Balanço do enfrentamento da violência
contra a mulher na perspectiva da saúde mental
Liz
Andréa Lima Mirim*
Introdução
Tomando a palavra balanço como é definida no dicionário, me
chama a atenção uma das definições: 1. movimento
oscilatório; abalo[1].
Pois bem, movimento oscilatório nos remete a algo que não é
estático, que está se movimentando. A idéia de abalo também
evoca o movimento brusco que tende à acomodação.
A idéia de movimento sempre é bem-vinda a um balanço de
idéias, pois como tal ele expressa um ponto de vista,
de uma perspectiva. Para aferir uma balança é preciso um
aparelho mecânico; não é possível torná-la precisa somente
pelas mãos humanas, pois o homem é tendencioso. O olhar é
sempre de um ângulo.
Ao nomear meu texto de balanço, quis dar ênfase a esse olhar
viciado, tendencioso. É um texto que vem trazer um olhar
específico, apesar de ter como base entrevistas com
profissionais que trabalharam com o tema ao longo desses 25
anos, e visitas a alguns serviços. Vamos utilizar um recurso
da psicanálise — a atenção flutuante e a associação livre —
para analisar esse material.
Duas palavras ganharam destaque nesses vinte e cinco anos
dentro da saúde mental: acolhimento e empoderamento.
Vamos tentar ao longo do percurso entender como esse
conceitos foram forjados nessa luta.
Usarei como paradigma dessa discussão a situação de
violência como é definida por Chauí:
“Entendemos por violência
uma realização determinada das relações de força, tanto de
classes sociais quanto em termos interpessoais. (...) como
uma ação que trata o outro não como sujeito, mas como coisa.
Esta se caracteriza pela inércia, pela passividade e pelo
silêncio, de modo que, quando a atividade e a fala de outrem
são impedidas ou anuladas, há violência.”[2]
Não é a definição de violência que será discutida, mas a
forma com que o silêncio e a inércia fazem eco nessa
discussão, isto é, é uma atuação
do movimento nesse enfrentamento. Algumas palavras/
expressões chaves do conceito apresentado acima deverão ser
ressaltadas, pois são elas que nortearão o texto: relação
de força (....) de classes sociais e/ ou interpessoais;
sujeito e coisa; passividade e silêncio.
É dentro desse contexto de “algo que se impõe a outrem que
se submete” que vamos percorrer as entrevistas e textos;
pensar nos pontos positivos e negativos dessa luta e deixar
algumas questões em aberto.
Rompendo o silêncio
Vilella[3]
ressalta que um grande avanço do movimento foi dar
visibilidade à violência contra a mulher que ocorre dentro
de nossa sociedade. As feministas não se cansaram de ir às
ruas, ir à mídia impressa ou televisiva com denúncias ou
campanhas, para denunciar esse fato que ocorria na sociedade
e ficava escondido. Quando concluímos que o problema ganhou
visibilidade, pode-se pensar em como a questão era
anteriormente escamoteada na sociedade. Antes do movimento
feminista levar a público essa discussão, a violência era
silenciada e tornava-se invisível. Fato semelhante à própria
violência, como levanta Chauí. Uma de nossas entrevistadas
contou como foi difícil a abertura do SOS-Mulher em São
Paulo. Enquanto as feministas trabalhavam arduamente para
iniciar um serviço e fazê-lo funcionar, a vizinhança
reclamava e grupos as ameaçavam e também ao serviço — entre
outros percalços. Ou seja, a sociedade não dava apoio algum.
A exposição de um problema tão complexo, ao mesmo tempo em
que exige e exigiu do movimento feminista muita
disponibilidade e energia, colocou à mostra uma ferida
social. Essa ferida tende a ser deixada de lado, pois mexer
nela provoca dor.
Ao dar visibilidade a esse quadro, o feminismo facilitou a
percepção pela sociedade de que as mulheres eram vítimas de
uma violência que as fazia sofrer. Mais ainda, possibilitou
que as mulheres pudessem reconhecer nessa situação seu
sofrimento, pois como diz Santos[4]
“perceber que adoecemos desse ou daquele jeito tem a ver com
o grupo social, racial e classe que se pertence”. E é o
grupo que legitima a nossa dor, nosso mal-estar. Não podemos
esquecer que o conceito de saúde e doença é construído
histórica e socialmente, é compartilhado e está intimamente
ligado à dinâmica social. A visibilidade foi uma ferramenta
importante nessa luta. Ou seja, a sociedade avalizou o
sofrimento das mulheres, e elas puderam perceber que
padeciam desse mal — a violência.
Depois que a sociedade foi despertada, a questão alcançou as
áreas política e acadêmica, passando a ser abordada em
diversas áreas. Leis, textos científicos e cursos foram
produzidos ao mesmo tempo em que agências públicas e
privadas iniciaram o financiamento de pesquisas sobre o
tema. Da mesma forma com que a violência silencia uma das
partes da relação, quando a questão passa a ser discutida
nos diversos âmbitos, ela sai do silêncio a que estava
confinada e ganha voz, assim como a mulher. Parece que a
sociedade também estava sofrendo calada uma violência. O
poder patriarcal silenciava a sociedade para que essa
denúncia não viesse à tona. Ao ultrapassar a esfera privada,
a violência se torna uma questão pública — ou seja, foi para
isso que as mulheres foram às ruas para denunciá-la. Essa
possibilidade de falar faz uma grande diferença na vida
psíquica das mulheres, pois a partir desse momento elas
ganham o olhar do outro.
Há o reconhecimento pelo outro do sofrimento das mulheres
com relação à questão da violência. Uma identificação
cruzada aconteceu — as mulheres que não sofrem violência se
identificam com as mulheres que sofrem violência, e as
vítimas se identificam com essa outra mulher que não se
submete. E assim o movimento traz ao palco das questões
sociais a questão da violência contra as mulheres e lhe dá
visibilidade. Isso possibilita às mulheres vítimas de
violência um lugar diferente para existir. Elas não precisam
mais ocupar o lugar de vítimas; podem almejar serem tratadas
de forma mais respeitosa por seus companheiros.
Só depois que um fato é nomeado, ou quando ele ganha
representação em termos psicanalíticos, é que podemos falar
dele e reconhecê-lo como produtor de sofrimento. Isto é, a
sociedade acolheu esse sofrimento das mulheres. O movimento
feminista lhe deu representação, chamando-o de violência.
Esse percurso foi necessário; depois de saber do que
sofremos, partimos para almejar saídas, planejá-las,
reivindicá-las. As mulheres atingidas pelo problema puderam
se ver como vítimas de violência, e esse reconhecimento lhes
ofereceu possibilidades de sair desse lugar. As feministas
puderam formular as demandas para os setores políticos e
conseqüentemente a academia incorporou essa temática e
começou a desenvolver um novo conhecimento.
