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Serviços de atendimento a mulheres vítimas de violência

  Lenira Politano da Silveira

Introdução

             Partindo da perspectiva de avaliação dos 25 anos de enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil, julgamos oportuno refletir sobre algumas das mais significativas experiências de atenção à violência contra a mulher, empreendidas por grupos feministas, ONGs ou iniciativas governamentais. O objetivo é apontar em cada uma destas práticas as potencialidades, limites, experiências de avaliação, e de que forma elas contribuíram para a construção deste campo, no Brasil.

            O texto foi baseado em informações colhidas durante as visitas aos serviços; em entrevistas realizadas junto a técnicas e algumas informantes-chaves[i]; e também em publicações diversas sobre estas experiências, além de informações disponíveis na Internet. Analisamos também informações coletadas através de questionários enviados a centenas de instituições e serviços, que trabalham com violência contra a mulher em todo o Brasil[ii].

            A tarefa de avaliar o percurso brasileiro no trato à violência contra a mulher é bastante complexa, considerando a diversidade das experiências - tanto do ponto de vista da distribuição no território nacional, como pelas diferentes realidades e processos de reflexão que cada uma das regiões do país vem construindo.   Enquanto algumas cidades contam com casas-abrigo há quase vinte anos, outras ainda  não tem implantada sequer uma Delegacia da Mulher.

Um bom exemplo dessa desigualdade é a própriadistribuição destas delegacias - apesar de serem mais de 300 no território nacional, estão presentes em apenas 10% dos municípios brasileiros, sendo que cerca de 40% encontram-se no Estado de São Paulo. As estratégias institucionais são também as mais diversas; algumas delas bem sucedidas, mas que permanecem pouco divulgadas, isoladas. A troca de experiências vitoriosas ou fracassadas é pouco sistemática,  o que torna os avanços lentos e desnecessariamente desgastantes. “Reinventa-se a roda”, a todo momento. Além do mais, e principalmente, ainda não temos dados nacionais consistentes sobre a violência contra a mulher.

A partir da pesquisa realizada, uma primeira observação é a de que as iniciativas de avaliação sistemática são ainda pontuais e pouco divulgadas. São raras as experiências de avaliações dos serviços sobre suas práticas. O problema é sério  especialmente no que se refere à efetividade das intervenções no sentido da ruptura da relação violenta e/ ou promoção da segurança das vítimas; bem como à avaliação de satisfação das usuárias com o serviço prestado. Ainda carecemos no Brasil de indicadores que nos permitam avaliar se o caminho percorrido tem sido o mais satisfatório para as mulheres vítimas de violência. Sabemos que algumas delas passam por um processo de revitimização institucional, na busca de saída da relação violenta; mas ainda não temos informações acerca da “Rota Crítica” empreendida pelas mulheres vítimas de violência no Brasil[iii].

            Apesar da recente multiplicação dos serviços de atenção à violência contra a mulher em nosso país, uma análise mais cuidadosa revela que eles ainda não foram incorporados a uma política de atenção à violência contra a mulher. Por esta razão, muitas vezes  tratam-se ainda de iniciativas isoladas, implementadas sem a compreensão da complexidade do trato com a violência. Ao longo destes anos foi necessário aproveitar os momentos histórico-políticos favoráveis à implantação dos serviços. Desse modo, a maior parte deles foi criada em condições precárias de funcionamento, contando principalmente com o compromisso militante das pessoas envolvidas (mesmo nas experiências governamentais), muito mais do que com recursos e apoio institucional efetivo.  Este frágil compromisso do poder público  tem gerado serviços que em pouco tempo encontram-se isolados e fragilizados, mergulhados num cotidiano de atendimento que se converte em um eterno “apagar de  incêndios”. O resultado é um alto custo emocional para os profissionais envolvidos no atendimento e um limite na capacidade de resolver casos. Também fica limitado o avanço na direção de promover a segurança das mulheres, garantir seus direitos e oferecer possibilidades reais de autonomia.

            Se o planejamento para implementação dos serviços em geral é precário, as estratégias de avaliação também não estão previstas e não há capacitação específica dos profissionais em metodologia de avaliação.         

