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Gênero e prevenção das DST/AIDS
Simone G. Diniz
Introdução:
Este documento é uma
versão da consultoria solicitada pela Unidade de Prevenção da Coordenação
Nacional de DST/AIDS (CN-DST/AIDS) em junho de 2001, para subsidiar diretrizes
para a prevenção de DST/AIDS em mulheres, com um enfoque de gênero. O trabalho
tomou como ponto de partida o documento “Diretrizes e Políticas de Prevenção e
Controle de DST/AIDS em Mulheres” (1997), elaborado pelo grupo de trabalho
constituído pela CN-DST/AIDS para aprofundar este tema.
Com base na
solicitação referida, foram realizadas uma
revisão bibliográfica e entrevistas informais com profissionais de saúde tendo
como eixos três temas: uma atualização do quadro epidemiológico das DST/AIDS
entre mulheres no Brasil e suas tendências; um balanço dos estudos mais recentes
sobre eficácia e segurança dos assim chamados recursos biológicos disponíveis
para a prevenção em mulheres, e em terceiro lugar, um levantamento preliminar
das experiências sociais e comportamentais dirigidas às mulheres e/ou com
enfoque de gênero no Brasil nos últimos anos, tendo
como uma das referências os resumos dos trabalhos apresentados no III
Congresso Brasileiro de Prevenção das DST/AIDS (III CBP). No decorrer do
processo, as informações de III CBP foram distribuídas pelo conjunto do texto,
pois se avaliou que ali melhor contribuiriam para exemplificar as possibilidades
e limites das propostas de intervenção[i].
Considerou-se a importância de um enfoque de gênero para o trabalho, já colocado
no documento de 1997, no contexto do esforço atual
para examinar a epidemia, a partir de
seus determinantes sociais mais amplos, para além das suas dimensões biológicas,
de forma a contribuir para aprofundar a reflexão sobre as dificuldades,
paradoxos e impasses enfrentados nas ações de
prevenção dirigidas à população feminina.
A reflexão conceitual
sobre gênero e suas interfaces com a saúde da mulher em geral, e com a prevenção
das DST/AIDS em especial, é bastante rica e complexa, e não caberia nos limites
desta consultoria senão referir alguns dos trabalhos recentes de levantamento
destas interfaces, possibilidades e limites (1). Nos limites deste trabalho,
consideraremos o gênero como o sexo socialmente construído (2), ou ainda, como o
conjunto de dispositivos pelos quais uma sociedade transforma a sexualidade
biológica em produtos da atividade humana, e nesse conjunto se satisfazem estas
necessidades humanas transformadas (3).
O gênero é um
construto social e cultural que estabelece valores
diferenciados para homens e mulheres, e as formas como eles (homens e mulheres)
se relacionam na sociedade. É um construto específico em cada cultura –
há diferenças significativas nas quais os homens e as mulheres podem e não podem
ser comparados aos outros. Mas o que há de consistente entre as culturas é que
há diferenças entre os papéis de homens e mulheres, no acesso aos recursos
produtivos e na autoridade para tomar decisões. Este poder diferenciado entre os
gêneros está articulado de forma complexa na vivência da sexualidade. O poder
diferenciado na esfera sexual amplia a vulnerabilidade tanto de das mulheres
quanto de homens por várias razões, muito presentes mesmo nos dias de hoje, como
veremos adiante. No caso das mulheres, isso se dá pela expectativa de que as
mulheres “direitas” devam ser ignorantes e passivas sexualmente; pelo valor dado
à virgindade vaginal; pela cultura do silêncio sobre as doenças de transmissão
sexual; pela relação da sexualidade com a dependência econômica das mulheres
(mesmo dentro do casamento e fora do sexo comercial); e ainda pela violência de
gênero contra mulheres adultas, e crianças e adolescentes de ambos os sexos, que
está fortemente associada à vulnerabilidade à infecções sexualmente
transmissíveis (4, 5) . Mesmo em situações em que a
mulher tem situação econômica “independente”, estas desigualdades de gênero
estão presentes apesar de ser de forma diferenciada.
Mais recentemente,
agências como OMS e UNAIDS têm defendido a abordagem de gênero como
imprescindível para a resposta à epidemia, tanto na compreensão e intervenção
sobre a vulnerabilidade das mulheres, quanto sobre a vulnerabilidade dos homens.
Nessa direção, a resposta à epidemia deve ser baseada no gênero por três razões
principais: primeiro, pela a desigualdade de poder social, econômico e cultural;
segundo, pela carga desproporcional resultante da epidemia que cai sobre as
mulheres: são mais vulneráveis, são muito mais sobrecarregadas pelos cuidados
aos doentes adultos e crianças, e sofrem mais a discriminação quando infectadas.
Em terceiro, pela evolução diferencial da infecção nas mulheres, seja pela sua
biologia, seja pelos vieses discriminatórios de gênero na prevenção e na
assistência (6)
A produção brasileira
sobre as relações entre gênero e saúde tem sido reconhecida internacionalmente,
especialmente por sua capacidade de ser traduzida em políticas públicas de saúde
sexual e reprodutiva, desde antes mesmo das Conferências Internacionais de Cairo
e Pequim, que consagraram estes conceitos[ii].