O movimento feminista avançou então no sentido de dar
sustentação e apoio às mulheres em situação de violência, ou
seja, acolhê-las em sua queixa. Podemos até pensar na
nomeação da violência como um produto da sociedade. A
percepção dessa questão foi conquistada e não dada por
princípio, como poderia se supor. A sociologia nos mostra
como a mulher foi tratada ao longo da história: na
antiguidade clássica era vista como ser inferior, de segundo
escalão; depois foi considerada como aquela que é demasiada
suscetível aos sentimentos, tentada pela paixão, espreitada
pela loucura, e por isso não merecedora de um lugar de razão
dentro da família. No Brasil, não tinha direito ao voto até
a Constituição de 1934. É desse lugar de poder dos homens e
levando esse argumento às suas últimas conseqüências que as
mulheres podiam apanhar de seus maridos para ser corrigidas
— a violência era vista como fator educativo. Temos aí a
autorização da violência e do poder do homem sobre a mulher.
O sofrimento das mulheres não encontrava eco dentro da
sociedade, era uma queixa sem reverberação.
Sabemos que no século XX, a violência para a “educação” das
mulheres quase não é mais autorizada publicamente. Digo
“quase” pois ela continua existindo e sendo autorizada
algumas vezes. A autorização se utiliza da força, atribui às
mulheres um lugar passivo e assim silencia-as. Isso fica
claro em outra pesquisa, dessa vez realizada em 2002 pelo
Departamento de Medicina Preventiva e Grupo Violência e
Gênero, no universo de mulheres que havia respondido
afirmativamente, quando perguntadas se haviam sofrido algum
tipo de agressão ou abuso na vida adulta. Desse universo,
63,4% não percebeu a experiência como violenta. As
pesquisadoras enfatizam a distância que há entre a vivência
de um episódio agressivo, seja ele sexual, físico ou
emocional[5],
e a nomeação do mesmo como violência. Temos ainda que
considerar que muitas mulheres sentiam e ainda sentem
vergonha de dizer que estão sofrendo violência, pois há uma
ambivalência na percepção do fato: será um ato de amor?
Recente pesquisa realizada pelos Institutos Ibope e Patrícia
Galvão[6]
revela que 19% da população masculina brasileira admite que
há situações em que a agressão do homem contra sua mulher é
justificada; 16% dos(as) entrevistados(as) consegue imaginar
situações em que há essa possibilidade.
Violência contra a mulher ou violências contra a mulher?
Fazendo um levantamento da bibliografia sobre saúde mental e
violência, percebemos que a violência contra a mulher
costuma vir diluída entre as demais violências, ou então vem
na carona da violência doméstica. Por que não se especifica
sobre qual violência contra a mulher se está falando?
Pensando em termos psicanalíticos, podemos falar da
dificuldade de encontrarmos uma representação para ela. A
violência, como sabemos, é fruto das relações humanas. No
entanto, ela vem na contramão da salvaguarda da vida; vem na
corrente da destruição. Isso nos levaria a supor que é fácil
reconhecê-la. Mas esse modo de expressão da agressividade,
que assume uma forma tão violenta, gera dificuldade de
acesso ao registro das representações. Daí termos
dificuldade de falar sobre a violência.
De que violência estamos falando? Da violência doméstica, ou
da sexual? Ou ainda, do assédio moral ou sexual? Ou dos
incestos?
"eu
acho que há uma carência muito grande a nível de
investimentos mais cotidianos, mais sistemáticos nos
serviços e permeando tudo isto está a descontinuidade
que caracteriza o Brasil. Há uma necessidade também de
acompanhar novas formas de violência, de reconsiderar e
de resplender o conceito de violência, o que está
acontecendo hoje com o corpo das mulheres, isso merece
uma reflexão... o que significa hoje no Brasil essa
construção permanente do corpo..." J. Pitanguy em
entrevista concedida a Lenira Silveira em 20/06/2003.
Nos escritos sobre violência (não especificamente sobre
violência contra a mulher), podemos perceber como o conceito
abarca uma quantidade de diferentes violências: desde as
violências urbanas, passando pelas sociais, até as
domésticas[7]
[8].
No entanto, quando pedimos uma entrevista sobre violência
contra a mulher, nossas entrevistadas discorreram sobre a
violência doméstica, e na maioria das vezes nem resvalaram
na violência sexual, tampouco nos assédios. Notamos que há
quase uma equiparação entre violência contra as mulheres e
violência doméstica. No entanto há uma peculiaridade em cada
uma das violências[9],
que as coloca em conjuntos diferentes. Ao se falar em
violência contra as mulheres é necessário que se fale no
plural, pois as mulheres estão sujeitas a uma série de
violências. Grossi, no Seminário Nacional sobre Violência
contra Mulher de 1994, já levantou essa questão, ressaltando
a diversidade das questões de gênero, raça e etnia a que as
mulheres estão sujeitas:
“Considero, no entanto, que
para ampliar a luta contra a violência que as mulheres
sofrem, é necessário que se tenha em mente que não se pode
continuar denunciando a violência no singular, como se todas
as formas de agressão fossem percebidas e vivenciadas da
mesma forma por todas as mulheres brasileiras.”[10]
Grossi traz à tona a singularidade de ser mulher negra, ou
mulher pobre, ou mulher gorda, e muitos outros cruzamentos
no âmbito da experiência da violência. Nesses casos, além de
ser mulher, a vítima da violência está colada em algum
adjetivo que a torna mais vulnerável.
Além disso, alguns pontos devem ser levantados quando
fazemos essa constatação. Os 16 dias anuais de ativismo
anti-violência contra a mulher
propõem uma agenda recheada de temas que se entrelaçam pela
violência doméstica: a violência contra os direitos
reprodutivos que as mulheres sofrem de seus companheiros
violentos, a perda da produtividade no trabalho decorrente
da violência doméstica, e a prostituição infanto-juvenil
também como resultado desse tipo de violência. Muniz[11]
é enfática quando lembra os danos físicos e psíquicos
decorrentes do trabalho, vendo este como um local violento,
gerador de doenças. Este amálgama que se fez entre violência
contra a mulher e violência doméstica me leva a perguntar:
por quê? Essa identificação de violência contra as mulheres
e violência doméstica restringe a questão à relação
doméstica, retirando da discussão as relações sociais — como
a violência por gênero, por cor, ou por classe social que
recaem sobre as mulheres, junto com a violência doméstica.
Identificar a violência contra as mulheres com a violência
doméstica coloca a sociedade como estranha a essa questão,
que diria respeito a relações nas quais ela, sociedade, não
está implicada. É uma violência que tem um impacto social
grande; mas que, assim vista, fica confinada ao interior das
casas, e à relação marido-mulher. Não estou desconsiderando
da violência doméstica a questão de gênero - que por si só,
já traz a sociedade para dentro da violência. Mas, de certa
forma, a sociedade tenta se livrar da responsabilidade que
lhe cabe. Volta a tornar privado algo que tinha entrado para
o campo público. Todavia, as outras relações extradomésticas
também são perpetradoras de violência. Uma das
entrevistadas, falando sobre o início do SOS, relata esse
contínuo trabalho contra uma sociedade que não se vê como
parte do problema, e que luta incessantemente para colocar
essa questão longe de sua vista.