Mesmo do lado do movimento feminista, o apoio e o monitoramento dos serviços criados foi considerado frágil por algumas entrevistadas:

 

  “(...) Acho que as questões da violência contra a mulher é a questão feminista que mais avançou no campo das políticas públicas, (....), avançou sozinha, diferente do campo da saúde, direitos reprodutivos que nós enquanto movimento discutimos, refletimos, reorganizamos propostas...(...) As políticas públicas em relação à violência ficaram sós e abandonadas – elas não têm sido debatidas profundamente pelas mulheres feministas, pelas organizações feministas”

                                                                          ( J.M. entrevistada )

“O que a gente não deu muito conta, o movimento não deu conta, não sei o que aconteceu,  é da qualidade dessas políticas. Foi aí  que faltou investimento, eu acho que isso é que a gente não conseguiu pressionar, exigir, monitorar. Eu acho que foram feitas muitas avaliações sobre as Delegacias da Mulher, o atendimento, casas-abrigo, os SOS etc e tal, mas a gente não conseguiu exigir e garantir um atendimento de qualidade. É a questão que está colocada hoje no movimento de mulheres: garantir essa qualidade do atendimento.”                                                                                                           ( S.,  Entrevistada )

 Em que pesem as dificuldades apontadas, a maioria das entrevistadas reconhece os avanços,  especialmente no que se refere à visibilização do fenômeno da violência contra a mulher. Isto em parte se deve à criação dos diversos serviços de atendimento, que aparecem como uma “luz acesa”[1] para as mulheres que sofrem violência.

             Sem dúvida, hoje uma parcela importante das mulheres brasileiras sabe da existência e função de uma delegacia especializada, enquanto que há uma menor tolerância da sociedade em relação à violência contra a mulher[iv].

Isto vem se refletindo nos números crescentes de registros nas Delegacias da Mulher. Em 1993, a Câmara dos Deputados apurou uma média de 123.131 denúncias/ ano nas DDMs (ou DEAMs). Pesquisa realizada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher em 2001 e analisada por  Silva[2] e Machado[3] contabilizou um total aproximado de 411.213 denúncias/ ano.  Estes dados apontam uma importante questão, ainda sem resposta: este aumento nos registros reflete o aumento do número de casos de violência, ou a menor tolerância das mulheres às relações violentas, e/ ou ainda a multiplicação dos canais de denúncia?

               O que é certo, contudo, é que o aumento da violência denunciada coloca desafios urgentes para aqueles que trabalham no atendimento a mulheres em situação de violência. O primeiro deles é o de garantir a segurança das mulheres que decidem fazer a denúncia, e muitas vezes romper uma relação violenta. Como nos aponta Almeida (1998)[4]o momento da denúncia/ ruptura pode significar o aumento da vulnerabilidade da mulher, no qual muitas vezes sua vida é colocada em risco. O medo deve ser considerado um indicador válido e que muitas vezes justifica a manutenção das mulheres nas relações violentas. O recurso disponível para os casos mais dramáticos e graves é o encaminhamento para uma casa-abrigo que - como discutiremos adiante - muitas vezes implica enorme prejuízo para a vida da mulher e seus filhos. Portanto incentivar a denúncia significa necessariamente se preparar para lidar com o risco de morte.

Outro dado a ser considerado nesta análise é que o aumento de casos denunciados de violência contra a mulher vem acompanhando os indicadores mais gerais da violência urbana, e não raramente se articula a eles. O número de agressores de mulheres envolvidos com a criminalidade vem aumentando, tornando a resolução dos casos mais complexa.  Uma análise sob a perspectiva de gênero dos índices crescentes de mortalidade de homens, cada vez mais jovens, por causas violentas - em especial nos grandes centros urbanos - sugere um recrudescimento da relação masculinidade/ violência[v].  Isto se expressa tanto na relação dos homens com seus pares no espaço da rua, como com suas companheiras no espaço doméstico. Temos aqui duas questões urgentes: a importância de incorporar à discussão da violência contra a mulher à perspectiva da segurança pública e o desafio de intervir nas construções de masculinidade associadas à violência[vi].

