina de recusa à medicalização não seria uma atitude saudável?

Quando perguntados sobre como deveria ser o serviço para os homens, cita-se como qualidades quase tudo (exceção feita ao "acolhedor", "amigável", etc., coisa de boiola), que os cidadãos em geral, mulheres e homens, merecem: agilidade, rapidez na acesso, sensibilidade, privacidade, etc., pois para os homens seria inaceitável aquelas horas de espera e a assistência pouco resolutiva, aceita pela mulheres, mais passivas.

Em que pese as especificidades de atender essas expectativas diferentes, certamente a nossa tarefa é nivelar por cima a qualidade dos serviços.

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