Já que a mulher
sofre múltiplas violências e elas se traduzem no cotidiano
das mulheres pela violência sexual e doméstica e pelos
assédios, algumas perguntas emergem: por que a violência
sexual fica num nicho fechado, como se todos soubessem da
sua existência, mas ninguém falasse? E o assédio moral, por
que ele passa quase despercebido? Será que ele é uma
violência menor, assim como o assédio sexual? E os incestos
praticados contras as meninas? Especulando podemos dizer que
são expressões muito agressivas da violência que paralisam a
sociedade; e ela não encontra representação para essa
expressão de agressividade. Os incestos são tão chocantes
que ficam fora das discussões de gênero, de poder e de
paternidade.
Será que se explicita menos a violência sexual por que ela
já ocupa um lugar no imaginário social? Ou porque ela está
ligada a um tema tabu — a sexualidade — e não deve ser
falada? Ou porque o conhecimento sobre a violência sexual já
faz parte do conhecimento técnico – há a norma técnica que
regulamenta os procedimentos que devem ser feitos, que fala
sobre o acolhimento da vítima — e o conhecimento técnico da
violência doméstica precisa ser construído?
E em relação aos assédios diz-se: “era apenas uma
brincadeira”, ou então “era um elogio, ela não entendeu”;
são desculpas que vêm na tentativa de naturalizar esse tipo
de violência. Outras vezes, a situação é invertida e as
mulheres são postas no lugar das “imbecis que não entendem
nada”, pois afinal, “lugar de mulher é na cozinha”.
Nenhuma das violências acontece sozinha, no seu estado puro.
Elas são um complexo violento. Por exemplo: mulheres que
sofrem violência doméstica relatam com freqüência já terem
tido relações sexuais forçadas. O estudo multipaíses da OMS
sobre Saúde da Mulher e Violência Doméstica conduzido aqui
no Brasil nos mostrou que em média 10% das mulheres sofreram
essas duas violências concomitantemente pelos seus parceiros[12].
Em termos de
saúde mental, há uma grande diferença entre escutar uma
mulher que sofre violência doméstica e escutar uma mulher
que sofreu violência sexual, ou assédio, ou incesto. Foi por
isso que ao longo desses 25 anos de luta, os serviços foram
se especializando em suas escutas.
Os
primeiros serviços: percebendo a necessidade de uma
atenção especial, as mulheres negras encontraram
acolhimento na Casa de Cultura da Mulher Negra, no
Geledés entre outros. Esses serviços mesclavam o
atendimento jurídico com o atendimento psicossocial,
pois era claro esse imbricamento das áreas. Com a
carência de serviços nesses moldes, as mulheres brancas
passaram a procurar essas instituições. Por isso, elas
foram modelos para outros serviços de atendimento
psicossocial. Muniz com seu trabalho no CEERT nos lembra
que “discriminação racial continuada em ambiente de
trabalho provoca o que temos chamado de dano psíquico[13]”,
e para minimizar esse sofrimento, atualmente faz
grupos-consenso. Muniz, E. – “Impacto das condições de
trabalho sobre a saúde das trabalhadoras e trabalhadores
negros: a igualdade de oportunidades no trabalho”.
Seminário de Saúde da População Negra do Instituto de
Saúde da CUT – 2000.
O movimento de
mulheres negras pôde perceber essa necessidade de oferecer
uma escuta especializada, e logo criou serviços para
responder a demandas específicas de violência contra
mulheres negras. Com esse olhar à saúde mental, outros
serviços foram se formando e se especializando.
O impacto
psíquico da violência doméstica é diferente do impacto da
violência sexual, e essa clareza é muito importante para o
profissional, quando está à frente de uma mulher vítima de
violência. As questões trazidas para o atendimento por uma
mulher vítima de violência doméstica são diferentes das
questões das vítimas de cada uma das violências, pois a
violência doméstica se estende por um período de tempo. Ela
se inicia, geralmente, com violências psicológicas, e no
decorrer do tempo as agressões vão aumentando. Há também a
proximidade com o agressor, que é objeto de amor e ódio, o
que dificulta o reconhecimento e a nomeação do fato como
violento[14].
Já na violência sexual, o episódio é marcado inclusive por
violências físicas.
A relação
da mulher com o agressor é diferente em cada uma das
violências; por exemplo, a violência sexual tem um caráter
mais pontual. A vítima, muitas vezes, não tem uma relação de
intimidade com o agressor. Ele está do lado de fora da casa;
enquanto na violência doméstica o agressor está dentro da
casa, goza de intimidade, e por isso tem um leque maior de
possibilidades de ação contra sua vítima.
Convenção de Belém do Pará - Artigo 2º
Entende-se que a violência contra a mulher abrange a
violência física, sexual e psicológica: a) ocorrida no
âmbito da família ou unidade doméstica ou em qualquer
relação interpessoal, que o agressor compartilhe, tenha
compartilhado ou não sua residência, incluindo-se entre
outras formas o estupro, maus-tratos e abuso sexual; b)
ocorrida na comunidade e cometida por qualquer pessoa,
que conspreende entre outros, violação, estupro, abuso
sexual, tortura, tráfico de mulheres, prostituição
forçada, seqüestro e assédio sexual no local de
trabalho, bem como em instituições educacionais,
serviços de saúde ou qualquer outro local; e c)
perpetrada ou tolerada pelo Estado ou seus agentes, onde
quer que ocorra.
Na violência sexual a invasão é da ordem da sexualidade,
apesar de haver muitos estupros dentro de relações amorosas
que caracterizariam uma relação mais duradoura. Cromberg
escreve
“que longo
caminho uma mulher percorre habitualmente para poder ser
mulher de um homem, um corpo a ser gozado por ele além de
gozar com isso e por si mesmo! Que longo caminho percorre
ainda para enxergar que um corpo a ser gozado no ato sexual
não é um corpo que deva se submeter masoquisticamente a ele
fora deste ato!” (Cromberg 2001, p.17).
Todo esse caminho
de conquistar a sexualidade é interrompido quando há uma
violência. É esse lugar - de quem pode, se quiser, oferecer
prazer ao outro - que é atingido. O corpo feminino é usado
para ser gozado como objeto, que deve se submeter
masoquisticamente ao outro, em que só um pode gozar. Não há
relação com o outro, é apenas o homem usufruindo o corpo
feminino. Assim, as questões referentes à sexualidade
remetem a esse ato de invasão da sexualidade.
A violência doméstica é um processo cíclico, e a mulher tem
dificuldade de reconhecer esse fato. Só o faz, na maioria
das vezes, após estar submetida à violência há algum tempo.
A mulher tem uma relação de intimidade com o agressor, ele
desfruta da sua confiança; sendo assim, o autor da agressão
está misturado com o objeto de amor. E é ao mesmo tempo
objeto de amor e ódio. A violência incide na relação com o
outro; ele usa de sua confiança e de sua intimidade nos
episódios de violência, e assim instaura o medo. A mulher
não sabe quando seu companheiro vai agredi-la. Na tentativa
de dominar a situação, ela se culpabiliza, achando que a
agressão foi desencadeada por isto ou aquilo que ela fez.
