| É com prazer
que trazemos ao público de língua portuguesa mais um
exemplar da revista Questões de Saúde Reprodutiva. Esta
terceira edição da nossa revista busca abordar o tema da
morbimortalidade materna a partir de uma perspectiva
ampla, que inclui o aborto e suas complicações quando
realizado de modo inseguro e os problemas que as
mulheres com HIV enfrentam quando grávidas.
Isto por que temos a compreensão de que todos estes
agravos representam faces diversas de uma mesma moeda,
qual seja a precariedade na oferta de serviços de saúde
sexual e reprodutiva de ampla cobertura e boa qualidade
para as mulheres, em especial as mais pobres e que vivem
em países pobres ou onde existem grandes desigualdades
sociais. |
Questões de Saúde Reprodutiva
Vol.3 – no.3 – agosto/2008
Mortalidade e morbidade materna
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A identificação e análise das razões pelas quais a saúde
sexual e reprodutiva das mulheres é colocada em segundo plano em
muitos dos sistemas de saúde nacional é complexa e foge do
escopo desta apresentação. No entanto, a consistência da relação
entre precários indicadores de saúde sexual e reprodutiva e
desigualdade de gênero em nível global sugere que, ao lado dos
determinantes mais específicos a cada país, como fragilidades do
sistema e dos serviços de saúde, modelos específicos de
financiamento ou mesmo dificuldades de incorporação tecnológica
,existe também um poderoso determinante subjacente à falta de
priorização da saúde sexual e reprodutiva das mulheres nos
planos e políticas de saúde dos diferentes governos, qual seja o
pequeno valor social atribuído ao sujeito mulher e a
naturalização da sexualidade e da reprodução biológica. Ou, dito
de outra forma, existe uma idéia de que os atos sexuais são
realizados como resposta a “instintos”, a reprodução é a
decorrência “natural” do sexo e, pelo fato de as mulheres
acolherem em seus úteros fetos que no futuro darão origens a
novos seres humanos, a reprodução humana é um “assunto de
mulher”.
Sem dúvida, a reprodução biológica dos seres vivos é um processo
da natureza. No entanto, no mundo humano nada é tão somente
“natural”. A reprodução humana é um fato social complexo e
totalmente atravessado pela cultura. Ter filhos traz consigo as
representações de cada grupo social sobre quando, com quem e em
que condições os filhos são bem vindos, e também sobre quem é
responsável pela sua criação, incluindo a provisão de alimentos
e a garantia de moradia, educação e inserção em algum grupo
social ou familiar.
Do mesmo modo, o exercício da sexualidade não responde a um
suposto instinto. A produção do desejo sexual humano e sua
realização estão mediadas por valores, crenças, símbolos,
imagens e regras culturais. As normas sociais para o exercício
da sexualidade por homens e por mulheres são distintas, bem como
a atribuição cultural de responsabilidade sobre as conseqüências
da prática sexual. Dentro da perspectiva de que as mulheres
devem ter uma vida sexual restrita (reminiscência do período em
que não havia contracepção e que o homem queria ter certeza de
quem eram seus filhos de sangue para efeitos de herança) é
entendido que qualquer efeito inesperado do sexo em mulheres –
gravidez, DST ou a infecção pelo HIV) deve recair sobre a
mulher, como uma punição por uma suposta transgressão sexual.
Ou, o que muitas vezes dá no mesmo, de atribuir os efeitos
esperados e desejados, por exemplo, a gestação e posteriormente
a criação do filho, como um privilégio do “ser mulher”, que, por
esta razão, deverá ter os ônus assumidos por elas apenas.
De fato, nas sociedades ocidentais modernas existe uma prática
de responsabilizar as mulheres pela reprodução biológica, como
se, pela circunstância de o feto se desenvolver dentro de seus
úteros e se alimentar, após nascido, do seu leite, tornasse as
crianças uma produção das, e para as mulheres, retirando o
caráter sócio histórico que constitui cada sujeito humano. Essa
prática repousa sobre a concepção, igualmente equivocada, de que
as crianças são um bem para as suas mães, posto que as mulheres
se realizariam por meio da maternidade, e portanto qualquer dor
ou problema enfrentado durante e gestação ou parto, e
posteriormente, já está a priori recompensado. A supressão do
valor social e para o Estado das crianças, futuros adultos
produtivos e consumidores, atribuindo-lhes valor como objetos
das mulheres, opera uma primeira desvalorização dos atos de
gestar, parir, aleitar e cuidar.
A segunda operação de desvalorização da reprodução não mais
decorre da negação da importância intrínseca de cada ser humano
para o mundo e para cada país, mas da própria desqualificação
das mulheres e seus corpos. Assim, se as crianças são a
conseqüência do usufruto sexual, consentido ou não, do corpo das
mulheres por homens, este corpo e o sujeito que o habita parecem
não ter valor em si ou para si. Por isso a morte de uma mulher
no momento mesmo em que está trazendo a sociedade um novo
membro, produzido por uma ação que envolveu duas pessoas - e
onde seguramente uma delas, o homem, tinha total controle do que
estava fazendo- causa aparentemente tão pouca emoção.
Só a profunda desqualificação dos sujeitos mulheres e seus
corpos, e do ato de gerar e parir explica que, mesmo sendo já
sobejamente conhecidas as ações e tecnologias necessárias para
que uma mulher não morra ao dar à luz, isto ainda aconteça. Do
mesmo modo, só um profundo desrespeito para com as mulheres
explica que um mesmo Estado que deixa uma mulher morrer ao dar à
luz um filho desejado e muitas vezes planejado, penalize uma
mulher que decida interromper uma gravidez, muitas vezes fruto
de uma relação sexual não consentida, não planejada, em que o
contraceptivo usado com responsabilidade falhou ou em que a
mulher foi impossibilitada do seu uso. Do mesmo modo, só a
profunda desqualificação dos sujeitos mulheres e seus corpos
explica que se invista muito mais recursos para evitar que um
bebê gerado por uma mulher com HIV se infecte do que para
prevenir a infecção nas mulheres .
