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A comunicação e a mídia na luta contra a violência à mulher

 

Jacira Melo, Marisa Sanematsu[1], Fernanda Pompeu

 

Houve um tempo, que durou muitas décadas, em que as organizações feministas e de mulheres trabalhavam a comunicação como mera divulgação de suas atividades. Na hora que o cinto econômico era apertado, e ele foi apertado muitas vezes, o primeiro corte era na comunicação.

Agora, a ficha começou a cair e as organizações compreenderam que a comunicação é estratégica. 

Também entenderam que “não basta fazer, tem que aparecer”. A idéia evoluiu e chegou em um momento mais sofisticado: “não basta aparecer, tem que aparecer para muita gente.”

No Brasil, aparecer para muita gente é sinônimo de aparecer na televisão. O recado que irrompe na telinha é o assunto que será falado no dia-a- dia das pessoas.

Pensando nisso, o Instituto Patrícia Galvão – Comunicação e Mídia (www.patriciagalvao.org.br) realiza a campanha “Onde tem violência, todo mundo perde”, veiculada em 2004 pela Rede Globo, televisões educativas etc.

Tão interessante quanto os produtos da campanha, foi a sua feitura que envolveu um pool de profissionais de ponta em planejamento, mídia, criação publicitária, produção de filmes e pesquisa. Para subsidiar os jornalistas, foram criados o Portal Violência Contra a Mulher (www.violenciamulher.org.br) e um livreto específico.

Ao lado da campanha, o Instituto Patrícia Galvão encomendou uma pesquisa ao Instituto Ibope. Na pesquisa, a violência doméstica contra as mulheres aparece como o problema que mais preocupa mulheres e homens.

Tão importante quanto aparecer é aparecer com conteúdo. Saber qual a freqüência e com que vieses o tema violência doméstica contra as mulheres surge na imprensa. Compreender a lógica da notícia, a velocidade da informação. As organizações precisam estar preparadas para fornecerem “conteúdos substanciais” para os profissionais da comunicação. Abandonar atitudes ora reticentes, ora prepotentes para influir na pauta do jornalista.

Os textos a seguir aprofundam essas informações e dão panos para boas mangas.

O primeiro texto – “Como a imprensa cobre (e deixa de cobrir) o tema da violência contra as mulheres” – aborda a cobertura realizada pelos principais jornais brasileiros sobre o assunto. Esse artigo também apresenta uma série de recomendações para a relação das fontes (ativistas dos movimentos de mulheres, pesquisadores, especialistas etc.) com os profissionais de imprensa, a fim de se obter uma cobertura mais contínua, equilibrada e aprofundada.  

O segundo texto – “Campanhas na grande mídia para o enfrentamento da violência contra as mulheres” – enfatiza o potencial das campanhas publicitárias, difundidas através dos meios de comunicação de massa, para a promoção de mudanças de comportamento diante da violência contra as mulheres.

O terceiro texto – “Atitudes frente à violência contra a mulher” – apresenta os principais resultados da pesquisa encomendada pelo Instituto Patrícia Galvão ao Ibope, sobre a percepção da sociedade brasileira em relação à violência contra as mulheres. Divulgada em novembro de 2004, a pesquisa revela que os indicadores de preocupação com a questão da violência não mostram diferenças entre sexo, tampouco na maioria das variáveis estudadas. Isto é, trata-se de um problema entendido como grave pelo conjunto da sociedade. Segundo dados da pesquisa, 82% dos entrevistados responderam que “não existe nenhuma situação que justifique a agressão do homem a sua mulher”.  

Campanhas na grande mídia para o enfrentamento da violência contra as mulheres

Fernanda Pompeu e Jacira Melo *

 

Campanhas de interesse público que fazem uso do poder potencial da comunicação e dos meios de comunicação de massa podem dar ênfase e relevo a problemas urgentes como a violência doméstica. Ao combinar propostas de mudança de atitude e propiciar informação fundamental, uma campanha tem a capacidade de dar visibilidade ao problema e fomentar ações de prevenção junto aos agressores e de assistência às vítimas.

A questão da violência contra as mulheres é um dos pontos da agenda feminista que apresenta completa convergência com a opinião pública brasileira.  A pesquisa Ibope – Instituto Patrícia Galvão revela um alto grau de rejeição da população à violência contra as mulheres: 91% dos entrevistados responderam que consideram muito grave o fato de mulheres serem agredidas por companheiros e maridos.

O tema da violência contra as mulheres vem sendo adotado em bons termos por alguns segmentos da mídia brasileira desde os anos 80. As delegacias especiais da mulher, enquanto políticas públicas, foram ações pioneiras e conquistaram grande visibilidade social e política. No entanto, nas últimas duas décadas, em nenhum momento observou-se uma mobilização consensual da mídia em torno do tema da violência contra as mulheres, como tem acontecido com outras questões, como a campanha de prevenção da Aids, contra o uso de drogas, de prevenção do câncer de colo do útero etc.