Assim, se deixar de ter esse comportamento a violência não
vai mais acontecer. Tal percepção errônea deve ser escutada
como uma defesa, decorrente da paranóia que se instaura na
vida cotidiana dessa mulher.
Fruto do patriarcado, a cisão entre o poder masculino e o
poder feminino é marcada novamente pelas violências que,
cada uma a seu modo, também acirram a cisão entre o bom e o
mau. É a essa peculiaridade que o profissional de saúde
mental deve estar atento[15].
O movimento feminista pôde escutar essas nuances e
proporcionar serviços e escutas específicos às mulheres
negras, às mulheres em situação de violência doméstica, às
mulheres vítimas da violência sexual e às mulheres
submetidas à violência no trabalho, entre outras.
As diferenças são tão marcantes que os serviços foram
montados com um olhar específico, privilegiando esse ou
outro aspecto da violência - o que os torna diferentes em
sua abordagem. Todos falam e tratam de violência contra a
mulher, mas cada uma dessas violências encontrou acolhimento
diferente. Os serviços são especializados nos diferentes
tipos de violência, uma vez que cada uma necessita de um
olhar diferente. Os serviços de violência doméstica têm a
preocupação de colocar mulheres no atendimento às mulheres;
já os serviços de violência sexual tem uma dinâmica
específica, pois há a necessidade de cuidados imediatos com
o corpo biológico da mulher, e os procedimentos junto à
Justiça são concomitantes. Enquanto a violência doméstica
passa pelo questionamento de gênero, a violência sexual se
relaciona a uma tradição ligada à patologia — a maior
preocupação é com a gravidez, com as infecções; o gênero vem
à tona só em segundo plano. Na norma técnica, o corpo
biológico é que está em foco, e existe uma padronização das
respostas a esse corpo que foi atingido: medicação para
prevenção de DSTs/ AIDS, perícia para detectar algum sinal
de identificação do agressor, Boletim de Ocorrência, e
acolhimento. Mas o que é esse acolhimento? Como dar suporte
a essa mulher? Como atender também ao sofrimento psíquico?
O serviço de atenção à mulher vítima de violência sexual do
Caism/ Unicamp propôs um protocolo de atendimento no qual
estão contempladas algumas questões como desorganização
psíquica, mecanismos de defesa presentes, crenças e valores
que fazem parte da vida da mulher e suporte afetivo, entre
outros[16].
As campanhas
Uma das
estratégias usadas para dar visibilidade à violência
doméstica foi a promoção de campanhas ao longo desses 25
anos. As mulheres foram à mídia para alertar outras mulheres
dessa violação dos direitos das mulheres. Foram usadas
frases como “Quem ama não mata”; “O silêncio é cúmplice da
violência”; “Pancada de amor dói”; “Um tapinha só dói”.
Essas campanhas
ajudaram a dar visibilidade à violência contra as mulheres e
também colocaram outro modelo de mulher: alguém que sabe que
não deve ser agredida, humilhada e maltratada pelos homens
Quando parte da sociedade não avaliza mais a violência e
sugere outros caminhos à mulher, esta começa a perceber que
não precisa mais se submeter à violência — ela não é natural
e nem um direito dos homens. Ao denunciarem a situação de
violência doméstica que tantas mulheres vivem, as campanhas
reduziram a gravidade da situação. Elas ajudaram as mulheres
a reconhecerem como problema a situação de violência que
viviam.
As frases usadas nos indicam que o foco das campanhas era as
mulheres. O objetivo era mostrar-lhes o problema, e fazê-las
identificarem essa situação ao seu redor. Esse
reconhecimento é importante, pois é ele que propicia o
questionamento e conseqüentemente a busca de ajuda. Foi por
isso que as mulheres puderam lutar pelo direito a uma vida
sem violência.
Percebe-se que o foco das campanhas era dar visibilidade ao
fato. A preocupação principal era mostrá-lo, torná-lo
público. As campanhas só lidaram com a prevenção em alguns
momentos. Sendo a violência um fato sobredeterminado, elas
priorizaram a visibilidade, deixando de lado outras questões
intrínsecas à questão, tais como: a relação de gênero, a
questão do poder patriarcal, a possibilidade de aprendizagem
de relacionamento com o diferente, o adiamento do prazer, o
respeito ao outro. As campanhas são voltadas às mulheres,
enunciando o problema, mas não atacam de forma incisiva a
relação de poder do homem sobre a mulher. Seria benéfico que
as campanhas mudassem seu foco, voltando-o para os homens.
A
grande questão é como minar o poder naturalizado de
violentar como parte intrínseca da natureza das relações
sexuais e afetivas. (...) Enfrentar a violência
doméstica, sexual e racial exige entender que, sem
demolir os padrões culturais que a sustentam, nos
limitaremos a cuidar de suas decorrências físicas e
psicológicas, isto é, da condição de seqüelas da
violência doméstica, que é a marca dos sobreviventes.
Fátima Oliveira – “Avaliando e elencando os desafios”.
In Anais do Seminário Nacional Violência contra a
Mulher Negra – Saúde, um Olhar da Mulher Negra. 19 a
23 de julho de 2003
Assim faz a campanha do laço branco, a qual chama os homens
para outro comportamento, questionando a violência. Com esse
mesmo enfoque, temos agora a campanha lançada pelo Instituto
Patrícia Galvão com o slogan “Onde tem Violência Todo Mundo
Perde”, na qual há o convite para os homens pensarem em sua
atitude frente à violência. Com uma campanha voltada para os
homens, elas discutiriam o conceito de masculinidade, de
poder, de gênero, pois em alguns casos, bater ainda faz
parte do código de macho; com isso, a violência ainda é
legítima[17].
Outro ponto no qual as campanhas avançaram pouco é o da
discussão da violência nas diversas áreas da vida em
sociedade; a violência como produto da economia, da saúde,
da justiça, da educação. Ou seja, a violência está calcada
na relação de subordinação de um em relação ao outro — nesse
caso, das mulheres em relação aos homens.
Para que atingíssemos a meta da prevenção, seria necessário
colocar os homens para discutir gênero, masculinidade,
paternidade, responsabilidade e proteção, amor. Ou seja, é
preciso atrair os homens para o movimento e não afastá-los.
Questionar esse lugar que eles ocupam, para que possam
construir outro.
Esses temas são discutidos nos grupos de agressores que
existem em alguns municípios — como Rio de Janeiro (RJ) e
São Gonçalo (RJ). Nessas cidades, os agressores devem
participar dos grupos de discussão como parte de suas penas
alternativas. Entretanto, os grupos de discussão não fazem
parte da sociedade como um todo. Se esse modelo está sendo
aplicado para os agressores, por que não motivar toda a
sociedade para esses questionamentos? Ou seja, já que a
violência é uma questão da sociedade, ela como um todo deve
ser engajada nessa luta, nessa discussão.
