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A comunicação e a mídia
na luta contra a violência à mulher
Jacira Melo, Marisa Sanematsu,
Fernanda Pompeu
Houve um tempo, que durou
muitas décadas, em que as organizações feministas e de
mulheres trabalhavam a comunicação como mera divulgação
de suas atividades. Na hora que o cinto econômico era
apertado, e ele foi apertado muitas vezes, o primeiro
corte era na comunicação.
Agora, a ficha começou a
cair e as organizações compreenderam que a comunicação é
estratégica.
Também entenderam que “não
basta fazer, tem que aparecer”. A idéia evoluiu e chegou
em um momento mais sofisticado: “não basta aparecer, tem
que aparecer para muita gente.”
No Brasil, aparecer para
muita gente é sinônimo de aparecer na televisão. O
recado que irrompe na telinha é o assunto que será
falado no dia-a- dia das pessoas.
Pensando nisso, o Instituto
Patrícia Galvão – Comunicação e Mídia (www.patriciagalvao.org.br)
realiza a campanha “Onde tem violência, todo mundo
perde”, veiculada em 2004 pela Rede Globo,
televisões educativas etc.
Tão interessante quanto os
produtos da campanha, foi a sua feitura que envolveu um
pool de profissionais de ponta em planejamento, mídia,
criação publicitária, produção de filmes e pesquisa.
Para subsidiar os jornalistas, foram criados o Portal
Violência Contra a Mulher (www.violenciamulher.org.br)
e um livreto específico.
Ao lado da campanha, o
Instituto Patrícia Galvão encomendou uma pesquisa ao
Instituto Ibope. Na pesquisa, a violência doméstica
contra as mulheres aparece como o problema que mais
preocupa mulheres e homens.
Tão importante quanto
aparecer é aparecer com conteúdo. Saber qual a
freqüência e com que vieses o tema violência doméstica
contra as mulheres surge na imprensa. Compreender a
lógica da notícia, a velocidade da informação. As
organizações precisam estar preparadas para fornecerem
“conteúdos substanciais” para os profissionais da
comunicação. Abandonar atitudes ora reticentes, ora
prepotentes para influir na pauta do jornalista.
Os textos a seguir
aprofundam essas informações e dão panos para boas
mangas.
O primeiro texto – “Como a
imprensa cobre (e deixa de cobrir) o tema da violência
contra as mulheres” – aborda a cobertura realizada pelos
principais jornais brasileiros sobre o assunto. Esse
artigo também apresenta uma série de recomendações para
a relação das fontes (ativistas dos movimentos de
mulheres, pesquisadores, especialistas etc.) com os
profissionais de imprensa, a fim de se obter uma
cobertura mais contínua, equilibrada e aprofundada.
O segundo texto – “Campanhas
na grande mídia para o enfrentamento da violência contra
as mulheres” – enfatiza o potencial das campanhas
publicitárias, difundidas através dos meios de
comunicação de massa, para a promoção de mudanças de
comportamento diante da violência contra as mulheres.
O terceiro texto –
“Atitudes frente à violência contra a mulher” –
apresenta os principais resultados da pesquisa
encomendada pelo Instituto Patrícia Galvão ao Ibope,
sobre a percepção da sociedade brasileira em relação à
violência contra as mulheres. Divulgada em novembro de
2004, a pesquisa revela que os indicadores de
preocupação com a questão da violência não mostram
diferenças entre sexo, tampouco na maioria das variáveis
estudadas. Isto é, trata-se de um problema entendido
como grave pelo conjunto da sociedade. Segundo dados da
pesquisa, 82% dos entrevistados responderam que “não
existe nenhuma situação que justifique a agressão do
homem a sua mulher”.
Campanhas na grande mídia
para o enfrentamento da violência contra as mulheres
Fernanda Pompeu e
Jacira Melo *
Campanhas de interesse
público que fazem uso do poder potencial da comunicação
e dos meios de comunicação de massa podem dar ênfase e
relevo a problemas urgentes como a violência doméstica.
Ao combinar propostas de mudança de atitude e propiciar
informação fundamental, uma campanha tem a capacidade de
dar visibilidade ao problema e fomentar ações de
prevenção junto aos agressores e de assistência às
vítimas.
A questão da violência contra
as mulheres é um dos pontos da agenda feminista que
apresenta completa convergência com a opinião pública
brasileira. A pesquisa Ibope – Instituto Patrícia
Galvão revela um alto grau de rejeição da população à
violência contra as mulheres: 91% dos entrevistados
responderam que consideram muito grave o fato de
mulheres serem agredidas por companheiros e maridos.
O tema da violência contra as
mulheres vem sendo adotado em bons termos por alguns
segmentos da mídia brasileira desde os anos 80. As
delegacias especiais da mulher, enquanto políticas
públicas, foram ações pioneiras e conquistaram grande
visibilidade social e política. No entanto, nas últimas
duas décadas, em nenhum momento observou-se uma
mobilização consensual da mídia em torno do tema da
violência contra as mulheres, como tem acontecido com
outras questões, como a campanha de prevenção da Aids,
contra o uso de drogas, de prevenção do câncer de colo
do útero etc.
