Muitos dos tributos à memória de José Barzelatto falam de seu brilhantismo intelectual, intransigente honestidade, destemido comprometimento com a justiça social e extraordinária mistura de inocência e realismo. A meu ver, sua característica mais positiva foi o total respeito à maneira de pensar das pessoas. Durante nossos infindáveis debates, ele me ensinou a clara diferença entre tolerância e respeito. Quando toleramos uma pessoa, ele dizia, isso indica que ela está errada e você certo, mas tolera o erro. Quando você respeita, isso indica que a outra pessoa tem as mesmas chances que você de estar certo e que as idéias dela merecem tanto crédito quanto a sua própria maneira de pensar.
Suas extraordinárias características pessoais podem explicar sua surpreendente eleição para a presidência da Federação de Estudantes Universitários Chilenos no início dos anos 1950. Foi a primeira vez na história da Federação que se elegeu um candidato independente e não marxista. Ele também foi o primeiro presidente da Federação a ser reeleito, mostrando assim suas habilidades de liderança, que continuou demonstrando nas décadas seguintes.
Eduardo Frei, ao ser eleito presidente do Chile, perguntou a José que cargo ele queria. Embora tivesse uma brilhante perspectiva política, José optou pela carreira médico-científica. Quando ainda era um jovem médico, foi responsável pela organização e liderança do Departamento de Ciência e Tecnologia da Organização dos Estados Americanos em Washington DC, uma tarefa que cumpriu com paixão e eficiência.
Em 1974, mudou-se para Genebra para trabalhar com o Programa Especial de Doenças Tropicais da Organização Mundial da Saúde (OMS). Duas das várias razões para sua mudança foram a admiração pelo Dr. Halfdan Mahler, diretor da OMS, e a oportunidade de trabalhar para as populações menos privilegiadas do mundo, que sofriam com algumas das mais devastadoras doenças da época: malária e tuberculose.
Seu trabalho em doenças tropicais foi tão eficiente que, quando o Dr. Alex Kessler deixou o posto de diretor do Programa Especial de Pesquisa, Treinamento em Pesquisa e Desenvolvimento em Reprodução Humana (HRP), o Dr. Mahler solicitou-lhe que assumisse o cargo, revendo e reorientando a direção do programa para a próxima década.
Embora tenha consultado amplamente cientistas de países desenvolvidos e em desenvolvimento, a maior mudança que introduziu no programa foi baseada em sua própria convicção de que uma saúde reprodutiva saudável está inextricavelmente relacionada ao sexo. Assim, ele foi fundamental na definição dos direitos sexuais e reprodutivos, com o auxílio de Mahmoud Fathalla. Sua definição é aceita e utilizada no mundo inteiro até hoje.
Sob sua liderança, um programa quase 100% sobre tecnologia tornou-se um dos que deu relevância tanto para as ciências biomédicas quanto para as ciências sociais, estimulando o diálogo entre pesquisadores das áreas clínicas, epidemiológicas e sociais. Assim, ele promoveu o desenvolvimento e a expansão de centros de pesquisa social e a incorporação de unidades de pesquisa social em centros bem estabelecidos, que de início lidavam exclusivamente com pesquisa biomédica.
Os rígidos limites da OMS sobre a idade de aposentadoria foram estendidos ao máximo por José, mas chegou o momento em que ele precisou ir em frente. A Fundação Ford, que acompanhou de perto seu inspirado e eficiente trabalho no HRP, convidou-o para criar e desenvolver o seu Programa de Saúde Reprodutiva. Na Ford, ele promoveu uma mudança semelhante à realizada na HRP, transformando um programa orientado para a biotecnologia e demografia em um programa focado nos direitos reprodutivos e sexuais das mulheres. Identificou e treinou uma rede de profissionais competentes para dirigirem o programa da Ford pelo mundo afora. Embora na sede do programa tenha se mantido o nome Saúde Populacional e Reprodutiva (Population and Reproductive Health), nas filiais adotou-se a denominação Programas de Saúde Sexual e Reprodutiva.