É chegado o momento de se proporem amplas campanhas sociais contra a violência doméstica, dirigidas às mulheres, mas também aos homens agressores e não agressores. As mudanças de comportamento e atitude frente à violência contra as mulheres dependem, sobretudo, de aspectos culturais e de mentalidades, campo em que a mídia pode ser bastante eficaz. No caso de campanhas como, por exemplo, as de prevenção do câncer de colo uterino, não bastam campanhas de mídia, é imprescindível contar com toda a estrutura de atendimentos, exames e testes laboratoriais. Já em relação à violência, uma questão eminentemente cultural, não bastam serviços de atenção às vítimas e de punição aos agressores. Faz-se necessário envolver e sensibilizar homens, mulheres, instituições e escolas para a gravidade desse problema, que precisa ser enfrentado e erradicado na sociedade brasileira. É nessa perspectiva que campanhas de mídia – que devem ter continuidade ao longo de 4 a 5 anos – são imprescindíveis para o enfrentamento da violência doméstica.

   Um exemplo de Campanha de Mídia

Onde tem violência, todo mundo perde é uma campanha de comunicação e mídia voltada para homens agressores, realizada em 2004 pelo Instituto Patrícia Galvão, em conjunto com um leque amplo de parceiros e parceiras. A proposta é colocar os homens no centro do debate sobre a violência doméstica. Ao contrário da maioria das mensagens contra a violência doméstica, a “personagem” não é a mulher agredida, mas sim o autor da violência.  As mensagens da campanha são um convite a uma mudança de atitude e do comportamento masculino frente à violência doméstica. Trata-se de uma campanha nacional, com peças para televisão e rádio e cartazes, que tem os meios de comunicação de massa como canal.

Os objetivos principais da campanha são: sensibilizar os homens que agridem para uma mudança de comportamento; ganhar a solidariedade dos homens que não agridem; e provocar no público em geral uma diminuição da tolerância cultural em relação à violência doméstica contra as mulheres.

E é importante enfatizar: não se trata de negar o protagonismo das mulheres na luta contra a violência doméstica; também não se trata de realizar uma Campanha voltada exclusivamente para os homens; trata-se de uma Campanha que chama atenção para a responsabilidade masculina na busca de soluções para o problema da violência doméstica, um assunto de toda a sociedade.      

Metodologia

Mesmo não dispondo dos recursos financeiros necessários, a campanha foi planejada seguindo o padrão de campanhas publicitárias de grande porte, realizadas para grandes audiências. Além da definição conceitual e da formação de uma equipe de profissionais experientes, foram realizados testes com grupos de homens com perfil socioeconômico compatível com o conceito e o público-alvo da campanha.

O trabalho desenvolvido teve dois objetivos: a criação de uma campanha de massa e a elaboração de uma metodologia de trabalho para campanhas sociais. A partir de agora, além de contar com uma campanha contra a violência à mulher, os movimentos sociais contam também com um exemplo de campanha feito por uma organização da sociedade civil, com o mesmo padrão de realização de campanhas publicitárias de peso.

Este projeto busca ser também um referencial metodológico sobre como lidar com atores tão fortes como os movimentos sociais e as instituições de comunicação. Sabe-se que esta é uma área difícil de articular, porque do ponto de vista do movimento este nem sempre está equipado para preparar as informações necessárias – por exemplo, um briefing claro e objetivo. Por outro lado as agências de publicidade e as emissoras de TV e rádio têm dificuldades de compreender a lógica dos movimentos sociais.

 

Elaboração do briefing

O primeiro passo da construção da campanha foi reunir especialistas em violência doméstica e masculinidades para elaborar um briefing consistente. Uma série de questões foram colocadas: Qual seria o conceito da campanha? Qual deveria ser o posicionamento estratégico? O que não deveria faltar? O que ela não poderia conter? Como envolver os homens autores de violência e os não agressores no debate sobre violência doméstica?

Esse briefing preciso possibilitou o trabalho com a equipe de comunicadores/as e pesquisadores/as que estabeleceram parceria com o Patrícia Galvão para a construção da campanha. Passou-se a trabalhar com referências muito bem construídas, o que significou, entre outras vantagens, evitar as recorrentes dificuldades de comunicação entre a criação da publicidade e a intenção de ativistas dos movimentos sociais.

 Planejamento, criação & produção

Onde tem violência, todo mundo perde contou, desde a concepção, com debates acerca do conceito geral a ser trabalhado. Profissionais de várias áreas e ativistas uniram-se durante o processo de planejamento para elaborar as mensagens da campanha.

Depois da redação das peças houve pré-testes das mensagens com a realização de grupos focais formados por homens. As pesquisas qualitativas são um item obrigatório de avaliação em toda campanha publicitária de peso. A avaliação dos resultados dos grupos funcionou como uma bússola para a equipe de criação, permitindo a correção de rotas e imperfeições na comunicação, levando à reescrita de partes dos roteiros dos spots para televisão.

A fase de produção das peças propriamente dita contou com o mesmo rigor das etapas anteriores. A escolha do casting, a gravação e a finalização dos spots seguiram a mesma rotina usada pela publicidade profissional.