É chegado o momento de se
proporem amplas campanhas sociais contra a violência
doméstica, dirigidas às mulheres, mas também aos homens
agressores e não agressores. As mudanças de
comportamento e atitude frente à violência contra as
mulheres dependem, sobretudo, de aspectos culturais e de
mentalidades, campo em que a mídia pode ser bastante
eficaz. No caso de campanhas como, por exemplo, as de
prevenção do câncer de colo uterino, não bastam
campanhas de mídia, é imprescindível contar com toda a
estrutura de atendimentos, exames e testes
laboratoriais. Já em relação à violência, uma questão
eminentemente cultural, não bastam serviços de atenção
às vítimas e de punição aos agressores. Faz-se
necessário envolver e sensibilizar homens, mulheres,
instituições e escolas para a gravidade desse problema,
que precisa ser enfrentado e erradicado na sociedade
brasileira. É nessa perspectiva que campanhas de mídia –
que devem ter continuidade ao longo de 4 a 5 anos – são
imprescindíveis para o enfrentamento da violência
doméstica.
Um exemplo de
Campanha de Mídia
Onde tem violência, todo mundo perde
é uma campanha de comunicação e mídia
voltada para homens agressores, realizada em 2004 pelo
Instituto Patrícia Galvão, em conjunto com um leque
amplo de parceiros e parceiras. A proposta é colocar os
homens no centro do debate sobre a violência doméstica.
Ao contrário da maioria das mensagens contra a violência
doméstica, a “personagem” não é a mulher agredida, mas
sim o autor da violência. As mensagens da campanha
são um convite a uma mudança de atitude e do
comportamento masculino frente à violência doméstica.
Trata-se de uma campanha nacional, com peças para
televisão e rádio e cartazes, que tem os meios de
comunicação de massa como canal.
Os objetivos principais da
campanha são: sensibilizar os homens que agridem para
uma mudança de comportamento; ganhar a solidariedade dos
homens que não agridem; e provocar no público em geral
uma diminuição da tolerância cultural em relação à
violência doméstica contra as mulheres.
E é importante
enfatizar: não se trata de negar o protagonismo das
mulheres na luta contra a violência doméstica; também
não se trata de realizar uma Campanha voltada
exclusivamente para os homens; trata-se de uma Campanha
que chama atenção para a responsabilidade masculina na
busca de soluções para o problema da violência
doméstica, um assunto de toda a sociedade.
Metodologia
Mesmo não dispondo dos
recursos financeiros necessários, a campanha foi
planejada seguindo o padrão de campanhas publicitárias
de grande porte, realizadas para grandes audiências.
Além da definição conceitual e da formação de uma equipe
de profissionais experientes, foram realizados testes
com grupos de homens com perfil socioeconômico
compatível com o conceito e o público-alvo da campanha.
O trabalho desenvolvido teve
dois objetivos: a criação de uma campanha de massa e a
elaboração de uma metodologia de trabalho para campanhas
sociais. A partir de agora, além de contar com uma
campanha contra a violência à mulher, os movimentos
sociais contam também com um exemplo de campanha feito
por uma organização da sociedade civil, com o mesmo
padrão de realização de campanhas publicitárias de peso.
Este projeto busca ser também
um referencial metodológico sobre como lidar com atores
tão fortes como os movimentos sociais e as instituições
de comunicação. Sabe-se que esta é uma área difícil de
articular, porque do ponto de vista do movimento este
nem sempre está equipado para preparar as informações
necessárias – por exemplo, um briefing claro e objetivo.
Por outro lado as agências de publicidade e as emissoras
de TV e rádio têm dificuldades de compreender a lógica
dos movimentos sociais.
Elaboração do briefing
O primeiro passo da
construção da campanha foi reunir especialistas em
violência doméstica e masculinidades para elaborar um
briefing consistente. Uma série de questões foram
colocadas: Qual seria o conceito da campanha? Qual
deveria ser o posicionamento estratégico? O que não
deveria faltar? O que ela não poderia conter? Como
envolver os homens autores de violência e os não
agressores no debate sobre violência doméstica?
Esse briefing preciso
possibilitou o trabalho com a equipe de comunicadores/as
e pesquisadores/as que estabeleceram parceria com o
Patrícia Galvão para a construção da campanha. Passou-se
a trabalhar com referências muito bem construídas, o que
significou, entre outras vantagens, evitar as
recorrentes dificuldades de comunicação entre a criação
da publicidade e a intenção de ativistas dos movimentos
sociais.
Planejamento, criação &
produção
Onde tem violência, todo mundo perde
contou, desde a concepção, com debates
acerca do conceito geral a ser trabalhado.
Profissionais de várias áreas e ativistas uniram-se
durante o processo de planejamento para elaborar as
mensagens da campanha.
Depois da redação das peças
houve pré-testes das mensagens com a realização de
grupos focais formados por homens. As pesquisas
qualitativas são um item obrigatório de avaliação em
toda campanha publicitária de peso. A avaliação dos
resultados dos grupos funcionou como uma bússola para a
equipe de criação, permitindo a correção de rotas e
imperfeições na comunicação, levando à reescrita de
partes dos roteiros dos spots para televisão.
A fase de produção das peças
propriamente dita contou com o mesmo rigor das etapas
anteriores. A escolha do casting, a gravação e a
finalização dos spots seguiram a mesma rotina
usada pela publicidade profissional.