                        Nestes vinte e cinco anos tivemos um expressivo aumento do número de serviços de atendimento especializado - num primeiro momento com ênfase para delegacias, e nos sete últimos anos com intensa multiplicação dos centros de referência, casas-abrigo e serviços de saúde. Mais recentemente, a perspectiva de implementação de redes desponta como uma alternativa promissora, no sentido de ampliar a compreensão e abordagem do fenômeno, além de fortalecer os serviços.  Apesar dos avanços, um olhar crítico revela as dificuldades enfrentadas pelos profissionais e o limite das respostas que os serviços podem oferecer.

            No caso das delegacias especiais, as análises de Silva[5] (2001) e Machado[6] (2001), apontam que em muitas situações elas perdem suas características policiais para se amoldar às demandas psicossociais imediatas das mulheres. A falta de equipamentos e infra-estrutura na grande maioria delas impede a adequada intervenção nos casos onde a gravidade exigiria uma ação de caráter policial - porte de arma, ameaças de morte, violências graves. Além disso, a lei 9.009-95 esvazia de sentido a atuação policial frente à violência doméstica.

             Os centros de referência e atendimento[vii], inspirados na experiência dos SOS (sendo que alguns ainda utilizam esta nomenclatura), ocupam uma posição importante para as mulheres que necessitam de apoio psicológico e orientação social e jurídica. O centro de referência tem sido considerado como equipamento estratégico na rede antiviolência. Contudo, na maior parte dos casos,  sua atuação se limita ao acolhimento e orientação, pela falta de políticas públicas locais articuladas que ofereçam respostas eficazes para as mulheres em situação de violência. Muitas vezes estes centros encontram-se diante de dilemas semelhantes aos dos primeiros modelos feministas. Muitas das situações ainda são resolvidas no improviso e no caso a caso.

            A multiplicação das casas-abrigo, fomentada pelo financiamento do Ministério da Justiça, em parceria  com o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, desde 1997,  foi fundamental para atender aos casos  de violência mais agudos. Entretanto ainda temos um monitoramento frágil destes serviços e o questionamento se de fato seriam o modelo mais adequado para proteger as mulheres em risco de vida.

            Com relação a serviços jurídicos especializados, infelizmente tivemos poucas experiências  que pudessem  incluir na esfera legal a perspectiva de gênero. De fato, no Brasil o Judiciário tem sido um dos segmentos mais resistentes a oferecer um trato adequado à violência contra a mulher. Esta é uma questão fundamental em termos de resolutividade dos casos,  já que neste universo se entrecruzam questões das áreas civil e criminal, que necessitam de trato  específico para garantir os direitos das mulheres em situação de violência. Por exemplo, uma separação judicial, numa relação marcada por violências e ameaças, apresenta características que devem ser consideradas, quando se pensa em guarda e visita de filhos, partilha de bens, etc. Além disso, como a maioria dos serviços de assistência judiciária gratuita fazem o recorte social, acabam por excluir mulheres vítimas de abuso e violência econômica, que apesar de terem uma situação  econômica privilegiada dentro da sociedade conjugal (renda, bens, etc),  estão impedidas de ter acesso a estes bens. Vários serviços de atendimento à violência incorporaram o atendimento jurídico nas suas ações, mas em parte deles só é oferecida orientação jurídica, e não o acompanhamento dos casos.

 

Aprendendo com a história: Os SOSs e as primeiras questões

 

 “(...)Tratava-se da elaboração de uma prática inédita para o movimento de mulheres local, tanto no que diz respeito ao tema que a mobilizava – a violência contra a mulher-, como ao tipo de atuação desenvolvido. Uma atuação que acrescentou plantões de reflexão e de prestação de serviços mínimos (informação dos direitos e orientação jurídica gratuita) para mulheres vítimas de violência às manifestações públicas de denúncia e reivindicação.” [7]

 

 

A criação dos SOS-Mulher constitui um marco no atendimento direto às mulheres vítimas de violência no Brasil.  Essa primeira experiência de contato direto com as mulheres vítimas de violência trouxe à tona desafios que ainda não foram completamente superados.

O trabalho de Maria Filomena Gregori (1993) acerca da experiência do SOS de São Paulo pôs em discussão a prática da entidade, contribuindo para estabelecer um precioso campo de reflexão sobre a violência de gênero, e referências para as iniciativas que se seguiram.

