| O atendimento à saúde
da mulher só será de fato integral se considerar a violência
doméstica como problema de saúde pública, incorporado no
funcionamento rotineiro dos seus serviços, o que deve ser feito por uma
equipe interdisciplinar que esteja receptiva a trabalhar com a questão.
O profissional de saúde deve proporcionar à mulher o diálogo
e a possibilidade de ter um canal de ajuda eficaz. No entanto, a maioria tem dificuldade
em associar violência doméstica com saúde. O tema ainda não
faz parte do aprendizado escolar e, também, pesa o fato de ser um assunto
que incomoda, em parte pelo cúmplice silêncio da sociedade e por
outro lado por ter profissionais que estão também envolvidos em
situação de violência doméstica. O conceito de
integralidade deve utilizar o tempo e o espaço ocupado pelas mulheres nos
serviços de saúde, propiciando-lhes métodos e atividades
complementares que facilitem a realização de diagnósticos
precoces e redução de riscos à saúde. Na área
da saúde, o comportamento habitual tem sido o de tratar os sintomas sem
aprofundar as causas, o que reforça a invisibilidade da violência
doméstica. Esta forma de atender não satisfaz as necessidades das
mulheres, fazendo com que elas se tornem poliqueixosas e freqüentadoras assíduas
do serviço por não conseguirem resolver seus problemas ou mesmo
falar sobre a violência. A humanização do serviço
de saúde deve oferecer ações educativas e de prevenção,
com um amplo sistema de informação que promova acesso à cidadania
para a população. A criação deste serviço
exige uma formação profissional que dê conta das relações
de gênero, raça/etnia e de poder para que @s profissionais não
sejam coniventes/omiss@s com a violência. A ausência de registro
de informações sobre a violência doméstica na área
de saúde pública impede a elaboração de diagnósticos.
A implantação do serviço de atendimento aos casos de violência
doméstica deve ser uma das fontes de coleta de dados qualitativos e quantitativos
capazes de aprofundar o entendimento das causas, da natureza, das dimensões,
das características e das conseqüências dessa violência. Com
o registro de dados estatísticos, a saúde pública poderá
fazer o trabalho preventivo de maneira planejada, contribuindo para reduzir a
morbi-mortalidade por violência doméstica e sexual. O serviço
público de saúde, ao dar visibilidade ao atendimento à violência
doméstica e sexual, pode oferecer um espaço privilegiado e muitas
vezes único em que a mulher será atendida independentemente da denúncia
contra o agressor. A exemplo do Hospital Municipal de Urgências de Oslo,
Noruega, que desde 1986 atende às mulheres em situação de
violência. Com o funcionamento ininterrupto, o tratamento é gratuito
e não implica na obrigatoriedade de denúncia do agressor. A prioridade
é garantir a vida e o resgate físico e emocional da mulher. Por
fim, a própria existência do atendimento à violência
doméstica e sexual nos equipamentos de saúde possibilita uma avaliação
contínua do funcionamento e da qualidade dos serviços. |