Veiculação
Os dois spots publicitários
– Bar e Futebol – foram veiculados nacionalmente pela
Rede Globo de Televisão de 25 de novembro a 10 de
dezembro de 2004. Em 2005, nos meses de janeiro,
fevereiro e março a TVE-RedeBrasil veiculou
nacionalmente os dois spots da Campanha.
A veiculação da campanha na
televisão entra nas cotas de “anúncios de utilidade
pública” (mídia gratuita). Há um ganho político
importante no reconhecimento da campanha como de
utilidade pública.
Pós-testes
Foram formados grupos
focais de homens e mulheres para conhecer em
profundidade o impacto das mensagens e permitir pequenos
ajustes a fim de se alcançar maior compreensão e
aceitação. Os resultados servirão para a 2ª Etapa da
Campanha Onde tem violência, todo mundo perde em
2005.
Trabalho em equipe
A Campanha
Onde tem violência, todo mundo perde não saiu da
cabeça de meia dúzia de pessoas nem foi pensada a toque
de caixa. De sua construção participaram ativistas e
profissionais de pesquisa, planejamento e comunicação.
Prós e contras foram
ouvidos. As peças, pré-testadas. Os rumos,
constantemente corrigidos. Todo o acúmulo de
conhecimento do movimento de mulheres, das organizações
que trabalham com masculinidades e dos demais
profissionais serviu de base para a criação do conceito
da campanha.
Parcerias estratégicas
A realização da Campanha Onde
tem violência, todo mundo perde é um exemplo de que a
sustentabilidade desse tipo de projeto se expressa na
densidade política da proposta e nas parcerias
estabelecidas. A definição da Campanha foi fruto de
parcerias com organizações sociais para a definição
conceitual; a realização da Campanha foi resultado da
formação de um pool de parcerias com profissionais e
empresas da área de publicidade; a veiculação da
Campanha pela Rede Globo, TVE-RedeBrasil, Bandeirantes e
TV Cultura só foi possível devido ao estabelecimento de
diálogo e parcerias com as principais emissoras do país.
Um Trabalho de comunicação
e um trabalho político
A articulação política foi
uma ênfase em todas as fases do trabalho em 2004. Ao
reunir 15 especialistas sobre violência contra a mulher,
na primeira fase dos trabalhos, o Patrícia Galvão
observou que se tratava de uma reunião inédita. Nunca
este grupo conversara entre si, em nenhum momento as
organizações feministas e as organizações mistas que
trabalham com violência contra a mulher e masculinidades
tinham tido uma interface, uma interlocução sobre
trabalhos ou uma reflexão conjunta. Este tipo de
articulação se mostra necessária quando se quer fazer
uma comunicação estrategicamente relevante, uma
comunicação que tenha durabilidade no tempo,
independentemente de que instrumento de comunicação seja
usado. Esta reunião com especialistas resultou em
um briefing muito substancioso sobre o conceito da
Campanha.
A articulação com a Campanha
do Laço Branco recebeu toda a atenção durante o processo
de criação e produção da Campanha. Era preciso envolver
seus integrantes como protagonistas que são de um
trabalho com autores de violência. Imagina-se que as
próximas fases da Campanha precisam ser feitas em
conjunto com o Laço Branco. Ao mesmo tempo, objetiva-se
colaborar para que o Laço Branco venha projetar um
trabalho mais ambicioso no campo da comunicação
política.
Assim, este projeto de
Campanha teve também este conteúdo de articulação
política, das organizações que trabalham com violência
contra a mulher. Buscou-se o entendimento, a inclusão e
a sinergia no processo, justamente para dar volume e
maior densidade a esta ação de comunicação política que
é a Campanha.
O que a campanha acrescenta
Coordenada pelo Instituto
Patrícia Galvão, a Campanha Onde tem violência, todo
mundo perde tem o objetivo de ampliar o debate
acerca da violência contra as mulheres. A idéia é que o
tema entre nas conversas nos escritórios, nos mercados,
nas esquinas, nas casas, nas escolas, nos bares, entre
pessoas de todas as classes e graus de instrução. Também
que inspire e encoraje outras ações da sociedade civil e
especialmente dos governos municipais, estaduais e
federal.
Pôr em evidência a violência
doméstica faz parte do esforço para romper o silêncio e
o constrangimento em relação ao problema. Assim, a
campanha é uma das ferramentas para “desnaturalizar”
essa violência e diminuir cada vez mais a tolerância
cultural que leva uma parcela da sociedade a admitir que
os homens possam agredir suas companheiras ou
ex-companheiras.
A reprovação à violência
doméstica contra as mulheres só será eficaz se toda a
sociedade se envolver. Não é uma luta restrita às
mulheres em situação de violência; não é restrita às
ativistas do movimento de mulheres. Trata-se de uma luta
que diz respeito a todas as mulheres e a todos os
homens.
Comprometer os homens
Outro ganho obtido foi a
sensibilização e o comprometimento dos homens na
reprovação da violência doméstica contra as mulheres. É
muito importante que os homens manifestem seu repúdio de
forma clara.
A campanha coloca o foco nos
autores de violência e faz um convite à reflexão e à
mudança de atitude em relação às mulheres e à violência
doméstica. O homem que bate na mulher é responsável pelo
seu ato. “Homem que é homem, não bate!”, como diz a
Campanha.