A análise empreendida por Gregori atribui as dificuldades enfrentadas no interior do SOS (que culminaram no seu fechamento) a um conjunto de fatores, entre eles a falta de estrutura e apoio, o isolamento da instituição, e as concepções feministas que conflitavam com os interesses das mulheres vítimas de violência. É interessante observar  que grande parte destes problemas iriam se repetir e marcar posteriormente outras experiências  de atenção à violência contra a mulher, tanto nas práticas governamentais como não-governamentais.

Os SOS são gestados no final da década de 70, no processo de luta pela redemocratização no Brasil, num momento onde o movimento feminista discutia duas opções: assumir a luta pelas questões político-sociais mais gerais ou enfrentar as chamadas “questões  específicas” das mulheres.  No II Congresso da Mulher Paulista (1980), realizado na cidade de Valinhos (SP) é criada uma Comissão de Violência contra a Mulher, que passa a fomentar as discussões sobre o tema.

 Este processo se desenvolve em  diversas localidades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Campinas (SP). Alguns fatos mobilizam as feministas e aceleram esse processo: no Rio de Janeiro, o primeiro julgamento e absolvição de Doca Street (pelo assassinato de Ângela Diniz)  e o assassinato de Silvia Christel; além dos assassinatos de duas mulheres por seus maridos em Minas Gerais, que tiveram repercussão nacional[8]. No caso de São Paulo,

 

“(...) e aí nessas reuniões pensamos em lançar um serviço contra a violência contra a mulher, quando nós recebemos algumas denúncias de mulheres que haviam sido mortas pelos seus companheiros, como Esmeralda e Eliane de Grammont.  A gente acabou adiantando todo o processo, então o processo de reflexão de como seria esse serviço de certa forma foi atropelado, por causa dessas denúncias. Nós resolvemos fazer um ato público no Teatro Municipal de São Paulo, lançando um protesto contra esses assassinatos de mulheres; e ali no Municipal nós lançamos o SOS-Mulher, numa sede provisória que na época era o escritório do deputado Fernando Morais, que ficava em Pinheiros.”

                                                                                                                   (T.V.  Entrevistada )

 

Em 10 de outubro de 1980, após uma manifestação realizada nas escadarias do Teatro Municipal, é inaugurado o primeiro SOS do Brasil. Sem total clareza acerca do trabalho a ser desenvolvido, a criação dos SOS revelou a necessidade de oferecer atendimento às situações de violência, ao mesmo tempo que mostrou o tamanho do desafio:

 

“(..) então este ato público por causa destas mortes acabou adiantando este trabalho. Nós fundamos o SOS Mulher sem pensar exatamente como íamos trabalhar aquelas violências todas que estavam despencando na nossa cabeça. Foi um processo muito desgastante mas ao mesmo tempo nos deu a noção de que era um serviço necessário. Nós resolvemos levar o serviço da forma como podíamos, fazendo plantões, discutindo casos mais complicados, encaminhando casos aos serviços disponíveis na época - e é bom lembrar que não havia muitos serviços disponíveis ou especializados.

“O que a gente tinha era uma boa vontade imensa de ouvir essas mulheres. Aí começamos a fazer contatos com alguns locais, por exemplo a Casa da Gestante; alguns trabalhos fora de SP, como em Campinas, onde tinha alguma coisa organizada. O que até acabou destruindo algumas de nós, pois não tínhamos limite, trabalhávamos dia e noite, colocamos dinheiro do nosso bolso, pagávamos o aluguel da Casa que tínhamos - que era na Benedito Calixto, pois tivemos que sair do escritório do Fernando Morais, onde tivemos ameaça de bomba”.

                                                                            (T.V., Entrevistada)      

 

A referência feminista que orientava os SOS se pautava na recusa à prática assistencialista e na proposta de trabalhar com a perspectiva da conscientização das mulheres, acreditando que

 

 “O momento crítico e dramático de agressão parece constituir-se num momento propício para que a mulher perceba o quanto as questões feministas lhes dizem respeito; num momento em que pode se dar o surgimento de uma solidariedade maior que a liberte da solidão da sua experiência individual”[9].