“ A
naturalização da desigualdade é o instrumento principal
para sua aceitação social, sua perpetuação e sua
incorporação em leis e práticas. Seus efeitos se
estendem a diversos campos, inclusive ao âmbito da
saúde. Pitanguy, P. Violência Doméstica e Serviços de
Saúde – Estratégias e Avanços. In Anais do Seminário
Nacional Violência contra a Mulher Negra – Saúde um
Olhar da Mulher Negra. 19 a 23 de julho de 2003
Os slogans quase
sempre se referem às mulheres, oferecendo outro lugar que não o
da vítima de violência. Com isso, atacamos as conseqüências da
violência. Mas o problema continua existindo: os homens
continuam ocupando o lugar de poder, da autoridade nas relações.
Será que nós mulheres, apesar de sabermos o que queremos, não
sabemos como pedir para esse diferente — o homem? Quando se
pensa em grupos de reflexão com os agressores, está-se pensando
em um processo de mudança, de questionamento da violência e dos
seus desdobramentos para a mulher e para os parentes próximos. O
objetivo é encontrar junto com os homens outros modos de
relacionamento, criar desvios e conter essa agressividade.
Trabalho árduo para os homens, que, por isso, deve ser oferecido
de modo acolhedor. Ou seja, é preciso responsabilizá-los sem
afastá-los do processo. Que outro tipo de relação é oferecida
aos homens para eles deixarem essa relação de poder? Como se
relacionar se não for pela força? Ao saírem desse lugar, eles
não sabem seduzir por si próprios; é como se não fossem
interessantes por si mesmos. A linguagem masculina é a do poder,
enquanto que a feminina é da sedução; o gênero feminino se
relaciona pela sedução das lágrimas ou pela sensualidade,
enquanto o gênero masculino se relaciona pelo poder, pela força.
Talvez colocando os meninos e meninas para discutirem essas
questões ainda na escola, possamos fazer a prevenção desde o
início. Já que o gênero e construído socialmente.
A prevenção está assentada também sobre mudanças de
comportamento, além da informação. E Villela diz que “a gente
previne bem quando faz vacina, mas ações de prevenção que
dependem de comportamento, a gente é frágil no campo da saúde”[18].
Convenção de Belém do Pará - Artigo 8º
Os
estados-parte comprometem-se a adotar, progressivamente,
medidas específicas, inclusive destinadas a: b) modificar os
padrões sociais e culturais de conduta de homens e mulheres,
inclusive a formulação de programas formais e não-formais
adequados a todos os níveis de processo educacional, a fim
de combater preconceitos e costumes e todas as outras
práticas baseadas na premissa da inferioridade ou
superioridade de qualquer dos gêneros ou nos papéis
estereotipados para o homens e a mulher, que legitimem ou
exacerbem a violência contra a mulher.
Fala-se em
desnaturalizar a violência, pois ela ainda faz parte de alguns
grupos; mas além disso é necessário desnaturalizar essa
dessimetria relacional que aponta para o homem mais forte e
poderoso, e a mulher fraca e necessariamente submissa ao poder
masculino, por um lado; cuidadosa e zelosa com a casa e com os
seus, por outro.
Silveira[19]
julga que conforme as mulheres estão deixando a posição
subalterna a violência vem aumentando. Em termos psíquicos,
poderíamos dizer que isso acontece quando ela toma a sexualidade
(usando o conceito psicanalítico dessa palavra) para si, e se
diz portadora de desejos. Desejos que começam por sair de casa,
ter amigas ou amigos, trabalhar, dividir tarefas e
responsabilidades do lar. A mutilação dos genitais das mulheres
nigerianas, dentre outras, é um exemplo muito simbólico de como
se rouba ou esvazia a sexualidade do outro – no caso, a mulher
-, pois ela é poderosa. Somente os homens podem ter desejos; às
mulheres é vetado o acesso a esse direito.
Nesse mesmo veio, Francisquetti diz que “a intolerância teria a
ver não com as diferenças, mas com a diminuição, o apagamento
das diferenças, com a indiscriminação”[20].
Entendo aqui que a autora se refere às mulheres que começam a
ocupar um lugar “parecido” com o do gênero masculino: que saem
de casa, que têm amigos, que trabalham fora de casa, ganham
salário e dividem as despesas domésticas. Essas mulheres assumem
um comportamento voltado para o externo, típico do gênero
masculino, ao invés de ficarem voltadas para o interno, para a
casa, para a família, para si mesma: ou seja, ao invés de
reproduzirem o estereótipo do feminino.
Falo de lugar “parecido” ao dos homens porque esse modelo foi
construído socialmente. Os homens saem de casa e as mulheres
cuidam do lar. As relações masculinas são voltadas para o
externo, enquanto as relações femininas estão concentradas no
interno. Keijzer, referindo-se a Bourdieu e Freire, lembra como
a sociedade está estruturada em sistemas binários: homem-mulher,
passivo-ativo, racional-emocional. A contraposição foi
sustentada até mesmo dentro da saúde mental — doença-saúde,
normalidade-loucura[21].
O homem por si só não basta, uma vez que a mulher começa a
mostrar a necessidade de outras relações. Nesse momento o homem
deixa de ser onipotente e tem que lidar com sua impotência, suas
faltas. Quando as relações têm igualdade, os homens têm que
conquistar as mulheres no dia-a-dia; eles não as possuem. Ou
seja, o mundo alarga seus contornos. O mundo oferece outras
relações. As mulheres não pertencem mais aos homens, mas estão
com eles porque querem; dessa forma eles podem perdê-las a
qualquer momento.
Nesse caminho da sustentação da igualdade, a mulher também deve
se apropriar daquilo que tem, assim como o homem das suas
faltas. De que adianta um pênis se não há uma vagina para
acolhê-lo? Quer dizer que a mulher tem um buraco, o que é
diferente de achar que não tem nada. Birmam nos coloca que “esta
feminilidade se identifica ao desamparo crucial que todos nós
devemos obrigatoriamente atravessar na experiência
psicanalítica, para nos afastar das miragens fálicas”[22].
Pode-se perceber que essa é uma mudança fundamental no
entendimento de algumas questões da saúde mental, pois muitas
vezes as mulheres chegam ao serviço referindo-se à falta como
algo negativo — “eu não tenho nada, não posso nada”. Aí, o
trabalho inicial é no sentido de mostrar o que ela tem; e
posteriormente passar para a percepção de que há uma falta sim,
mas que pode ser preenchida. Antes, seus desejos eram os de seu
companheiro; mas agora ela pode ter os seus próprios.
Interessante notar que fala-se em promover a auto-estima da
mulher vítima de violência doméstica, mas o que vem a ser isso?
Como tantas palavras do campo da saúde mental, ela caiu no senso
comum e perdeu um pouco o valor para os profissionais. Hoje
fala-se em “empoderamento” - que pode ser traduzido como o
processo de devolver às mulheres sua capacidade de se cuidar, de
se sustentar, de suprir suas necessidades. Empoderamento seria
ter alternativas próprias para sair do lugar subalterno que o
patriarcado construiu para as mulheres; e também para sair da
loucura que uma situação de violência cria. Ou seja, o trabalho
de empoderamento é fazer com que as mulheres reconheçam seu
potencial e vivam para além de seu companheiro, sustentando suas
necessidades emocionais, físicas e econômicas.