A violência contra as
mulheres não se caracteriza por casos isolados ou
eventuais. Ao contrário, sua escala é enorme e
extremamente grave. Para que essa violência cesse, é
fundamental que os homens que não cometem violência
contra as mulheres se posicionem.
Ao entender a violência
doméstica como uma construção social, torna-se mais
urgente uma resposta de toda a sociedade. Os formadores
e formadoras de opinião podem ter papel de destaque na
mudança do comportamento violento.
Mudança
Outro objetivo da Onde
tem violência, todo mundo perde é colocar na ordem
do dia a mudança de comportamento em relação à violência
doméstica. Essa mudança diz respeito aos autores de
violência, às mulheres em situação de violência e às
pessoas em geral. Trata-se de uma mudança cultural.
A campanha busca falar
diretamente com os homens autores de violência, mas
também procura sensibilizar o público em geral para
baixar ainda mais a tolerância em relação à violência. É
preciso exigir dos homens novas alternativas para a
resolução de conflitos. É necessário explicitar que o
uso da violência contra a mulher é inaceitável.
Para 2005 peças de Campanha
voltadas para mulheres e para homens
No primeiro semestre de 2005
o Patrícia Galvão está estabelecendo uma parceria com a
agência Duda Propaganda para o lançamento de uma
campanha voltada para as mulheres. A mensagem principal
será o incentivo à denúncia. Para o segundo semestre de
2005 serão produzidos mais dois spots voltados para
homens agressores.
É importante lembrar que a
pesquisa Ibope–Instituto Patrícia Galvão, que revela o
alto grau de rejeição da população à violência contra as
mulheres, contrasta com os dados da incidência dos casos
de violência. Observa-se que há uma atitude da população
contrária à violência, mas não há um comportamento
equivalente.
O conjunto de dados
disponíveis aponta para a necessidade de maior
visibilidade e debate sobre a violência doméstica.
Revela ainda um ambiente propício para Campanhas com
ênfase na mudança de mentalidade. Ao lado de políticas
públicas nas áreas da justiça, saúde e segurança, são
também necessárias estratégias de comunicação junto à
sociedade para promover mais discussão e mudanças de
comportamento. Campanhas de impacto na mídia são
imprescindíveis.
Campanhas de mídia
realizadas por outras organizações no Brasil
Campanha Bem Querer Mulher
Uma iniciativa do Unifem - Fundo de Desenvolvimento das
Nações Unidas para a Mulher e da agência Full Jazz
Comunidade
Campanha do Laço Branco
A Campanha reúne homens que trabalham pelo fim da
violência contra as mulheres: “Violência contra a mulher
não tem graça nenhuma”.
Campanha: Sua vida recomeça
quando a violência termina - Violência contra a mulher.
Peça ajuda. Denuncie.
Realização da Secretaria Especial de Políticas para as
Mulheres
Campanha de Rádio para
discussão da Violência Doméstica contra as Mulheres
O Cfemea lança a Campanha As Vitoriosas, com depoimentos
de mulheres que superaram a violência doméstica. O
objetivo é ampliar o debate sobre o projeto de lei
4559/2004 (Violência doméstica e familiar contra a
mulher).
* Fernanda Pompeu é
escritora e integrante do Instituto Patrícia Galvão. É
autora do livro 64, Rio de Janeiro, AM3, 2003.
* Jacira Vieira de Melo é
especialista em comunicação e ativista feminista,
graduou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo e
fez mestrado em Jornalismo na Escola de Comunicações e
Artes da USP. Atualmente é diretora do Instituto
Patrícia Galvão – Comunicação e Mídia.
Como a imprensa cobre (e
deixa de cobrir) o tema da violência contra as mulheres
Marisa Sanematsu*
A imprensa é um importante
espaço de poder e mediação de conflitos. Pode-se dizer
que a imprensa em geral define os assuntos que vão ser
objeto das conversas no dia-a-dia, dentro de casa, nas
reuniões sociais e no trabalho. Em outras palavras, a
imprensa tem o poder de selecionar e hierarquizar
questões, definindo urgências e prioridades. É nesse
contexto que se pode afirmar que a imprensa tem muito
poder e uma responsabilidade social muito grande na
configuração da agenda de debates de uma sociedade e na
definição de políticas públicas.
Por outro lado, a sociedade
tem a responsabilidade de incidir na mídia para
influenciar os debates e disputar espaço para questões
urgentes da agenda social. Isso significa dizer que os
movimentos sociais precisam: mobilizar capacidade de
análise e produzir argumentos de qualidade; ser críticos
e propositivos; construir pontes entre propostas e ações
políticas; identificar oportunidades de comunicação; e
fortalecer parcerias para realizar ações de impacto e
produzir notícias.
O noticiário sobre violência
contra as mulheres nos últimos dois anos
Apresento a seguir, apenas
para efeito de ilustração e sem a pretensão de esgotar o
potencial de um monitoramento mais amplo e preciso, um
levantamento das principais notícias sobre violência
contra a mulher publicadas na imprensa escrita desde
2003. Pode-se afirmar que esse tema é notícia quando:
·
uma personalidade é agredida pelo companheiro, como
aconteceu com a apresentadora da TV saudita, Rania al
Baz , ou nos casos do cantor norte-americano James Brown
ou do apresentador de TV Netinho, que agrediram suas
companheiras;
·
acontecem crimes sexuais como o ocorrido durante a
rebelião na Febem em São Paulo, em que uma educadora
sofreu violência sexual por parte de internos rebelados;
·
ocorre o fechamento de uma casa de prostituição de
meninas ou é preso um agenciador;
·
o estupro vira arma de guerra em países como a Colômbia
ou em campos de refugiados;
·
é desmontada uma quadrilha que traficava mulheres e
meninas para prostituição no exterior;
·
é procurado um estuprador que ataca estudantes
universitárias ou que fez uma vítima durante um assalto
a uma residência;
·
militares ou garimpeiros estupram mulheres indígenas em
reservas;
·
os casos de assédio sexual no trabalho passaram a ser
denunciados e punidos na China.
