Interrupção da gravidez por anormalidade
fetal incompatível
com a vida:
a vivência de mulheres brasileiras
Lúcia de Lourdes Ferreira da Costa, Assistente Social, Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), São
Paulo, Brasil. Ellen Hardyb, Professor Adjunto, Faculdade de Ciências Médicas, UNICAMP; Pesquisadora S ênior do Centro de Pesquisas em Saúde Reprodutiva de Campinas (Cemicamp), São Paulo, Brasil. Maria José Duarte Osis, Pesquisadora S ênior, Cemicamp, São Paulo, Brasil. Anibal Faúndesd, Professor Voluntário de Obstetrícia, Faculdade de Ciências Médicas, UNICAMP; Pesquisador Sênior, Cemicamp, São Paulo, Brasil.
Resumo
Diante de anormalidades fetais incompatíveis com a vida, colocam-se as opções de
abortamento ou nascimento, que será seguido de óbito. Este trabalho descreve as vivências de dez
mulheres que tiveram a gravidez interrompida num hospital universitário brasileiro devido à anormalidade
fetal incompatível com a vida. As mulheres foram entrevistadas aproximadamente quarenta dias após
o procedimento. A experiência foi marcada pelas fortes emoções dessas mulheres, que sofreram um
choque terrível ao saber o diagnóstico, realizado entre treze e 25 semanas de gestação. Elas choraram e
vivenciaram medo, desespero, angústia, sensação de inutilidade e não aceitação da situação. Ao tomarem
a decisão de interromper a gravidez, as mulheres sentiram tristeza, desespero e culpa, e esses sentimentos
causaram intenso sofrimento. Saber que o feto teria que ser morto foi a parte mais difícil de aceitar. No
entanto, posteriormente, elas se sentiram satisfeitas com a decisão que haviam tomado, entendendo que
tinha sido a resolução correta, apesar da angústia dela advinda. A inclusão da interrupção da gravidez por
anormalidade fetal incompatível com a vida na legislação brasileira ajudaria a reduzir o sofrimento das
mulheres e contribuiria para o oferecimento de cuidados adequados por parte dos serviços de saúde.
Abstract
Fetal abnormality incompatible with life is a fact and the options for dealing with it are
abortion or birth followed by death. This paper reports a qualitative study of the experience of ten
women who had a pregnancy termination in a university hospital in Brazil for fetal abnormality
incompatible with life. The women were interviewed approximately forty days after the procedure. The
experience was marked by strong emotions for the women, who had a terrible shock on learning of the
diagnosis, which was given between 13 and 25 weeks into their prenancies. They cried and experienced
fear, despair, anguish, a sense of uselessness and refusal to accept the situation. When they took the
decision to terminate their pregnancies, the women experienced sadness, despair and guilt, and all
these feelings caused them intense suffering. The killing of the fetus was the most difficult part of
the termination for them. Nevertheless, afterwards they were satisfied with the decision taken and
believed that it was the correct one, despite the anguish it caused. The inclusion of fetal abnormality
incompatible with life in the Brazilian law on pregnancy termination would help reduce women’s
suffering and contribute to the provision of supportive care by the health services.
Palavras-chave:anormalidade fetal incompatível com a vida, aborto induzido no segundo
trimestre, questões psicossociais, política e legislação sobre o aborto, Brasil.