O “corte por cima” e o “corte por baixo”: o abuso de
cesáreas e episiotomias em São Paulo.
Simone G. Diniz, Diretora de Pesquisa, Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, São Paulo, Brasil. Alessandra S. Chacham, Professora adjunta, Departamento de Ciências Sociais, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo
Horizonte, Brasil.
Resumo
Nos últimos cinqüenta anos, o rápido aumento da utilização de tecnologia para iniciar,
intensificar, acelerar, regular e monitorar o processo de nascimento tem levado à adoção de
procedimentos inadequados, desnecessários e por vezes perigosos. Embora as pesquisas tenham
demonstrado que o paradigma a ser adotado é o do mínimo de interferência dentro dos limites da
segurança, no Brasil o parto vaginal continua sendo tratado como um alto risco à saúde e à vida sexual
da mulher. O presente trabalho descreve o impacto desse modelo de intervenção na experiência do
parto, e discute como a organização dos serviços públicos e privados de assistência ao parto influencia
a qualidade dos cuidados obstétricos no país. O Brasil é conhecido por altos índices de cesáreas
desnecessárias (“o corte por cima”), praticadas em dois terços dos partos no setor privado, onde
30% das mulheres dão à luz. Recebe menos atenção o índice de 94,2% de episiotomias (“o corte por
baixo”) praticadas em partos vaginais, afetando 70% das mulheres de baixa renda, que recorrem ao
setor público. É necessária uma mudança na compreensão do corpo da mulher para que possa ocorrer
uma mudança nos procedimentos mencionados. Desde 1993, e inspirado em campanhas contra a
mutilação genital feminina, um movimento nacional de profissionais de saúde, feministas e grupos de
consumidores vem promovendo serviços de saúde baseados em evidências e a humanização do parto
no Brasil, reduzindo assim procedimentos cirúrgicos desnecessários.
Abstract
In the last fifty years, a rapid increase in the use of technology to start, augment, accelerate,
regulate and monitor the process of birth has frequently led to the adoption of inadequate, unnecesssary
and sometimes dangerous interventions. Although research has shown that the least amount of
interference compatible with safety is the paradigm to follow, vaginal birth is stiall being treated as if
it carries a high risk to women’s health and sexual life in Brazil. This paper describes the impact ot
the intervention model on women’s birth experience, and discusses how the organisation of public and
private maternity services in Brazil influences the quality of obstetric care. Brazil is known for high rates
of unnecessary caesarean section (“the cut above”), performed in over two-thirds of births in the private
sector, where 30% of women give birth. The 94.2% rate of episiotomy (“the cut below”) in women
who give birth vaginally, affecting the 70% of poor women using the public sector most, receives less
attention. A change in the understanding of women’s bodies is required before a change in the procedures
themselves can be expected. Since 1993, inspired by campaigns against female genital mutilation, a
national movement of providers, feminists and consumer groups has been promoting evidence-based care
and humanisation of childbirth in Brazil, to reduce unnecessary surgical procedures.
Palavras-chave: Medicina baseada em evidências, cesárea, episiotomia, medicalização do
parto, humanização do parto, Brasil.