Mas nem só de casos de
polícia vive o noticiário; a violência também é
noticiada, embora em menor escala, quando:
·
é divulgada uma pesquisa sobre exploração sexual de
menores no Brasil, como a que foi realizada pela
Universidade de Brasília;
·
um relatório da Anistia Internacional diz que 1 bilhão
de mulheres no mundo já foram espancadas ou estupradas;
·
é gerada uma polêmica sobre a necessidade de boletim de
ocorrência para interrupção da gravidez em caso de
estupro, a ser realizada nos serviços públicos de
atendimento a vítimas de violência sexual;
·
é feito um levantamento dos casos de violência doméstica
contra crianças e adolescentes;
·
é encaminhado à Câmara dos Deputados um projeto de lei
para proibir que os pais apliquem castigos corporais
leves nos filhos;
·
os hospitais da rede pública municipal de São Paulo
passam a realizar cirurgia plástica reparadora nas
mulheres que são vítimas de violência sexual e
doméstica;
·
pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Informações
sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Unifesp revela
que o consumo de bebidas alcoólicas contribui para
situações de violência doméstica;
·
pesquisa encomendada ao Ibope pelo Instituto Patrícia
Galvão mostra que a maioria da população considera a
violência contra a mulher como algo muito grave e que o
agressor deve ser punido;
·
é aprovado no Congresso Nacional o projeto de lei que
trata da violência doméstica, que passará a ser
tipificada como crime de lesão corporal com pena de seis
meses a um ano de prisão.
Com menor freqüência ainda,
aparece também outro tipo de noticiário, que trata:
·
da denúncia de que apenas uma delegacia da mulher na
cidade de São Paulo funciona à noite;
·
da implementação de iniciativas de combate ao turismo
sexual, como a da empresa aérea TAM ou do Cedeca (Centro
de Defesa da Criança e do Adolescente);
·
do lançamento pela Fundação Abrinq de publicação visando
a prevenção da violência doméstica contra crianças e
adolescentes;
·
do trabalho realizado por instituições como o Núcleo de
Atenção à Violência Doméstica (NAV), que funciona em
parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) e que presta tratamento psicológico a crianças e
adolescentes em situação de violência, bem como a seus
familiares e agressores;
·
do que há por trás do turismo sexual, como o
envolvimento e esperanças das mulheres, muitas das quais
vêem na relação com um homem estrangeiro um sonho de
casamento e de ascensão social;
·
de reportagem sobre o trabalho realizado pelas
delegacias da mulher ou por organizações
não-governamentais como a Pró-Mulher, motivada pela
exibição de um caso de violência doméstica em novela da
TV Globo;
·
do Prêmio Criança, da Fundação Abrinq, recebido pelo
Centro de Referência às Vítimas de Violência do Sedes
(CNRVV), que trabalha com a prevenção e o atendimento a
casos de violência doméstica.
O que faz a violência contra
a mulher virar notícia?
Conforme vimos, para que a
violência contra as mulheres torne-se objeto de
cobertura da imprensa, é preciso ter:
•
casos específicos de violência, em especial se a
agressão for cometida contra uma mulher famosa ou se o
agressor for famoso;
•
iniciativas do Executivo (delegacias da mulher, serviços
de aborto previsto em lei), Legislativo (projetos de
lei) ou da sociedade civil (ações de prevenção e
enfrentamento da violência, em especial o atendimento de
casos);
•
dados impactantes de pesquisas produzidas por
instituições conceituadas.
A cobertura dá maior ênfase à violência contra crianças
e adolescentes
No levantamento realizado,
nota-se uma presença constante de matérias sobre a
violência que atinge crianças e adolescentes. As
abordagens incluem desde a exploração sexual, o tráfico
de menores, o turismo sexual até a violência doméstica
praticada contra crianças. E, quando se fala sobre esse
tipo de violência, as fontes para a imprensa são,
invariavelmente, as organizações que trabalham
diretamente com o atendimento a essas crianças.
Tudo indica que as
organizações que atuam no campo do atendimento a
crianças e adolescentes estão incidindo com maior força
na mídia, fornecendo informações e dados continuamente.
Uma outra constatação do levantamento realizado na
grande imprensa é que, nas reportagens sobre violência
contra crianças e adolescentes, as organizações de
mulheres não figuram como fontes.
As vozes mais ouvidas na
cobertura
Dentre as fontes mais
procuradas pela imprensa destacam-se delegados/as e
agentes policiais, pesquisadores/as, profissionais de
saúde, representantes do Executivo (da Secretaria
Nacional dos Direitos Humanos, Ministério da Saúde ou
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres) e do
Legislativo e ativistas de ONGs.