  Veiculação

Os dois spots publicitários – Bar e Futebol – foram veiculados nacionalmente pela Rede Globo de Televisão de 25 de novembro a 10 de dezembro de 2004. Em 2005, nos meses de janeiro, fevereiro e março a TVE-RedeBrasil veiculou nacionalmente os dois spots da Campanha.

A veiculação da campanha na televisão entra nas cotas de “anúncios de utilidade pública” (mídia gratuita). Há um ganho político importante no reconhecimento da campanha como de utilidade pública.

Pós-testes

Foram formados grupos focais de homens e mulheres para conhecer em profundidade o impacto das mensagens e permitir pequenos ajustes a fim de se alcançar maior compreensão e aceitação. Os resultados servirão para a 2ª Etapa da Campanha Onde tem violência, todo mundo perde em 2005.

Trabalho em equipe

A Campanha Onde tem violência, todo mundo perde não saiu da cabeça de meia dúzia de pessoas nem foi pensada a toque de caixa. De sua construção participaram ativistas e profissionais de pesquisa, planejamento e comunicação.

Prós e contras foram ouvidos. As peças, pré-testadas. Os rumos, constantemente corrigidos. Todo o acúmulo de conhecimento do movimento de mulheres, das organizações que trabalham com masculinidades e dos demais profissionais serviu de base para a criação do conceito da campanha.

Parcerias estratégicas

A realização da Campanha Onde tem violência, todo mundo perde é um exemplo de que a sustentabilidade desse tipo de projeto se expressa na densidade política da proposta e nas parcerias estabelecidas. A definição da Campanha foi fruto de parcerias com organizações sociais para a definição conceitual; a realização da Campanha foi resultado da formação de um pool de parcerias com profissionais e empresas da área de publicidade; a veiculação da Campanha pela Rede Globo, TVE-RedeBrasil, Bandeirantes e TV Cultura só foi possível devido ao estabelecimento de diálogo e parcerias com as principais emissoras do país.

Um Trabalho de comunicação e um trabalho político

A articulação política foi uma ênfase em todas as fases do trabalho em 2004. Ao reunir 15 especialistas sobre violência contra a mulher, na primeira fase dos trabalhos, o Patrícia Galvão observou que se tratava de uma reunião inédita. Nunca este grupo conversara entre si, em nenhum momento as organizações feministas e as organizações mistas que trabalham com violência contra a mulher e masculinidades tinham tido uma interface, uma interlocução sobre trabalhos ou uma reflexão conjunta. Este tipo de articulação se mostra necessária quando se quer fazer uma comunicação estrategicamente relevante, uma comunicação que tenha durabilidade no tempo, independentemente de que instrumento de comunicação seja usado.  Esta reunião com especialistas resultou em um briefing muito substancioso sobre o conceito da Campanha.

A articulação com a Campanha do Laço Branco recebeu toda a atenção durante o processo de criação e produção da Campanha. Era preciso envolver seus integrantes como protagonistas que são de um trabalho com autores de violência. Imagina-se que as próximas fases da Campanha precisam ser feitas em conjunto com o Laço Branco. Ao mesmo tempo, objetiva-se colaborar para que o Laço Branco venha projetar um trabalho mais ambicioso no campo da comunicação política.

Assim, este projeto de Campanha teve também este conteúdo de articulação política, das organizações que trabalham com violência contra a mulher. Buscou-se o entendimento, a inclusão e a sinergia no processo, justamente para dar volume e maior densidade a esta ação de comunicação política que é a Campanha.

O que a campanha acrescenta

Coordenada pelo Instituto Patrícia Galvão, a Campanha Onde tem violência, todo mundo perde tem o objetivo de ampliar o debate acerca da violência contra as mulheres. A idéia é que o tema entre nas conversas nos escritórios, nos mercados, nas esquinas, nas casas, nas escolas, nos bares, entre pessoas de todas as classes e graus de instrução. Também que inspire e encoraje outras ações da sociedade civil e especialmente dos governos municipais, estaduais e federal.

Pôr em evidência a violência doméstica faz parte do esforço para romper o silêncio e o constrangimento em relação ao problema. Assim, a campanha é uma das ferramentas para “desnaturalizar” essa violência e diminuir cada vez mais a tolerância cultural que leva uma parcela da sociedade a admitir que os homens possam agredir suas companheiras ou ex-companheiras.

A reprovação à violência doméstica contra as mulheres só será eficaz se toda a sociedade se envolver. Não é uma luta restrita às mulheres em situação de violência; não é restrita às ativistas do movimento de mulheres. Trata-se de uma luta que diz respeito a todas as mulheres e a todos os homens.

Comprometer os homens

Outro ganho obtido foi a sensibilização e o comprometimento dos homens na reprovação da violência doméstica contra as mulheres. É muito importante que os homens manifestem seu repúdio de forma clara.

A campanha coloca o foco nos autores de violência e faz um convite à reflexão e à mudança de atitude em relação às mulheres e à violência doméstica. O homem que bate na mulher é responsável pelo seu ato. “Homem que é homem, não bate!”, como diz a Campanha.

A violência contra as mulheres não se caracteriza por casos isolados ou eventuais. Ao contrário, sua escala é enorme e extremamente grave. Para que essa violência cesse, é fundamental que os homens que não cometem violência contra as mulheres se posicionem.