Além disso, ele introduziu o conceito de que religiões, com seus tremendos impactos de influência cultural, têm um papel central como contribuintes ou opositores da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Dessa maneira, patrocinou um encontro único entre teólogos proeminentes, tanto homens quanto mulheres, das principais religiões do mundo em Genval, na Bélgica, com o intuito de discutir suas posições e papéis em relação aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, antecipando o papel que a religião desempenharia na Conferência do Cairo sobre População, em 1994. A Declaração de Genval demonstrou claramente que um diálogo entre as várias religiões era tanto possível quanto necessário e que era possível um acordo básico em assuntos delicados como aborto. O acordo elaborado em Genval foi uma contribuição muito significativa para moldar a Declaração do Cairo, celebrada como a base para o processo de reconhecimento dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres em todo o mundo.
Seu tempo na Fundação Ford foi amplamente reconhecido como um período de inovação e fortalecimento das instituições e representou uma revolução no financiamento para proteção e promoção da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos, incluindo acesso ao aborto seguro. José Barzelatto estimulou ou apoiou um grande número de idéias e projetos criativos na promoção da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos, entre eles a publicação Reproductive Health Matters. Ele sempre foi capaz de ver não somente o efeito imediato de uma nova proposta, mas seu potencial a longo prazo para melhorar, no mundo todo, a vida de pessoas necessitadas.
Seu tempo na Fundação Ford terminou, e ele estava numa idade em que a maioria das pessoas com uma fração de suas realizações diria que era momento de se aposentar e descansar. Mas não José Barzelatto, que decidiu continuar a missão de sua vida colaborando com seu amigo Stephen Isaacs no Center for Health and Social Policy (Centro de Políticas Sociais e de Saúde) em Nova York.
Com Stephen, desenvolveu e gerenciou um programa para divulgar novos conceitos éticos em saúde e direitos sexuais e reprodutivos entre líderes chineses da área. Para tanto, aplicou sua forte crença no poder do diálogo para a melhoria da humanidade. Ele também continuou a focalizar a importância das religiões na modelagem de políticas mundiais e organizou e coordenou um encontro de líderes religiosos e feministas em Chiang Mai, Tailândia, em uma nova demonstração do poder do diálogo para o entendimento entre as pessoas.
Parece que José previu que conflitos baseados em religião iriam se tornar um dos principais problemas que enfrentamos no mundo. O mundo seria muito melhor para viver se os líderes atuais tivessem a visão e a generosidade de José Barzelatto, promovendo respeito entre todas as crenças e estimulando um diálogo contínuo entre líderes das principais religiões, sem intenção de impor sua superioridade à cultura do próximo.
José era muito ocupado na promoção de mudanças para ter tempo de escrever e acabou não publicando muito. Felizmente, aceitou meu convite para escrevermos um livro em conjunto: O drama do aborto: em busca de um consenso, publicado em inglês em 2006 como The Human Drama of Abortion: A Global Search for Consensus. Foi sua chance de documentar suas convicções sobre a ética do aborto, o amplo espectro das posições religiosas nesse assunto e sua idéia de um mundo onde a justiça e a democracia real sejam as principais forças motrizes. Quando souberam que estávamos escrevendo um livro juntos, alguns disseram que uma amizade não poderia sobreviver a essa tarefa. Durante os mais de três anos que passamos escrevendo o original, e depois trabalhando em duas traduções, entendemos por que diziam isso. Todavia, nossa forte amizade de 50 anos e o respeito mútuo prevaleceram, e depois de dias e algumas vezes semanas de profundo desentendimento, sempre acabávamos chegando a um consenso que satisfizesse a ambos. Na verdade, esses anos de pensamento, discussão e escrita foram os melhores anos intelectuais da minha vida, e sei que ele sentia o mesmo. Ambos sentíamos que não poderíamos passar o resto de nossas vidas na Terra sem dividir nossas idéias sobre os grandes mal-entendidos que cercam as discussões sobre o aborto. Nossa esperança era, e ainda é, de que isso possa ajudar a reduzir o sofrimento de milhões de mulheres ao redor do mundo.
Seu neto Christopher definiu melhor do que ninguém quem era José, ao dizer: “Eu gostaria de viver a minha vida de uma maneira tão abnegada quanto vovô viveu a dele”.