Sobre o que a imprensa não
fala ou fala muito pouco
Ao mesmo tempo em que trata
com freqüência da violência contra crianças e
adolescentes, há muitos temas e abordagens sobre a
violência contra as mulheres que a imprensa não toca.
Trata-se de temas igualmente importantes e que merecem
uma maior atenção por parte dos jornais e telejornais,
como por exemplo:
- as “mortes anunciadas” –
são inúmeros os casos de mulheres que prestaram queixa,
denunciando as ameaças e agressões, e mesmo assim
acabaram assassinadas pelos maridos e companheiros ou
ex. Investigar em profundidade as mortes dessas mulheres
pode ser um caminho para que se identifiquem e divulguem
as razões e omissões que levaram a essas “mortes
anunciadas”;
- as mulheres
“sobreviventes”; quase não se fala sobre aquelas que, de
uma forma ou de outra, conseguiram sair da situação de
violência;
- as outras vítimas da
violência, que são as crianças que presenciam a agressão
dentro de casa; que adultos irão se tornar?;
- as mulheres negras, que
além de sofrerem a violência de gênero, enfrentam o
racismo como estruturador da violência cotidiana;
- a violência física
prevalece sobre a violência psicológica, que raramente é
tratada nas reportagens; há muito pouca divulgação de
que a violência psicológica também constitui uma grave
forma de agressão e abuso contra as mulheres,
acarretando sérios danos à saúde mental das agredidas;
- o direito ao aborto nos
casos de estupro; quais são os serviços que realmente
prestam atendimento a vítimas de violência sexual? Qual
é o perfil das mulheres e das ocorrências nestes
serviços?;
- nunca se fala sobre a
violência contra as empregadas domésticas e contra as
mulheres idosas, que muitas vezes é praticada por
mulheres dentro de casa;
- raramente se mostra o
ponto de vista dos homens, tanto agressores como
agredidos;
- pouco se fala sobre o
cliente que procura meninas prostitutas; qual é o perfil
psicológico desse indivíduo que sabe que está cometendo
um crime, mas mesmo assim não deixa de abusar de
menores?;
- não se trata da violência
como questão de segurança pública, como um direito que
deveria ser garantido pelo Estado mesmo no espaço
privado.
Números ainda impactantes
Embora haja ainda poucas
pesquisas que quantifiquem a violência contra as
mulheres, quando se analisa a magnitude numérica desse
problema, tanto no Brasil como no mundo, os números
revelados são bastante impactantes. Dizer que a cada 15
segundos uma mulher é espancada por um homem e que uma
em cada cinco brasileiras já foi agredida por seu
companheiro ou ex já é suficiente para garantir uma
manchete nos jornais.
Apesar de esses números
terem sido levantados em 2001, pela Fundação Perseu
Abramo, eles ainda são bastante divulgados. Trata-se da
pesquisa mais recente de âmbito nacional a perguntar
diretamente às mulheres qual havia sido sua experiência
pessoal com a violência dentro e fora de casa.
Uma pesquisa com boa
divulgação
Em novembro de 2004 o
Instituto Patrícia Galvão divulgou pesquisa encomendada
ao Ibope Opinião sobre a percepção da sociedade
brasileira sobre a violência contra as mulheres. A
pesquisa revelou um alto grau de rejeição da sociedade
em relação à violência contra as mulheres. Dentre os
principais resultados da pesquisa incluem-se; a maioria
dos/as entrevistados/as revelou que considera esse tipo
de violência como algo muito grave, que preocupa a
mulher brasileira e que se trata de um crime que deve
ser punido, pois nada justifica que um homem agrida uma
mulher.
Lançada no âmbito das
atividades do 25 de Novembro, Dia Internacional pela
Não-Violência Contra a Mulher, essa pesquisa foi
amplamente divulgada pela imprensa, o que mostra que a
mídia tem interesse por dados novos que sejam obtidos
por instituições de pesquisa conceituadas e com
credibilidade.
Elementos da notícia sobre
violência contra as mulheres
Quando a pauta é a violência
contra as mulheres, a imprensa tem em mãos um tema de
grande impacto social e emocional e que envolve:
·
uma mulher ou uma menina, que é em geral um ser
fisicamente mais fraco (e às vezes psicologicamente mais
fragilizado) do que o agressor e que se encontra
desprotegida, o que gera uma situação de desigualdade;
·
números, que podem dar a dimensão do problema e são
fornecidos por instituições conceituadas, como a
Organização Mundial da Saúde, o Ibope, a Fundação Perseu
Abramo etc., e que podem ser comentados por
especialistas, como pesquisadores/as de universidades,
médicos/as, psicólogos/as, assistentes sociais,
ativistas etc.;
·
uma denúncia sobre um crime que não pode ficar
impune e que deve ser levado à polícia e à Justiça e
também ao conhecimento da sociedade;
·
personagens: a própria mulher que é agredida ou a
menina que é explorada sexualmente, o agressor, o
intermediário ou o cliente e as testemunhas da
violência, entre elas os familiares, os filhos, ou
outras pessoas que presenciam o abuso;
·
o interesse do público conjugado ao interesse público:
pode-se recorrer aqui a uma frase consagrada pelo
movimento de mulheres: “as mulheres são metade da
população e mães da outra metade”. É importante também
lembrar que as mulheres são maioria do eleitorado e do
público dos principais veículos de comunicação de massa.