Ao entender a violência doméstica como uma construção social, torna-se mais urgente uma resposta de toda a sociedade. Os formadores e formadoras de opinião podem ter papel de destaque na mudança do comportamento violento.

Mudança       

Outro objetivo da Onde tem violência, todo mundo perde é colocar na ordem do dia a mudança de comportamento em relação à violência doméstica. Essa mudança diz respeito aos autores de violência, às mulheres em situação de violência e às pessoas em geral. Trata-se de uma mudança cultural.

A campanha busca falar diretamente com os homens autores de violência, mas também procura sensibilizar o público em geral para baixar ainda mais a tolerância em relação à violência. É preciso exigir dos homens novas alternativas para a resolução de conflitos. É necessário explicitar que o uso da violência contra a mulher é inaceitável.

Para 2005 peças de Campanha voltadas para mulheres e para homens

No primeiro semestre de 2005 o Patrícia Galvão está estabelecendo uma parceria com a agência Duda Propaganda para o lançamento de uma campanha voltada para as mulheres. A mensagem principal será o incentivo à denúncia. Para o segundo semestre de 2005 serão produzidos mais dois spots voltados para homens agressores.

É importante lembrar que a pesquisa Ibope–Instituto Patrícia Galvão, que revela o alto grau de rejeição da população à violência contra as mulheres, contrasta com os dados da incidência dos casos de violência. Observa-se que há uma atitude da população contrária à violência, mas não há um comportamento equivalente.

O conjunto de dados disponíveis aponta para a necessidade de maior visibilidade e debate sobre a violência doméstica. Revela ainda um ambiente propício para Campanhas com ênfase na mudança de mentalidade. Ao lado de políticas públicas nas áreas da justiça, saúde e segurança, são também necessárias estratégias de comunicação junto à sociedade para promover mais discussão e mudanças de comportamento. Campanhas de impacto na mídia são imprescindíveis.  

Campanhas de mídia realizadas por outras organizações no Brasil

Campanha Bem Querer Mulher


Uma iniciativa do Unifem - Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher e da agência Full Jazz Comunidade

Campanha do Laço Branco
A Campanha reúne homens que trabalham pelo fim da violência contra as mulheres: “Violência contra a mulher não tem graça nenhuma”.

Campanha: Sua vida recomeça quando a violência termina - Violência contra a mulher. Peça ajuda. Denuncie.
Realização da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres

Campanha de Rádio para discussão da Violência Doméstica contra as Mulheres
O Cfemea lança a Campanha As Vitoriosas, com depoimentos de mulheres que superaram a violência doméstica. O objetivo é ampliar o debate sobre o projeto de lei 4559/2004 (Violência doméstica e familiar contra a mulher).

 

* Fernanda Pompeu é escritora e integrante do Instituto Patrícia Galvão. É autora do livro 64, Rio de Janeiro, AM3, 2003.

* Jacira Vieira de Melo é especialista em comunicação e ativista feminista, graduou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo e fez mestrado em Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da USP. Atualmente é diretora do Instituto Patrícia Galvão – Comunicação e Mídia.

   

   

Como a imprensa cobre (e deixa de cobrir) o tema da violência contra as mulheres

Marisa Sanematsu*

A imprensa é um importante espaço de poder e mediação de conflitos. Pode-se dizer que a imprensa em geral define os assuntos que vão ser objeto das conversas no dia-a-dia, dentro de casa, nas reuniões sociais e no trabalho. Em outras palavras, a imprensa tem o poder de selecionar e hierarquizar questões, definindo urgências e prioridades. É nesse contexto que se pode afirmar que a imprensa tem muito poder e uma responsabilidade social muito grande na configuração da agenda de debates de uma sociedade e na definição de políticas públicas.

Por outro lado, a sociedade tem a responsabilidade de incidir na mídia para influenciar os debates e disputar espaço para questões urgentes da agenda social. Isso significa dizer que os movimentos sociais precisam: mobilizar capacidade de análise e produzir argumentos de qualidade; ser críticos e propositivos; construir pontes entre propostas e ações políticas; identificar oportunidades de comunicação; e fortalecer parcerias para realizar ações de impacto e produzir notícias.

O noticiário sobre violência contra as mulheres nos últimos dois anos

Apresento a seguir, apenas para efeito de ilustração e sem a pretensão de esgotar o potencial de um monitoramento mais amplo e preciso, um levantamento das principais notícias sobre violência contra a mulher publicadas na imprensa escrita desde 2003. Pode-se afirmar que esse tema é notícia quando:

·        uma personalidade é agredida pelo companheiro, como aconteceu com a apresentadora da TV saudita, Rania al Baz , ou nos casos do cantor norte-americano James Brown ou do apresentador de TV Netinho, que agrediram suas companheiras;

·        acontecem crimes sexuais como o ocorrido durante a rebelião na Febem em São Paulo, em que uma educadora sofreu violência sexual por parte de internos rebelados;

·        ocorre o fechamento de uma casa de prostituição de meninas ou é preso um agenciador;

·        o estupro vira arma de guerra em países como a Colômbia ou em campos de refugiados;

·        é desmontada uma quadrilha que traficava mulheres e meninas para prostituição no exterior;

·        é procurado um estuprador que ataca estudantes universitárias ou que fez uma vítima durante um assalto a uma residência;

·        militares ou garimpeiros estupram mulheres indígenas em reservas;

·        os casos de assédio sexual no trabalho passaram a ser denunciados e punidos na China.