Vítima ou cúmplice
Outro ponto que não pode deixar de ser apontado é a questão da
nomeação da mulher: inicialmente quando se falava em violência
contra as mulheres, ela era referida como vítima; posteriormente
passou-se a nomeá-la “mulher em situação de violência”. Por que
mudar a nomenclatura? Que impacto isso causa para as pessoas
envolvidas? No princípio da luta, colocar a mulher como vítima
abriu essa questão para a sociedade, mobilizando-a a questionar
e perceber a dimensão dessa situação. É o reconhecimento da
sociedade do lugar de submissão da mulher em relação aos homens.
Foi a partir desse ponto que o feminismo conseguiu afetar a
sociedade, e esta pôde construir um lugar para a violência.
Contudo, a condição de vítima pode ser paralisante, pois para
sair dessa condição a mulher depende de um outro/ a; quando a
mulher é referida como estando em situação de violência, ela
está em outra condição, ou seja, ela acessa um lugar de
passagem, pois é um sujeito nessa relação. Estar em uma situação
oferece a possibilidade da mudança. Há uma mobilidade intrínseca
nessa condição; a mulher pode tomar decisões, outros rumos. Se
ficássemos com a denominação de vítima, ficaríamos na mesma
condição da mulher: paralisados nesse olhar e assim, correríamos
o risco de entrar no assistencialismo. Seria uma situação em que
a instituição faria os movimentos pela mulher. É
responsabilidade da sociedade oferecer recursos para essa mulher
sair dessa situação; mas os movimentos são dela, fato que os
primeiros centros de atendimentos faziam questão de deixar
claro. Era uma marca do SOS de São Paulo questionar o lugar da
mulher nessa relação. A sociedade precisa escutar quais são as
necessidades dessa pessoa, e saber, afinal, do que ela precisa.
Talvez a mulher precise se apropriar dessa situação de
submissão, na qual o homem decidia por ela, e então tomar
consciência de seus recursos psíquicos, e desmisturar-se desse
homem; pois só assim é possível deixá-lo, e escolher seu próprio
caminho. Desmisturar-se significa readequar-se, ter consciência
de seus desejos, de seu potencial, da sua vida, sair da sombra
de seu companheiro e escolher seu próprio caminho.
Entretanto, nos diversos serviços visitados, os/as profissionais
ainda se referem às mulheres como vítimas. Isto nos leva a duas
observações: primeiro, que enquanto nos referimos às mulheres
como vítimas estamos falando da dimensão da violação dos
direitos da mulher que a violência instaura. Não podemos deixar
que essa aresta se perca no horizonte da discussão; pelo
contrário, ela deve sempre estar em evidência. E também as
mulheres têm que se reconhecer vítimas, para perceberem o quanto
estavam à margem de suas vidas, deixando que lhe roubassem sua
vivacidade, seu potencial. Depois disso, elas podem pensar no
que estava lhes acontecendo (o ciclo da violência).
Odília vem à instituição
buscar ajuda depois de sofrer uma agressão de seu terceiro
companheiro. Já tinha sofrido outras agressões
anteriormente, mas achava que era por ciúmes. Enquanto
estava em atendimento trabalhava como corretora de imóveis e
pudemos perceber como ela se colocava em uma situação de
submissão também com seus chefes. Ela usava da sedução para
achar que eles a protegiam, mas na verdade eles usavam do
poder masculino para fazê-la submissa. Odília tinha que
perceber que poderia se relacionar diferentemente com os
homens para que não fosse mais agredida, subjugada,
humilhada.
O próximo passo para essas mulheres é começar a questionar essa
relação, considerar que estavam em situação de violência e sair
desse lugar. Essa passagem só é possível quando os/as
profissionais também fazem essa mudança no olhar. Ou seja, eles
devem acolher a mulher que é vítima, deixar que ela deposite em
si todas as suas esperanças, para depois voltar essa
responsabilidade para a própria mulher. Muitas vezes, a
sociedade fica sabendo que a mulher faz a denúncia contra seu
marido nas DDMs e depois a retira. Essa fala do imaginário
social vem mostrar que as mulheres precisam do reconhecimento da
agressão — quando a delegada intima o marido é porque ele deve
alguma justificativa, a mulher não está louca —, pois assim é
possível sair da loucura implícita na violência. É a situação de
inferioridade, de medo, de fragilidade que elas vêm escancarar,
pedindo socorro.
Ao falar da mulher em situação de violência, como já foi dito
acima, aponta-se para a questão da mulher como sujeito dessa
relação e como tal participando da situação. Esse modo de olhar
devolve a ela, mulher, a força, suas possibilidades, seu poder
de decisão com relação à sua vida. No entanto não podemos deixar
que esse modo de se referir à mulher engula a diferença de poder
que a violência traz, responsabilizando homens e mulheres
igualmente. Quando se fala de violência, há uma diferença
intrínseca na relação homem/ mulher, idéia apontada por Chauí na
definição que estamos usando e que Saffioti[23]
marca incessantemente quando discute a questão do patriarcado.
Outro perigo dessa denominação é a de culpabilizar as mulheres.
Quando colocamos a mulher implicada na relação, temos mais um
elemento para analisar a dinâmica do fato, o que é diferente da
culpabilização. Podemos com isso pensar na polaridade da própria
situação: a impotência da mulher versus sua onipotência
de controlar a situação: sair quando quiser, não ficar à mercê
do outro em momento algum. A culpabilização é uma projeção da
culpa dos próprios profissionais que não conseguirem ajudá-la,
tanto pela falta de recursos para oferecer a essa mulher, como
pela relação de amor e ódio que ela estabelece com o agressor. A
idéia de que “ele não é assim, ele estava nervoso” ecoa no
imaginário das mulheres em situação de violência; é o período da
lua-de-mel teorizado no ciclo da violência iluminando a relação.
A culpabilização vem denunciar a raiva que os próprios
profissionais sentem frente a essa situação cindida que a mulher
traz com relação ao parceiro - e que para os profissionais é
difícil de trabalhar, uma vez que eles devem integrar as duas
partes. Na cisão, os profissionais ficam com o lado ruim do
homem, enquanto a mulher fica com o lado bom dele.
Isso tudo acontece porque quando colocamos a mulher como
participando da situação de violência, temos uma dinâmica a ser
analisada. Temos que nos perguntar qual era seu prazer: estar
submissa ao desejo do outro? perder o controle da situação? ou o
estado de ansiedade permanente por dividir a intimidade com
alguém violento? Qual é o prazer que essa relação suscita?
Essa dupla denominação da mulher - em situação de violência e
vítima - possibilitou uma análise mais dinâmica. O importante é
poder transitar de um lugar a outro ao escutar essa mulher.