A pesquisa de opinião (Ibope/Instituto Patrícia Galvão)
revelou também que o tema da violência contra as
mulheres suscita grande interesse da sociedade. A
violência de gênero é um problema que, por sua
magnitude, deve ser considerado quase como uma epidemia,
um problema de saúde pública e de segurança pública a
ser enfrentado pela sociedade e pelas autoridades
Todos esses elementos fazem
com que a notícia sobre a violência contra as mulheres
seja capaz de despertar interesse do público se a
imprensa souber trabalhar bem com eles, mostrando que se
trata de um problema de interesse público.
O papel da imprensa quando
entra em pauta a violência de gênero
O jornalista Alberto Dines
afirmou em uma palestra que o papel da imprensa em
relação à defesa da saúde pública é: “manter a pressão,
identificar as emergências, criar a motivação e oferecer
caminhos”.
É claro que a imprensa
sozinha não pode dar resposta a todos os problemas
relacionados à saúde e ao bem-estar físico e mental da
população. A imprensa tem um papel importante, mas,
sozinha, ela não pode fazer tudo. Se ela não for
constantemente alimentada com dados e informações
fornecidos por fontes com credibilidade, que sejam
comentados por especialistas e ilustrados por
personagens, pessoas que dão humanidade aos números, a
imprensa pouco pode fazer.
Basicamente pode-se afirmar
que o papel da imprensa informativa no enfrentamento do
problema da violência contra as mulheres é:
·
informar sobre a real situação da violência de gênero,
tanto no país como no mundo, divulgando números
atualizados e obtidos junto a fontes confiáveis. É
preciso que se informe que a violência contra as
mulheres, em especial a violência doméstica, não
distingue raça, classe social ou nível cultural,
atingindo indistintamente mulheres de todo o país e de
todo o mundo;
·
apontar a gravidade do problema, informando que são
milhares de mulheres que sofrem violência diariamente,
muitas delas entre quatro paredes, longe dos olhos dos
vizinhos, amigos e parentes;
·
mostrar as vidas por trás dos números, revelando que
são milhares de mulheres e meninas espancadas e abusadas
e que há também outras vidas, como as das crianças que
presenciam as agressões sofridas por suas mães;
·
revelar o custo econômico e social da violência,
mostrando que há trabalhadoras que faltam ao trabalho e
que a violência acaba gerando uma grande demanda nos
serviços de saúde;
·
denunciar a desigualdade de gênero, informando que
as maiores vítimas dessas violências são mulheres e
meninas fragilizadas e desprotegidas, que não têm como
se defender de seus agressores;
·
mostrar os fatores que se ocultam por trás de cada
agressão, como o uso de bebidas ou drogas, a
ganância de um agenciador de meninas, os ciúmes, o
não-consentimento em ter uma relação sexual, a exigência
do uso do preservativo e outras;
·
mostrar que o Estado
brasileiro já assumiu o compromisso de combater a
violência contra as mulheres ao assinar tratados e
convenções, como a Convenção de Belém do Pará
(Convenção
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a
Violência Contra a Mulher), assinada pelo Brasil em 1994
e ratificada em 1995;
·
comover e indignar: sendo que é possível fazer isso
sem apelar para o sensacionalismo, mas apenas mostrando
a realidade do problema;
·
provocar a mobilização pública, abrindo discussão
sobre as alternativas, o que pode e o que deve ser
feito;
·
divulgar também as “boas notícias”, mostrando o
trabalho e entrevistando bons profissionais que atuam em
delegacias da mulher e em organizações
não-governamentais que dão assistência às mulheres e
meninas, os serviços de referência nos hospitais, que
prestam atendimento multidisciplinar às vítimas de
violência sexual, e as casas-abrigo, que recebem as
mulheres que não têm para onde fugir.
A imprensa informativa
possui um papel estratégico na formação da opinião e na
pressão por políticas públicas. Assim, pode-se dizer que
o objetivo final de todo esse trabalho deve ser
conscientizar a opinião pública de forma geral e
sensibilizar os/as chamados/as formadores/as de opinião
e formuladores/as de políticas, em particular, para que
se faça mais no enfrentamento à violência contra as
mulheres.
É preciso lembrar também que
a mídia pauta a própria mídia. Uma notícia divulgada em
um grande jornal impresso ou em um telejornal muitas
vezes acaba virando notícia em outros jornais e nas
rádios. Uma reportagem bem realizada pode ter grande
repercussão e gerar um efeito dominó tremendamente
positivo.
Do que a imprensa precisa
para cumprir bem o seu papel
É preciso estimular a
responsabilidade social da imprensa e alertar,
conscientizar e sensibilizar jornalistas a respeito da
gravidade desse problema. O/a jornalista deve estar
consciente de que ficar indiferente e se omitir é ser
cúmplice dessa violência. Mas é necessário que os/as
jornalistas estejam bem preparados/as para cobrir esse
tema. Eles precisam ter clareza de que lidam com um tema
delicado, que tem a ver com a emoção, os sentimentos e a
vida das pessoas envolvidas. Por isso, ao procurar uma
mulher ou um agressor para entrevistar, é preciso que a
imprensa compreenda que deve em primeiro lugar respeitar
essas pessoas e seus limites ao reviver situações
difíceis e dolorosas.