Mas nem só de casos de polícia vive o noticiário; a violência também é noticiada, embora em menor escala, quando:

·        é divulgada uma pesquisa sobre exploração sexual de menores no Brasil, como a que foi realizada pela Universidade de Brasília;

·        um relatório da Anistia Internacional diz que 1 bilhão de mulheres no mundo já foram espancadas ou estupradas;

·        é gerada uma polêmica sobre a necessidade de boletim de ocorrência para interrupção da gravidez em caso de estupro, a ser realizada nos serviços públicos de atendimento a vítimas de violência sexual;

·        é feito um levantamento dos casos de violência doméstica contra crianças e adolescentes;

·        é encaminhado à Câmara dos Deputados um projeto de lei para proibir que os pais apliquem castigos corporais leves nos filhos;

·        os hospitais da rede pública municipal de São Paulo passam a realizar cirurgia plástica reparadora nas mulheres que são vítimas de violência sexual e doméstica;

·        pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Unifesp revela que o consumo de bebidas alcoólicas contribui para situações de violência doméstica;

·        pesquisa encomendada ao Ibope pelo Instituto Patrícia Galvão mostra que a maioria da população considera a violência contra a mulher como algo muito grave e que o agressor deve ser punido;

·        é aprovado no Congresso Nacional o projeto de lei que trata da violência doméstica, que passará a ser tipificada como crime de lesão corporal com pena de seis meses a um ano de prisão.

Com menor freqüência ainda, aparece também outro tipo de noticiário, que trata:

·        da denúncia de que apenas uma delegacia da mulher na cidade de São Paulo funciona à noite;

·        da implementação de iniciativas de combate ao turismo sexual, como a da empresa aérea TAM ou do Cedeca (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente);

·        do lançamento pela Fundação Abrinq de publicação visando a prevenção da violência doméstica contra crianças e adolescentes;

·        do trabalho realizado por instituições como o Núcleo de Atenção à Violência Doméstica (NAV), que funciona em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que presta tratamento psicológico a crianças e adolescentes em situação de violência, bem como a seus familiares e agressores;

·        do que há por trás do turismo sexual, como o envolvimento e esperanças das mulheres, muitas das quais vêem na relação com um homem estrangeiro um sonho de casamento e de ascensão social;

·        de reportagem sobre o trabalho realizado pelas delegacias da mulher ou por organizações não-governamentais como a Pró-Mulher, motivada pela exibição de um caso de violência doméstica em novela da TV Globo;

·        do Prêmio Criança, da Fundação Abrinq, recebido pelo Centro de Referência às Vítimas de Violência do Sedes (CNRVV), que trabalha com a prevenção e o atendimento a casos de violência doméstica.

O que faz a violência contra a mulher virar notícia?

Conforme vimos, para que a violência contra as mulheres torne-se objeto de cobertura da imprensa, é preciso ter:

•        casos específicos de violência, em especial se a agressão for cometida contra uma mulher famosa ou se o agressor for famoso;

•        iniciativas do Executivo (delegacias da mulher, serviços de aborto previsto em lei), Legislativo (projetos de lei) ou da sociedade civil (ações de prevenção e enfrentamento da violência, em especial o atendimento de casos);

•        dados impactantes de pesquisas produzidas por instituições conceituadas.

A cobertura dá maior ênfase à violência contra crianças e adolescentes

No levantamento realizado, nota-se uma presença constante de matérias sobre a violência que atinge crianças e adolescentes. As abordagens incluem desde a exploração sexual, o tráfico de menores, o turismo sexual até a violência doméstica praticada contra crianças. E, quando se fala sobre esse tipo de violência, as fontes para a imprensa são, invariavelmente, as organizações que trabalham diretamente com o atendimento a essas crianças.

Tudo indica que as organizações que atuam no campo do atendimento a crianças e adolescentes estão incidindo com maior força na mídia, fornecendo informações e dados continuamente. Uma outra constatação do levantamento realizado na grande imprensa é que, nas reportagens sobre violência contra crianças e adolescentes, as organizações de mulheres não figuram como fontes.  

As vozes mais ouvidas na cobertura

Dentre as fontes mais procuradas pela imprensa destacam-se delegados/as e agentes policiais, pesquisadores/as, profissionais de saúde, representantes do Executivo (da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, Ministério da Saúde ou Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres) e do Legislativo e ativistas de ONGs.