Evidentemente pode ser que a prevenção da transmissão vertical
do HIV seja mais fácil de ser implementada que a da transmissão
heterossexual do vírus; que também não existam serviços de saúde
sexual e reprodutiva que acessem os homens e forneçam a eles as
informações e orientações básicas necessárias para que eles se
tornem co-responsáveis pelas conseqüências dos seus atos sexuais
e reprodutivos; e que as mulheres são muitas vezes agentes
ativos da sua vida sexual.
Com todos estes argumentos concordaremos, assinalando que eles
reforçam o nosso argumento central, de que é necessário olhar a
saúde reprodutiva das mulheres a partir da perspectiva que
considera as atribuições sociais em torno do masculino e do
feminino e as hierarquias e desigualdades sociais que destas
atribuições se derivam.
Sabe-se que a redução do óbito materno pode ser obtida com uma
equilibrada combinação entre ações de educação sexual, melhora
na qualidade da atenção primária em saúde como um todo, melhora
no atendimento ao parto, considerando a maior agilidade nos
sistemas de referência e manejo das emergências obstétricas e a
redução do abuso de intervenções desnecessárias. Sabe-se também
que o aborto inseguro é uma das causas importantes do óbito
materno, em especial em países pobres, sendo também resultado da
falta de acesso das mulheres a métodos contraceptivos seguros, a
uma boa informação sobre saúde sexual e reprodutiva e também de
autonomia no exercício da sexualidade. Ou seja, uma política que
articulasse ações e informações sobre saúde sexual e reprodutiva
à oferta de serviços de boa qualidade e ampla cobertura já
estaria contribuindo para minimizar esses dois agravos. Do mesmo
modo, o acesso à informação e aos meios de prevenção sexual
também tem impacto sobre a epidemia do HIV entre as mulheres,
pois não se pode dissociar a saúde e segurança reprodutiva da
infecção pelo HIV entre mulheres, dado que esta também decorre,
em última instância, da falta de autonomia sexual feminina e da
negligência dos estados em desenvolver políticas de
conscientização dos homens sobre seus atos sexuais.
Para muitas mulheres, a gestação acontece no mesmo contexto em
que ocorre a infecção pelo HIV: por meio de relações sexuais
desprotegidas com um parceiro que não conhecia a sua condição
sorológica ou não se dispôs a declará-la, e não quis ou não pôde
usar preservativo. Para muitas dessas mulheres, o diagnóstico da
infecção ocorre concomitantemente ao diagnóstico da gravidez. Em
todos os países mais fortemente afetados pela epidemia do HIV,
as estratégias de redução da transmissão vertical do vírus
associam a testagem sorológica das mulheres às ações de cuidado
pré-natal, sendo este, portanto, o principal meio de diagnóstico
da infecção neste grupo.
Ora, uma mulher saber-se simultaneamente grávida e com HIV, onde
não existe a opção de interromper esta gestação de modo seguro,
onde o tratamento adequado, solidário e de qualidade para si não
está totalmente assegurado, e onde ainda existe um forte
preconceito contra portadores do HIV, é uma experiência eivada
de temores, ambigüidades e contradições. Discriminação pelos
serviços de saúde, efeitos colaterais dos medicamentos
utilizados para impedir a infecção do feto, insegurança quanto a
seu futuro e o do seu filho são vivências que marcam
silenciosamente esta gestação.
Da mesma maneira que é marcada por medo e insegurança a
trajetória das mulheres que, por alguma razão, decidem que não
podem prosseguir com uma gestação e têm que se valer de práticas
clandestinas que, na maioria das vezes, exigem o recurso a um
serviço de saúde para os cuidados das complicações decorrentes
da prática insegura. Nesses serviços, onde deveriam ser
acolhidas, atendidas e cuidadas muitas vezes serão julgadas e
maltratadas como forma de punição.
Também será de medo e insegurança a trajetória da mulher
gestante, em trabalho de parto, que deve se deslocar, muitas
vezes sozinha e sem um transporte adequado, para um serviço de
saúde em busca da realização do seu parto. Sem ter certeza de
que haverá vaga e uma equipe capaz de aplicar toda a tecnologia
hoje disponível para o acompanhamento do trabalho de parto, sem
dúvida esta mulher estará mais próxima do vaticínio bíblico de
que “parirás na dor” do que da idéia de que está se aproximando
do momento da realização plena do seu ser.
Embora escassa, já existe alguma literatura que busca articular
a questão da morbimortalidade materna, na sua interface com a
epidemia do HIV e com uma especial atenção sobre a contribuição
da ilegalidade do aborto para a magnitude deste agravo, da qual
uma pequena amostra está contemplada neste número. Esperamos com
esta terceira edição da revista Questões de Saúde Reprodutiva
inspirar pesquisadores, profissionais de saúde, gestores e
gerentes de serviços, ativistas e demais interessados para
maiores incursões no tema, seja desenvolvendo intervenções, a
exemplo das várias aqui relatadas, seja realizando pesquisas ou
ações de incidência política. Porém, o nosso maior desejo é
contribuir com o entendimento de que os nossos compromissos de
“Saúde para Todos”, “Acesso Universal à Saúde” ou com as Metas
de Desenvolvimento do Milênio não serão cumpridos sem um
profundo comprometimento com a promoção da equidade de gênero e
da saúde sexual e reprodutiva das mulheres.
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