No país, a partir da
década de 80 o conceito de saúde integral, trazendo a discussão da
socialidade e das relações de poder nas questões de saúde da mulher e sua
assistência, orientou a organização das ações do Programa de Atenção Integral de
Saúde da Mulher (PAISM), em certa medida antecipando a abordagem de saúde (e
direitos) sexuais e reprodutivos que viria a se popularizar nos anos seguintes[iii].
A reflexão sobre
gênero e saúde acrescenta ao debate sobre a epidemia de AIDS um conjunto de
desafios, entre eles superar a chamada “cegueira de gênero”, que fez com que em
grande medida, as mulheres tenham sido invisíveis na epidemia; que sua
importância como grupo vulnerável tenha sido subestimada; que as ações dirigidas
às mulheres em grande parte se limitem à prevenção da transmissão perinatal –
tratando a mulher como meio, e não como finalidade da assistência. E sobretudo,
essa discussão aponta para a dificuldade de reconhecer e lidar com o
diferencial de poder entre homens e mulheres como fator determinante da
transmissão do HIV/AIDS. Aqui se incluem questões delicadas como, entre outras,
a violência de gênero, física e sexual, contra mulheres e contra crianças de
ambos sexos, e o debate sobre as opções reprodutivas no contexto da ilegalidade
do aborto, e do risco da orfandade. A esses desafios se somam mais duas
urgências – a incorporação dos homens ao debate e ao desenho de políticas, assim
como a necessidade de contemplar o respeito e a promoção dos direitos humanos de
todos os envolvidos.
A discussão sobre as relações de gênero e a vulnerabilidade dos homens é um dos
temas centrais a ser incorporado aos programas de prevenção, trazendo desafios
adicionais. É importante aqui partir da evidência de que existem diferentes
masculinidades, referidas às diferenças de classe social, raça e etnia,
orientação sexual, entre outras variáveis, que tornam os homens
consideravelmente diferentes e desiguais entre si, e portanto, enfrentando
diferentes situações de vulnerabilidade.
Em termos gerais, a vulnerabilidade masculina às DST/Aids se constrói a partir
da socialização dos homens para um estilo de vida auto-destrutivo, em que o
risco não é visto como algo a ser evitado e prevenido, mas enfrentado e
superado; e em que o sexo deve ser buscado à revelia do risco e jamais recusado.
Some-se a isso a crença de que o cuidado consigo e com o outro são valores, em
nossa sociedade, associados ao feminino: homem que é homem nem adoece. Esses
repertórios parecem fazem parte e orientar, em maior ou menor grau, o cotidiano
dos homens em geral, a despeito de raça, cor, credo e orientação sexual (OMS/UNAIDS/Papai).
Nos limites desse trabalho, lidaremos basicamente com as masculinidades
heterossexuais, reconhecendo que a complexidade do debate sobre vulnerabilidade
dos HSH exige um espaço específico na prevenção.Por outro lado, é necessário
considerar que a tendência à culpabilização dos homens e à vitimização das
mulheres, não tem sido útil à organização de programas nem tem ajudado a trazer
os homens aos serviços de saúde ou contribuído para que esses mudem suas
práticas.
Atualmente, nos
encontramos em um momento mais propício para a incorporação desta nova agenda de
questões, e embora não tenhamos nenhuma solução mágica ou fácil à vista, cresce
o reconhecimento, em nível nacional e internacional, da importância de ações que busquem,
para além da superação da cegueira de gênero,
reconhecer questões até então subestimadas pela abordagem meramente
biológica, como a necessidade de intervir mais amplamente no fortalecimento das mulheres e de segmentos masculinos mais vulneráveis e
fragilizados e na superação das desigualdades sociais, econômicas e
culturais entre mulheres e homens. (6)
É importante
ressaltar que o Brasil tem tido um papel especialmente importante no cenário
internacional no desenvolvimento de políticas sociais e de saúde criativas e
efetivas, preocupadas com a inclusão social e com o combate à discriminação,
incluindo setores da sociedade civil organizada, tanto na saúde da mulher quanto
no campo das DST/AIDS. Apesar do relativo desencontro entre estas duas
vertentes, há todo um campo aberto para a interfecundação.
[i]
Os trabalhos do CBP serão referidos por categoria (material educativo, oral ou
pôster, ME, O ou P) seguido da numeração de ordem no índice do congresso,
reproduzida nas referências desse texto.
[ii]
[ii]
As Conferências do Cairo (População e Desenvolvimento, 1994) e Pequim (Mulher
e Desenvolvimento, 1995) e sua preparação tiveram um papel central no
desenvolvimento e na legitimação dos conceitos de saúde reprodutiva e sexual,
criados no contexto da luta política das mulheres por direitos reprodutivos.
Ainda que se constituam em grandes avanços com relação às concepções mais
estreitas e biologicistas que freqüentemente orientam os serviços de saúde da
mulher, ao nosso entender, não superam nem substituem, mas sim complementam, a
noção mais ampla de integralidade da assistência.
[iii]
Há presentemente uma polêmica acalorada sobre a pertinência dos termos
associados à integralidade da assistência à saúde, em oposição ao uso dos
termos saúde sexual e reprodutiva. A discussão dos limites e alcances das duas
alternativas conceituais, muito estimulante, tem sido trazida por várias
autoras e não cabe nos limites deste trabalho, até porque subestimamos a
incompatibilidade do uso de ambos, e faremos referência a cada um deles quando
parecer mais adequado. Para uma visão geral do debate entre os pólos
conceituais da integralidade e da saúde reprodutiva, V. Corrêa (2001), citada
acima.
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