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Contar a história do Coletivo e do movimento de mulheres
pela saúde é recuperar uma parte importante
da história do feminismo. Para as feministas, o direito
à saúde vai muito além da cura da enfermidade,
pois esse direito implica em bem-estar físico, emocional
e mental da pessoa. A saúde influi e é condicionada
por todos os aspectos de nossas vidas, ela é assegurada
pela alimentação, educação, habitação
e trabalho. Portanto, não podemos conceber a saúde
da mulher como algo desvinculado do seu papel dentro da sociedade
e de sua esfera íntima.
As mulheres, em seu processo de tomada de consciência,
transformam os problemas pessoais e individuais em assuntos
políticos. Quando examinamos nossas próprias
vidas, começamos a analisar e a questionar as estruturas
sociais que nos oprimem. Ao entendermos essas estruturas,
podemos organizar ações para neutralizar as
opressões.
Nesse processo de questionamento, as mulheres começaram
a desmitificar o exercício da medicina em geral e da
ginecologia em particular. Partindo da constatação
de que a relação do médico com a paciente
era autoritária e as práticas desumanizadas,
as mulheres começaram a formar grupos de aprendizagem
do autocuidado e de troca de experiências sobre a saúde.
Os primeiros grupos surgiram nos Estados Unidos, nos anos
70, se estendendo, logo depois, para a Europa, a América
Latina e o Caribe. As primeiras ações dos grupos
As primeiras ações foram de denúncia
de um estado de coisas, no campo da saúde, que oprimiam
as mulheres e outros excluídos.
As feministas tomaram da caneta e desmascararam velhos mitos,
como o do orgasmo vaginal. Afirmaram que o amor sexual entre
mulheres não era uma doença, mas, sim, uma opção.
Denunciaram que o controle da população, sob
a máscara da liberdade de reprodução,
era a principal motivação para pesquisa e desenvolvimento
dos métodos contraceptivos. Levaram a público
que muitas mulheres do Terceiro Mundo estavam sendo usadas
como cobaias em pesquisas de alta tecnologia para o controle
da natalidade. E mais, que o emprego desses métodos,
assim como o da esterilização de mulheres, eram
usados por muitos governos como forma de controle populacional.
No campo da indústria farmacêutica, as mulheres
organizaram campanhas contra drogas perigosas, como o Depo-Provera.
Lutaram, sobretudo, contra as políticas dos laboratórios,
que obede-cendo às leis de lucro, exercem influência
na definição dos serviços de saúde.
As feministas investigaram a pílula e os diversos dispositivos
intra-uterinos, denunciando seus riscos. Exigiram que as mulheres
fossem informadas sobre os riscos e vantagens de cada método.
Lutaram pela descriminalização do aborto,
que além de um direito de escolha da mulher, por ser
proibido, no Brasil e em muitos outros países, é
uma importante causa de mortalidade materna. Apontaram que
a gravidez e o parto em condições de risco podem
levar à morte ou a questões de morbidade. Listaram
novas preocupações, que influenciam a saúde
direta e indiretamente, como nutrição, saúde
mental, sobrecarga de trabalho etc.
Em síntese, os objetivos do movimento de mulheres
pela saú-de foram e seguem sendo o de recuperar o conhecimento
das mulheres, denunciar a expropriação e o controle
do corpo feminino e alcançar uma participação
ativa na formulação e implementação
das políticas de saúde.
Como conseqüência dos trabalhos desses grupos
germinais, a América Latina e o Caribe contam, hoje,
com uma forte organi-zação das mulheres em torno
da saúde, dos direitos reprodutivos e sexuais. Redes
de saúde, publicações, simpósios,
seminários, cur-sos e ações políticas
pipocam por todo o continente.
Mulheres e saúde no Brasil
Surgido nos anos 70, o movimento de mulheres pela saúde
apresenta um alto nível de organização
e de articulação. Um momento emblemático
foi a realização do 10 Encontro Nacional de
Saúde da Mulher, em 1984. No evento, estiveram presentes
mais de setenta grupos de mulheres de todo país, resultando
na elaboração do primeiro documento público
a Carta de Itapecerica com as reivindicações
das mulheres para a saúde.
Nesse mesmo ano, o Ministério da Saúde implementou
o Programa de Assistência Integral à Saúde
da Mulher, Paism , que objetivava criar ações
dirigidas às mulheres na faixa etária de 15
a 49 anos. O movimento de mulheres estava fortalecido com
os princípios da Carta de Itapecerica, que reivindicava,
entre outras questões, que o Paism atendesse a todas
as faixas etárias, contem-plando, assim, todos os momentos
de vida da mulher. A reivindicação acabou por
ser aceita, o que representou incontestável vitória
para o movimento.
Muitos outros avanços ocorreram e podemos dizer,
neste início da década de 2000, que o movimento
de mulheres pela saúde encontra-se bastante organizado.
Essa organização se traduz no número
de grupos e na participação em vários
mecanismos de decisão de implementação
das políticas públicas. A criação,
em 1991, da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos
Reprodutivos atuante em 21 estados brasileiros
dá a dimensão do grau de organização.
A participação das mulheres nos movimentos
pela saúde sempre foi propositiva e crítica,
tentando fazer valer as principais reivindicações
e atentando para as questões fundamentais colocadas
pelas conferências da Nações Unidas, como
a IV Conferência Internacional sobre População
e Desenvolvimento (1994, no Cairo) e a IV Conferência
Mundial sobre a Mulher (1995, em Pequim). Lembrando que ambas
as conferências foram pautadas por reivindicações
fundamentais dos movimentos de mulheres.