Sobre o que a imprensa não fala ou fala muito pouco

Ao mesmo tempo em que trata com freqüência da violência contra crianças e adolescentes, há muitos temas e abordagens sobre a violência contra as mulheres que a imprensa não toca. Trata-se de temas igualmente importantes e que merecem uma maior atenção por parte dos jornais e telejornais, como por exemplo:

- as “mortes anunciadas” – são inúmeros os casos de mulheres que prestaram queixa, denunciando as ameaças e agressões, e mesmo assim acabaram assassinadas pelos maridos e companheiros ou ex. Investigar em profundidade as mortes dessas mulheres pode ser um caminho para que se identifiquem e divulguem as razões e omissões que levaram a essas “mortes anunciadas”;

- as mulheres “sobreviventes”; quase não se fala sobre aquelas que, de uma forma ou de outra, conseguiram sair da situação de violência;

- as outras vítimas da violência, que são as crianças que presenciam a agressão dentro de casa; que adultos irão se tornar?;

- as mulheres negras, que além de sofrerem a violência de gênero, enfrentam o racismo como estruturador da violência cotidiana;

- a violência física prevalece sobre a violência psicológica, que raramente é tratada nas reportagens; há muito pouca divulgação de que a violência psicológica também constitui uma grave forma de agressão e abuso contra as mulheres, acarretando sérios danos à saúde mental das agredidas;

- o direito ao aborto nos casos de estupro; quais são os serviços que realmente prestam atendimento a vítimas de violência sexual? Qual é o perfil das mulheres e das ocorrências nestes serviços?;

- nunca se fala sobre a violência contra as empregadas domésticas e contra as mulheres idosas, que muitas vezes é praticada por mulheres dentro de casa;

- raramente se mostra o ponto de vista dos homens, tanto agressores como agredidos;

- pouco se fala sobre o cliente que procura meninas prostitutas; qual é o perfil psicológico desse indivíduo que sabe que está cometendo um crime, mas mesmo assim não deixa de abusar de menores?;

- não se trata da violência como questão de segurança pública, como um direito que deveria ser garantido pelo Estado mesmo no espaço privado.  

Números ainda impactantes

Embora haja ainda poucas pesquisas que quantifiquem a violência contra as mulheres, quando se analisa a magnitude numérica desse problema, tanto no Brasil como no mundo, os números revelados são bastante impactantes. Dizer que a cada 15 segundos uma mulher é espancada por um homem e que uma em cada cinco brasileiras já foi agredida por seu companheiro ou ex já é suficiente para garantir uma manchete nos jornais.

Apesar de esses números terem sido levantados em 2001, pela Fundação Perseu Abramo, eles ainda são bastante divulgados. Trata-se da pesquisa mais recente de âmbito nacional a perguntar diretamente às mulheres qual havia sido sua experiência pessoal com a violência dentro e fora de casa.

Uma pesquisa com boa divulgação

Em novembro de 2004 o Instituto Patrícia Galvão divulgou pesquisa encomendada ao Ibope Opinião sobre a percepção da sociedade brasileira sobre a violência contra as mulheres. A pesquisa revelou um alto grau de rejeição da sociedade em relação à violência contra as mulheres. Dentre os principais resultados da pesquisa incluem-se; a maioria dos/as entrevistados/as revelou que considera esse tipo de violência como algo muito grave, que preocupa a mulher brasileira e que se trata de um crime que deve ser punido, pois nada justifica que um homem agrida uma mulher.

Lançada no âmbito das atividades do 25 de Novembro, Dia Internacional pela Não-Violência Contra a Mulher, essa pesquisa foi amplamente divulgada pela imprensa, o que mostra que a mídia tem interesse por dados novos que sejam obtidos por instituições de pesquisa conceituadas e com credibilidade.

Elementos da notícia sobre violência contra as mulheres

Quando a pauta é a violência contra as mulheres, a imprensa tem em mãos um tema de grande impacto social e emocional e que envolve:

·                    uma mulher ou uma menina, que é em geral um ser fisicamente mais fraco (e às vezes psicologicamente mais fragilizado) do que o agressor e que se encontra desprotegida, o que gera uma situação de desigualdade;

·                    números, que podem dar a dimensão do problema e são fornecidos por instituições conceituadas, como a Organização Mundial da Saúde, o Ibope, a Fundação Perseu Abramo etc., e que podem ser comentados por especialistas, como pesquisadores/as de universidades, médicos/as, psicólogos/as, assistentes sociais, ativistas etc.;

·                    uma denúncia sobre um crime que não pode ficar impune e que deve ser levado à polícia e à Justiça e também ao conhecimento da sociedade;

·                    personagens: a própria mulher que é agredida ou a menina que é explorada sexualmente, o agressor, o intermediário ou o cliente e as testemunhas da violência, entre elas os familiares, os filhos, ou outras pessoas que presenciam o abuso;

·                    o interesse do público conjugado ao interesse público: pode-se recorrer aqui a uma frase consagrada pelo movimento de mulheres: “as mulheres são metade da população e mães da outra metade”. É importante também lembrar que as mulheres são maioria do eleitorado e do público dos principais veículos de comunicação de massa. A pesquisa de opinião (Ibope/Instituto Patrícia Galvão) revelou também que o tema da violência contra as mulheres suscita grande interesse da sociedade. A violência de gênero é um problema que, por sua magnitude, deve ser considerado quase como uma epidemia, um problema de saúde pública e de segurança pública a ser enfrentado pela sociedade e pelas autoridades

Todos esses elementos fazem com que a notícia sobre a violência contra as mulheres seja capaz de despertar interesse do público se a imprensa souber trabalhar bem com eles, mostrando que se trata de um problema de interesse público.  