Assim, essa mudança indica simbolicamente outra forma de
mobilidade e não a cristalização em uma ou outra posição. Cada
mulher, e ainda a mesma mulher, se apresenta de forma diferente
nos diversos momentos; por isso é necessário escutá-la com
cuidado. O cuidado está em escutar e traduzir seus desejos e não
solucionar a situação para a mulher, na atitude assistencialista
de ajudar a vítima. Muitas vezes, o profissional, percebendo a
fragilidade da mulher, toma a situação para si e tenta
resolvê-la. Mas o tempo de espera é importante para a elaboração
e transformação daquela situação pela mulher.
Outra reflexão necessária é sobre o sentimento da própria
profissional, em geral mulher. Ela (a profissional) algumas
vezes se sente imobilizada frente a essa situação, pois lhe cabe
oferecer um espaço de mobilidade no qual esta mulher possa
reconstruir seus vínculos, sua confiança, seus sonhos, em uma
sociedade que tem pouco a ofertar nesse sentido. A sociedade
ainda carece de recursos tais como creches e escolas para as
crianças, moradia, programas de geração de renda, emprego, entre
outros. Como construir um espaço para sonhar, ou proporcionar
saúde mental, se essa mulher não tem um local seguro para dormir
com os filhos? Ou como ter saúde mental, se a mulher não tem
lugar para deixar seus filhos enquanto trabalha? Portella, ao
analisar as políticas, denuncia essa dificuldade que encontra o
profissional ao atender uma mulher em situação de violência. Ela
escreve que
“São poucas as ações realmente
eficazes nas áreas de profissionalização e geração de emprego e
renda para as mulheres em situação de violência, assim como na
oferta de equipamentos sociais e na formação de redes
institucionalizadas de solidariedade”[24].
Essa paralisia que a
profissional sente coloca-a numa situação similar à da mulher —
ela tem poucos recursos para lhe oferecer, de forma similar à
situação da mulher que se sente sem recursos para sair dessa
relação.
Quem cuida de quem cuida
Além das profissionais não conseguirem oferecer muitos recursos,
percebemos que o cuidado com a profissional que cuida também é
precário. É unânime dentro dos serviços a percepção que o
trabalho com a violência mobiliza muitas angústias na
profissional – sua impotência, seus limites – assim como
questiona suas crenças, seus valores, suas relações de prazer; e
por tudo isso é importante o trabalho de supervisão, para
questionar a relação que se estabelece entre a mulher e a
profissional, apontar outros caminhos, dar outra visão.
Entretanto, a grande maioria dos serviços não tem essa prática
regular. Grande parte das instituições tem reuniões técnicas[25]
que tentam preencher essa lacuna, numa tentativa de minimizar
esse problema. Essas reuniões têm uma dupla função, como
observamos nas visitas e foi apontado pelas nossas
entrevistadas: o monitoramento do trabalho e a discussão de
casos.
Essa fissura que há entre a necessidade de supervisão e sua
operacionalização é percebida pelos serviços, mas é engolida
pela demanda do próprio trabalho. Quase sempre a falta de
supervisão é justificada pela falta de recursos e de tempo: há
muito trabalho e não há dinheiro para essa atividade. As
instituições, na sua maioria, relatam que nas reuniões técnicas
são discutidos problemas do cotidiano assim como se discutem
casos clínicos, ou seja, tudo fica no mesmo plano, as questões
são equiparadas pela urgência; não há diferença entre as
necessidades.
“uma situação de violência é uma
situação que envolve várias problemáticas: questões lógicas,
legais e nós achamos que seria importante ter uma equipe que
pudesse atender a mulher e contribuir com ela, nestas várias
vertentes. (...) E naquela época (da implantação da casa Eliane
de Grammont) nós trabalhávamos em equipe, numa perspectiva
multidisciplinar, que não era só cada profissional no seu
pedaço, tinham discussões como equipe inteira, sobre várias
questões.”[26]
Essa fala vem reforçar a percepção de que a discussão está mais
voltada para um atendimento multidisciplinar e para uma
discussão de equipe do que para a supervisão. Entretanto, como a
carência de supervisão é grande, poder dividir com os colegas as
angústias de um atendimento é considerado como se fosse uma
supervisão, e esse espaço ganha tal status. A falta de
supervisão sugere um olhar superficial para enfrentar uma
situação que mobiliza internamente as profissionais. É uma
tentativa de fazer curativo sem cuidar do ferimento.
A situação de violência deve ser pensada/escutada na sua
tridimensionalidade – a mulher, a profissional e o outro. O
outro é tanto o homem agressor como qualquer outro que venha na
história. Quando a figura da supervisora é chamada para o
trabalho, o terceiro entra concretamente na relação. O
não-oferecimento de supervisão pelos serviços pode ser entendido
como uma tentativa de excluir esse terceiro - que viria
questionar o atendimento, romper a dualidade mulher violentada/
mulher técnica. Ou seja, as instituições estão se privando do
contato com o externo, com o novo, da abertura para outras
possibilidades; e portanto, do crescimento que seria um
atendimento mais criativo. Sem recorrer à supervisão, a
instituição se fecha, se basta, da mesma forma que o homem que
não permitia que a mulher saísse de casa, conhecesse outras
possibilidades, trouxesse novos pensamentos, e rompesse a
relação simbiótica com ele. Podemos perceber que os serviços
ficam identificados com a própria situação em que atuam — eles
se colocam no lugar do(a) outro(a) a bom(boa), onipotente e
provedor(a). Repete-se a falta de liberdade para outros objetos
de prazer, para outras escolhas.
Se tomarmos o ciclo da violência como paradigma para analisarmos
essa questão do fechamento da instituição nela mesma, concluímos
que as instituições oferecem o momento da lua-de-mel. A
lua-de-mel é o momento em que tudo é bom, não há problemas –
um(a) está misturado(a) ao desejo do(a) outro(a), é uma relação
binária mãe-bebê. Não podemos esquecer que esse momento no ciclo
da violência, assim como na vida em geral, é algo artificial,
postiço. Oferece-se outro modelo de relacionamento, cheio de
promessas de mudança, mas sem questionar o antigo. É nesse
sentido que o chamo de artificial, pois não houve transformação;
apenas colocou-se uma relação-prótese no lugar.
Muitas vezes a assistência projeta uma ilusão de que existe um
lugar perfeito, onde todas as lacunas foram tampadas, e não
haverá conflitos como os que eram vivenciados na relação com o
companheiro. Uma das dificuldades de deixar a relação com o
agressor é assumir as perdas. Algumas vezes, na identificação
com a mulher (aqui, vítima) os serviços tentam excluir essa
idéia. A supervisão poderia denunciar essa manobra. Enfim, há
uma estratégia de eliminação do conflito.