E, antes de cobrar da
imprensa o cumprimento desse papel, é necessário saber
claramente do que a imprensa precisa para realizar esse
trabalho:
·
em primeiro lugar, a imprensa precisa de informações,
de preferência dados novos de pesquisas e casos reais
que mostrem a gravidade do problema da violência contra
as mulheres e meninas;
·
para isso, a imprensa precisa de fontes disponíveis e
acessíveis: profissionais dos serviços,
pesquisadores/as, ativistas, parlamentares e membros do
Executivo, pessoas que tenham experiência com o
problema, que possam explicar os números, fazer análises
e comentários com uma linguagem fácil e direta. Se o/a
jornalista precisa estar preparado/a para escrever sobre
a violência, a fonte também precisa se preparar para
falar com a imprensa. No caso de uma pesquisa, é melhor
ter em mãos uma síntese de 2 a 3 páginas ao invés de
entregar ao jornalista um relatório de 100 páginas que
ele não terá tempo de ler e no qual nem conseguirá
localizar o que há de mais importante. A lógica de
funcionamento de uma redação não permite isso. Também é
conveniente, quando se concede uma entrevista, já ter
alguns argumentos básicos preparados para serem ditos de
forma sintética, ter em mãos alguns poucos números, mas
que sejam impactantes, não complicar as explicações e
citar exemplos de casos verídicos que humanizem a
notícia;
·
a imprensa precisa também de novos enfoques, como os
apontados anteriormente; é preciso também que
pesquisadores/as façam recortes nas estatísticas
disponíveis e mostrem aspectos diversificados e que
produzam impacto. No caso da pesquisa da Fundação Perseu
Abramo, pouca atenção foi dada ao fato de que, mesmo
sofrendo violência contínua, a maioria das mulheres não
pede ajuda, ou que a maioria dos casos de agressão podem
ser influenciados e/ou potencializados por fatores como
o ciúme ou o consumo de álcool;
·
a imprensa precisa também de personagens para dar
depoimentos e conferir um lado humano à notícia e fazer
o público se identificar com o problema. No caso da
violência contra a mulher, a personagem principal muitas
vezes não quer falar a respeito e isso deve ser
respeitado. Mas, se ela permitir, pode-se conversar com
familiares que testemunharam o caso e que podem fazer
comentários sobre o que aconteceu.
O que tem sido feito e o que
há por fazer
Nos últimos anos temos
assistido a diversas tentativas de enfrentar a questão
da violência contra as mulheres no Brasil. O Legislativo
tem apresentado para discussão projetos de lei para
tipificar e definir a punição para o crime de violência
doméstica; o Executivo está se preparando para montar um
serviço telefônico para atender as denúncias de agressão
contra mulheres; profissionais de saúde têm trabalhado
para oferecer atendimento de qualidade às mulheres que
sofreram violência sexual; ONGs mistas realizam
trabalhos com homens agressores e não-agressores;
pesquisadores/as têm feito estudos sobre o tema; e
organizações da sociedade civil têm apresentado
pesquisas e se mobilizado para denunciar os casos de
violência, prestar atendimento às mulheres e exigir
políticas públicas de atenção às mulheres em situação de
violência.
Em muitos desses momentos, a
imprensa esteve presente e cobriu essas iniciativas. Mas
até agora pode-se dizer que, se a contribuição da
imprensa tem sido valiosa, ela ainda é muito tímida. A
imprensa pode e precisa fazer mais. Para isso, é preciso
que cada um e cada uma faça a sua parte, pesquisando e
mobilizando, colhendo, disponibilizando e divulgando
informações e exigindo ações do Estado.
Fontes:
Além de diversas edições dos
anos de 2004 e 2005 dos jornais Folha de S.Paulo,
O Estado de S.Paulo, Jornal do Brasil e O
Globo, foram consultadas as seguintes obras.
DINES, Alberto. “Mídia e
Saúde: doença, doentes e informação”. In REDE FEMINISTA
DE SAÚDE, “Ligad@s na Rede”, e-mail de 10/12/03.
REDE FEMINISTA DE SAÚDE.
“Boletim Saúde Reprodutiva na Imprensa”. Belo Horizonte,
2004 e 2005. Edições disponíveis em
http://www.redesaude.org.br/html/boletim.html. Acesso em
15/03/05.
REDE FEMINISTA DE SAÚDE.
Dossiês Saúde da Mulher e Direitos Reprodutivos. São
Paulo: 2001. Disponível em
http://www.redesaude.org.br/dossies/dossiessr.html.
Acesso em 01/03/05.
RUBIN, Antônio Albino
Canelas, “Mídia, Política e Democracia”, in PITTA, Áurea
M. da Rocha (org.), Saúde & Comunicação:
visibilidades e silêncios. São Paulo:
Hucitec/Abrasco, 1995, p. 81-97.
* Marisa Sanematsu é
jornalista, com mestrado pela Universidade de São Paulo.
Coordenou diversos projetos de monitoramento e análise
da cobertura da imprensa sobre temas como saúde da
mulher, AIDS e racismo.
É editora de conteúdo de sites na Internet e consultora
de projetos de comunicação para organizações
não-governamentais. Atualmente coordena o Portal
Violência Contra a Mulher (www.violenciamulher.org.br)
do Instituto Patrícia Galvão.
E-mail:
msanematsu@uol.com.br.
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