O papel da imprensa quando entra em pauta a violência de gênero

O jornalista Alberto Dines afirmou em uma palestra que o papel da imprensa em relação à defesa da saúde pública é: “manter a pressão, identificar as emergências, criar a motivação e oferecer caminhos”.

É claro que a imprensa sozinha não pode dar resposta a todos os problemas relacionados à saúde e ao bem-estar físico e mental da população. A imprensa tem um papel importante, mas, sozinha, ela não pode fazer tudo. Se ela não for constantemente alimentada com dados e informações fornecidos por fontes com credibilidade, que sejam comentados por especialistas e ilustrados por personagens, pessoas que dão humanidade aos números, a imprensa pouco pode fazer.

Basicamente pode-se afirmar que o papel da imprensa informativa no enfrentamento do problema da violência contra as mulheres é:

·        informar sobre a real situação da violência de gênero, tanto no país como no mundo, divulgando números atualizados e obtidos junto a fontes confiáveis. É preciso que se informe que a violência contra as mulheres, em especial a violência doméstica, não distingue raça, classe social ou nível cultural, atingindo indistintamente mulheres de todo o país e de todo o mundo;

·        apontar a gravidade do problema, informando que são milhares de mulheres que sofrem violência diariamente, muitas delas entre quatro paredes, longe dos olhos dos vizinhos, amigos e parentes;

·        mostrar as vidas por trás dos números, revelando que são milhares de mulheres e meninas espancadas e abusadas e que há também outras vidas, como as das crianças que presenciam as agressões sofridas por suas mães;

·        revelar o custo econômico e social da violência, mostrando que há trabalhadoras que faltam ao trabalho e que a violência acaba gerando uma grande demanda nos serviços de saúde;

·        denunciar a desigualdade de gênero, informando que as maiores vítimas dessas violências são mulheres e meninas fragilizadas e desprotegidas, que não têm como se defender de seus agressores;

·        mostrar os fatores que se ocultam por trás de cada agressão, como o uso de bebidas ou drogas, a ganância de um agenciador de meninas, os ciúmes, o não-consentimento em ter uma relação sexual, a exigência do uso do preservativo e outras;

·        mostrar que o Estado brasileiro já assumiu o compromisso de combater a violência contra as mulheres ao assinar tratados e convenções, como a Convenção de Belém do Pará (Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher), assinada pelo Brasil em 1994 e ratificada em 1995;

·        comover e indignar: sendo que é possível fazer isso sem apelar para o sensacionalismo, mas apenas mostrando a realidade do problema;

·        provocar a mobilização pública, abrindo discussão sobre as alternativas, o que pode e o que deve ser feito;

·        divulgar também as “boas notícias”, mostrando o trabalho e entrevistando bons profissionais que atuam em delegacias da mulher e em organizações não-governamentais que dão assistência às mulheres e meninas, os serviços de referência nos hospitais, que prestam atendimento multidisciplinar às vítimas de violência sexual, e as casas-abrigo, que recebem as mulheres que não têm para onde fugir.

A imprensa informativa possui um papel estratégico na formação da opinião e na pressão por políticas públicas. Assim, pode-se dizer que o objetivo final de todo esse trabalho deve ser conscientizar a opinião pública de forma geral e sensibilizar os/as chamados/as formadores/as de opinião e formuladores/as de políticas, em particular, para que se faça mais no enfrentamento à violência contra as mulheres.

É preciso lembrar também que a mídia pauta a própria mídia. Uma notícia divulgada em um grande jornal impresso ou em um telejornal muitas vezes acaba virando notícia em outros jornais e nas rádios. Uma reportagem bem realizada pode ter grande repercussão e gerar um efeito dominó tremendamente positivo.  

Do que a imprensa precisa para cumprir bem o seu papel

É preciso estimular a responsabilidade social da imprensa e alertar, conscientizar e sensibilizar jornalistas a respeito da gravidade desse problema. O/a jornalista deve estar consciente de que ficar indiferente e se omitir é ser cúmplice dessa violência. Mas é necessário que os/as jornalistas estejam bem preparados/as para cobrir esse tema. Eles precisam ter clareza de que lidam com um tema delicado, que tem a ver com a emoção, os sentimentos e a vida das pessoas envolvidas. Por isso, ao procurar uma mulher ou um agressor para entrevistar, é preciso que a imprensa compreenda que deve em primeiro lugar respeitar essas pessoas e seus limites ao reviver situações difíceis e dolorosas.