O surgimento do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde
Dentro do contexto da criação de grupos de mulheres
lutando pela saúde e pelos direitos reprodutivos e
sexuais, surge em 1981, na cidade de São Paulo, o Coletivo
Feminista Sexualidade e Saúde, que teve como fundadoras
Elisabeth Souza Lobo, Maria José de Oliveira Araújo
e Maria Tereza Verardo.
A proposta inaugural girou em torno do resgate da saúde
como uma questão de direito das mulheres, e da compreensão
de que as questões pessoais são questões
políticas. Os primeiros trabalhos do Coletivo realizaram-se
em sindicatos, associações de bairro e outras
entidades, situados na periferia e municípios vizinhos
de São Paulo: Grajaú, Carapicuíba, Santa
Isabel, Guarulhos, entre outros. Os cursos de sensibilização
para questões da saúde da mulher estavam dirigidos
para multiplicadores.
O objetivo principal dos cursos era que, de posse de informações,
as mulheres refletissem sobre corpo, saúde, contracepção,
maternidade e, assim, se organizassem para melhorar suas condições
de vida e passassem a participar da vida da comunidade e dos
espaços públicos.
O Coletivo, ao receber várias solicitações
para a criação de cursos, decidiu desenvolver
um trabalho de formação de mulheres que se tornassem
aptas a multiplicar a proposta. Como resultado desses cursos,
o Coletivo publicou o caderno O Prazer é Revolucionário
e elaborou outros materiais educativos referentes aos temas
trabalhados.
Com a evolução desses trabalhos, as ativistas
do Coletivo sentiram a necessidade de aprender ainda mais
sobre as questões concernentes à saúde
da mulher.
Nasce o ambulatório
Ao longo do processo de maturação do Coletivo,
suas integrantes perceberam a necessidade de sistematizar
as experiências e criar um espaço em que a teoria
e as reflexões pudessem ser aplicadas. Como inspiração
para a criação do ambulatório, havia
também a experiência vivida por Maria José
de Oliveira Araújo no Dispensaire des Femmes, em Genebra.
Ao voltar ao país, Maria José percebeu que o
movimento de mulheres pela saúde estava maduro para
criar um ambulatório, que colocasse novos paradigmas
de atendimento às mulheres.
Aceita a proposta de criação do ambulatório,
começou o processo de formação e capacitação
entre as próprias participantes, desde exercícios
práticos até discussões acerca das questões
que envolviam a saúde, os direitos sexuais e reprodutivos
das mulheres. Essas discussões foram amplas e contaram
com pessoas de várias áreas, isto é,
profissionais de saúde, mulheres da universidade, mulheres
dos movimentos de base, intelectuais etc. O ambulatório
finalmente foi aberto em 1984.
Parcerias & etc
O Coletivo tem realizado importantes parcerias em São
Paulo e em vários estados brasileiros. Uma parceria
muito importante é com a universidade onde o
caminho é de ida e de volta, ou seja, de alimentação
recíproca.
Dois exemplos concretos de parceria são uma pesquisa
realizada com o Cemicamp, sobre o uso do diafragma, e a parceria
realizada com o Departamento de Medicina Preventiva da USP,
em torno da capacitação de profissionais de
saúde para o atendimento à mulher em situação
de violência sexual e doméstica.
O Coletivo também prestou e presta consultorias para
várias prefeituras, como as de Porto Alegre, Goiânia,
São Paulo, Santos, São José dos Campos,
Cuiabá.
A história do Coletivo é uma história
política
A história do Coletivo está diretamente ligada
ao avanço e à organização das
mulheres em torno da saúde e dos direitos reprodutivos
e sexuais. E, principalmente, com a necessidade da gestação
de um espaço, no qual as usuárias, de fato,
pudessem ser ouvidas e tivessem outro tipo de atendimento.
Um espaço de produção de novas práticas
e de desenvolvimento de novas tecno-logias na área
da saúde da mulher.
Enfim, um centro no qual usuárias e trabalhadoras
do Coletivo pudessem aprender uma nova relação,
diferente da relação hierarquizada que as mulheres
tradicionalmente encontram no atendimento dos serviços
públicos e privados de saúde.
Claro que o Coletivo não tem, nem nunca teve, intenção
de substituir o Estado no atendimento às mulheres,
mesmo porque isso seria impossível. A proposta é
oferecer um novo modelo de atendimento. Sua principal meta
é que as usuárias, que passam pelos seus serviços,
sintam-se satisfeitas em suas demandas.
E que o modelo de atenção à saúde
da mulher, criado pelo Coletivo, possa ser aproveitado em
outros espaços, e que sejam os mais amplos e diversos
possíveis. Este modelo prova que é possível
romper com a relação hierarquizada, com a forma
biologicista e individualista de enxergar a mulher dentro
da consulta ginecológica
Portanto, é um modelo político, pois se insere
em um contexto mais amplo. Ele propõe uma intervenção
positiva e propositiva nas políticas públicas
de saúde, direitos reprodutivos e sexuais da mulher.
É político, também, ao criar novos conceitos
e fomentar novas tecnologias.
O Coletivo tem trabalhado, ao longo dos anos, com a promoção
de cursos, debates, seminários, com a promoção
de programas de capacitação e também
com a produção de artigos, manuais e livros.
Assim, o Coletivo vem contribuindo para a melhoria da saúde
da mulher brasileira, por meio da participação
nas políticas públicas, ao apresentar um modelo
possível de ser reaplicado. O Coletivo vem demonstrando
na prática que, com pouco dinheiro, desejo político
e pessoas capacitadas, é possível reverter,
em nosso país, o difícil diagnóstico
da saúde da mulher.
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