Com
relação à prevenção secundária na promoção
da saúde reprodutiva das mulheres com HIV/AIDS, duas questões emergentes
merecem uma atenção especial: por um lado, a gravidez indesejada no contexto
da ilegalidade do aborto, e por outro, o desejo da gravidez. Até onde
conseguimos informação, não há padronização para o procedimento ou o
aconselhamento para mulheres soropositivas grávidas que desejam
interromper a gestação; estas mulheres muitas vezes se vêem forçadas a
assumir a realização do aborto por sua conta e risco, sem comunicar sua condição
sorológica aos serviços, clandestinos, por temerem a recusa da assistência.
Elas também não dizem, nos serviços públicos que atendem a gestante com
complicações de aborto provocado (hemorragia ou infecção), que houve uma
tentativa de interrupção de gravidez, por medo de serem maltratadas em vista
da tripla transgressão: serem soropositivas, terem engravidado (fazem sexo sem
proteção), e não quererem levar adiante uma gravidez.
Mesmo em serviços onde há uma sensibilidade especial em
relação ao tema, o assunto não é assumido institucionalmente, dado o
contexto da ilegalidade do aborto voluntário no Brasil. Sabe-se que alguns dos
profissionais orientam o uso do Cytotec
(misoprostol) para induzir o aborto, considerada a alternativa menos perversa. O
misoprostol muitas vezes interrompe a gravidez sem que haja um abortamento
completo, pois parte dos restos ovulares podem ficar retidos no útero,
implicando em risco de hemorragia e infecção. Nesses casos, o misoprostol
transforma uma “gravidez indesejada” em um “abortamento incompleto”,
condição “legal” para a qual as pacientes podem buscar ajuda médica nos
serviços, ainda que sujeitas a hostilidades no tratamento.
Os
estudos mostram que é muito freqüente que em casais discordantes com o
conhecimento da condição sorológica de um dos parceiros, haja falha no
uso do condom e gravidez decorrente. Mas certamente muitas gravidezes resultam
do não uso do condom, ou de seu uso inconsistente. Um estudo em São Paulo
mostrou que 75% das gravidezes nesses casais, segundo declaração das
gestantes, decorriam de ruptura de condom (33). Certamente essas falhas existem
e é importante orientar as mulheres e os casais para a técnica correta, a
possibilidade do condom feminino e da contracepção de emergência. Porém,
pela alta freqüência desses acidentes, pode-se supor que pelo menos parte
dessas mulheres se constrangem de declarar ao serviço que simplesmente não
usaram qualquer proteção. É possível que este comportamento se deva ao
receio de uma reação adversa dos provedores que tanto insistiram no
preservativo e julgam negativamente a gravidez na mulher positiva (53, 62,64,
67).
A
não-conformidade das mulheres com o padrão esperado de cuidado de si e dos
outros, em especial quando grávidas, é
reconhecidamente um obstáculo para o adequado vínculo das mulheres com
o serviço, pois estas temem represálias e hostilidade do serviço, em
especial se são solteiras, usuárias de drogas ou muito jovens. A gravidez, no
caso das mulheres positivas, é a prova concreta de que elas desconsideraram as
recomendações, e os provedores, por sua vez, podem ter que enfrentar seus próprios
sentimentos de impotência e mesmo de hostilidade às pacientes, frente ao
resultado precário do seu trabalho.
Esse
contexto faz com que seja necessário para os profissionais, considerar a opção
da gravidez como válida, embora problemática, de forma a poder lidar
adequadamente com o problema e ajudar a paciente a uma concepção menos
arriscada (56). Essa orientação pode passar por planejar a gravidez em
melhores condições clínicas e com intercorrências tratadas, e também através
da orientação da observação dos sinais da ovulação (muco, temperatura,
etc.) de forma que a mulher que busca conceber possa ter apenas uma ou poucas
relações “desprotegidas” por ciclo fértil, com maior chance de concepção
por ciclo.