E, antes de cobrar da imprensa o cumprimento desse papel, é necessário saber claramente do que a imprensa precisa para realizar esse trabalho:

·        em primeiro lugar, a imprensa precisa de informações, de preferência dados novos de pesquisas e casos reais que mostrem a gravidade do problema da violência contra as mulheres e meninas;

·        para isso, a imprensa precisa de fontes disponíveis e acessíveis: profissionais dos serviços, pesquisadores/as, ativistas, parlamentares e membros do Executivo, pessoas que tenham experiência com o problema, que possam explicar os números, fazer análises e comentários com uma linguagem fácil e direta. Se o/a jornalista precisa estar preparado/a para escrever sobre a violência, a fonte também precisa se preparar para falar com a imprensa. No caso de uma pesquisa, é melhor ter em mãos uma síntese de 2 a 3 páginas ao invés de entregar ao jornalista um relatório de 100 páginas que ele não terá tempo de ler e no qual nem conseguirá localizar o que há de mais importante. A lógica de funcionamento de uma redação não permite isso. Também é conveniente, quando se concede uma entrevista, já ter alguns argumentos básicos preparados para serem ditos de forma sintética, ter em mãos alguns poucos números, mas que sejam impactantes, não complicar as explicações e citar exemplos de casos verídicos que humanizem a notícia;

·        a imprensa precisa também de novos enfoques, como os apontados anteriormente; é preciso também que pesquisadores/as façam recortes nas estatísticas disponíveis e mostrem aspectos diversificados e que produzam impacto. No caso da pesquisa da Fundação Perseu Abramo, pouca atenção foi dada ao fato de que, mesmo sofrendo violência contínua, a maioria das mulheres não pede ajuda, ou que a maioria dos casos de agressão podem ser influenciados e/ou potencializados por fatores como o ciúme ou o consumo de álcool;

·        a imprensa precisa também de personagens para dar depoimentos e conferir um lado humano à notícia e fazer o público se identificar com o problema. No caso da violência contra a mulher, a personagem principal muitas vezes não quer falar a respeito e isso deve ser respeitado. Mas, se ela permitir, pode-se conversar com familiares que testemunharam o caso e que podem fazer comentários sobre o que aconteceu.

O que tem sido feito e o que há por fazer

Nos últimos anos temos assistido a diversas tentativas de enfrentar a questão da violência contra as mulheres no Brasil. O Legislativo tem apresentado para discussão projetos de lei para tipificar e definir a punição para o crime de violência doméstica; o Executivo está se preparando para montar um serviço telefônico para atender as denúncias de agressão contra mulheres; profissionais de saúde têm trabalhado para oferecer atendimento de qualidade às mulheres que sofreram violência sexual; ONGs mistas realizam trabalhos com homens agressores e não-agressores; pesquisadores/as têm feito estudos sobre o tema; e organizações da sociedade civil têm apresentado pesquisas e se mobilizado para denunciar os casos de violência, prestar atendimento às mulheres e exigir políticas públicas de atenção às mulheres em situação de violência.

Em muitos desses momentos, a imprensa esteve presente e cobriu essas iniciativas. Mas até agora pode-se dizer que, se a contribuição da imprensa tem sido valiosa, ela ainda é muito tímida. A imprensa pode e precisa fazer mais. Para isso, é preciso que cada um e cada uma faça a sua parte, pesquisando e mobilizando, colhendo, disponibilizando e divulgando informações e exigindo ações do Estado.

 

Fontes:

Além de diversas edições dos anos de 2004 e 2005 dos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, Jornal do Brasil e O Globo, foram consultadas as seguintes obras.

BARROS FILHO, Clóvis de. Ética na Comunicação: da informação ao receptor. São Paulo: Moderna, 1995, 239 p.

CFEMEA & REDESAÚDE. Mulher e Mídia: uma pauta desigual? São Paulo, 1997, 60 p.

DINES, Alberto. “Mídia e Saúde: doença, doentes e informação”. In REDE FEMINISTA DE SAÚDE, “Ligad@s na Rede”, e-mail de 10/12/03.

REDE FEMINISTA DE SAÚDE. “Boletim Saúde Reprodutiva na Imprensa”. Belo Horizonte, 2004 e 2005. Edições disponíveis em http://www.redesaude.org.br/html/boletim.html. Acesso em 15/03/05.

REDE FEMINISTA DE SAÚDE. Dossiês Saúde da Mulher e Direitos Reprodutivos. São Paulo: 2001. Disponível em http://www.redesaude.org.br/dossies/dossiessr.html. Acesso em 01/03/05.

RUBIN, Antônio Albino Canelas, “Mídia, Política e Democracia”, in PITTA, Áurea M. da Rocha (org.), Saúde & Comunicação: visibilidades e silêncios. São Paulo: Hucitec/Abrasco, 1995, p. 81-97.

 

* Marisa Sanematsu é jornalista, com mestrado pela Universidade de São Paulo. Coordenou diversos projetos de monitoramento e análise da cobertura da imprensa sobre temas como saúde da mulher, AIDS e racismo.
É editora de conteúdo de sites na Internet e consultora de projetos de comunicação para organizações não-governamentais. Atualmente coordena o Portal Violência Contra a Mulher (
www.violenciamulher.org.br) do Instituto Patrícia Galvão.
E-mail:
msanematsu@uol.com.br.


 


[1] Instituto Patrícia Galvão

 


 

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