Outra forma de não trabalhar com o conflito é ter apenas
mulheres cuidando de mulheres. Como já foi apontado, ao falarmos
das campanhas, quando os homens não são trazidos para a relação,
pára o questionamento, elimina-se a contradição. São mulheres
pensando com outras mulheres estratégias e caminhos para
construir uma dinâmica entre mulheres e homens. Por que não
temos homens para dialogar nesse cuidado com as mulheres? Talvez
se um homem reconhecer o sofrimento da mulher como verdadeiro,
possa ajudá-la no processo de sair da loucura em que muitas
mulheres entram, dizendo “mas ele é tão bom...” Como poderemos
construir outro lugar para as mulheres junto com os homens,
colocando em xeque esse lugar de poder que eles ocupam? Essas
questões têm que ser feitas para eles e com eles. Ou seja, abrir
para o terceiro é poder olhar outras searas: é acolher as
profissionais e empoderá-las para o atendimento, assim como se
faz com as mulheres.
Conclusão
Um balanço do enfrentamento da violência contra as mulheres nos
aponta como principal acerto a visibilidade que o movimento
feminista conseguiu dar a esse fato; ou seja, o feminismo rompeu
o silêncio que a violência impõe a um dos lados. A partir daí
esse acontecimento apareceu na mídia: jornais e revistas
começaram a dar destaque ao fato, e ele passou a ser discutido
por toda a sociedade.
Para a saúde mental, dar voz ao sofrimento possibilita pensar
sobre ele; nas suas causas, conseqüências, abrangência e
ramificações. Com isso a violência foi ganhando contornos mais
claros, e foi possível perceber como ela tem várias facetas: a
agressão física, a psicológica, a moral. Mais ainda, as mulheres
negras puderam cruzar a questão racial com a de gênero, criando
serviços específicos para essa demanda.
Sendo a violência um fato real e não loucura de algumas mulheres
(feministas e mulheres vítimas) fizeram-se campanhas, as quais
propunham a denúncia como caminho primordial de enfrentamento.
As campanhas ofereceram outro modelo de mulher — uma mulher que
não se submete à violência do companheiro — e começaram a
desnaturalizar e desautorizar a violência pelo homem.
Esse balanço mostra como os homens não foram alvo das campanhas.
Uma campanha voltada ao público masculino é o Laço Branco, na
qual o foco são os homens, questionando a violência
protagonizada por eles. Percebendo-se a necessidade de outras
campanhas voltadas a esse público, outra campanha está sendo
lançada: “Onde tem Violência Todo Mundo Perde”.
Todo esse percurso fez com a sociedade lançasse outro olhar para
as mulheres: a questão do gênero entrou na academia, na
política, na vida pública. A sociedade se mobilizou para
oferecer algumas respostas às mulheres que sofrem violência.
Como estamos fazendo uma análise do enfrentamento, pode-se dizer
que além da criação dos serviços ser simbolicamente uma
possibilidade, ela oferece à mulher a probabilidade concreta de
sair da situação em que ela vive.
Um lado ficou descoberto nessa luta: o cuidado às profissionais.
Ele é entendido como parte importante do trabalho, uma vez que a
violência é um sintoma complexo da sociedade. Mas esse cuidado é
deixado de lado em grande parte dos serviços. Por falta de tempo
e dinheiro, a tarefa da supervisão se mistura a outras tarefas
do dia-a-dia. Pode-se entender esse fato como rejeição da
entrada do terceiro na relação. Da mesma forma que o homem não
deixa sua companheira ter relações fora de casa, pois isso
representa uma ameaça ao poder dele, os serviços não dão
abertura para o questionamento que a supervisão poderia trazer e
assim não há mudança: há a repetição dos serviços.
*
psicóloga, mestre em psicologia clínica pela PUCSP. Faz
parte da equipe do CFSS desde 2000.
[1] Ferreira Hollanda, A. B. –
verbete: balanço. In Novo Dicionário da Língua
Portuguesa. RJ, Editora Nova Fronteira, 1996.
[2] Chauí, M., “Participando do debate
sobre mulher e violência”, in Cardoso, R. et al.,
Perspectivas antropológicas da mulher. RJ, Zahar
Editora, p. 35.
[3] Em entrevista concedida a Simone
Diniz em 22/ 8/ 2003.
[4] Santos, S. M. – “Violência contra
a mulher e racismo”. Seminário sobre violência contra as
mulheres. Santos, 1999.
[5] Schraiber, L.; D’Oliveira, A.F. et
al. – “Violência vivida: a dor que não tem nome”.
Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v. 6, no
10. SP, fevereiro de 2003, p. 41-54.
[6] O que pensa a sociedade sobre a
violência contra as mulheres. Pesquisa realizada
pelo Instituto Patrícia Galvão com o Ibope em outubro de
2004.
[7] Sandler, P.C. (org.) – Leituras
Psicanalíticas da Vilência. SP, Casa do Psicólogo,
2004.
[8] Marin, I. da S. K. –
Violências. SP, Editora Escuta/ Fapesp, 2002.
[9] Sandler, P. C.
(org.) – op. cit.
[10] Grossi, M. – Comunicação
proferida no painel “Violência de gênero – uma abordagem
antropológica”. Seminário Nacional Violência contra a
Mulher. SP, 1994.
[11] Muniz, E. – Entrevista concedida
a mim em 2 de dezembro de 2004, na qual aborda as
doenças que provocam afastamento do trabalho das
merendeiras.
[12] Estudo Multipaíses da OMS
sobre Saúde da Mulher e Violência Doméstica,
coordenado pelo Departamento de Medicina Preventiva da
Faculdade de Medicina da USP, sob responsabilidade de
Lilia B. Schraiber e Ana Flávia P. L. D’Oliveira.
[13] Muniz, E. – “Impacto das
condições de trabalho sobre a saúde das trabalhadoras e
trabalhadores negros: a igualdade de oportunidades no
trabalho”. Seminário de saúde da população negra do
Instituto de Saúde da CUT – 2000.
[14] Em pesquisa realizada num serviço
de atenção primária da rede de saúde de São Paulo,
Schraiber e colaboradores percebem que 55,6% das
mulheres entrevistadas relata já ter sofrido algum tipo
de humilhação, ou ter sido maltratadas ou agredidas por
alguém próximo. No entanto, apenas 27% diz ter sofrido
violência. Os autores da pesquisa discutem essa
disparidade entre os dados. Muitas agressões não são
nomeadas como violentas; elas têm diversos outros nomes.
Schraiber, L. et al – “Violência vivida: a dor que não
tem nome”. Interface – Comunicação, Saúde e Educação,
v. 6, pp. 41-54, fev. 2003.
[15] Grossi, M. P. & Adelman, M. –
“Entre a Psicanálise e a Teoria Política; um diálogo com
Jane Flex”. Revista Estudos Feministas, v. 10, no
2, Florianópolis, 2002.
[16]
http://www.ipas.org.br/rhamas/vitimas.html. Sendo
essa uma intervenção especializada, os serviços têm se
dedicado a sistematizá-los. Assim, em 2005 a Fumec- SCH
lançou um livro com uma porposta de intervenção: Couto,
S. M. A. – Violência Doméstica – uma nova intervenção
terapêutica. BH: Autêntica Ed./SCH Fumec. 20005.
[17] Pesquisa do IPG (www.patriciagalvao.org.br)
mostra que 16% dos entrevistados acha que há situações
em que o homem pode agredir sua mulher, e 63% acha que o
ciúme propicia agressão. 2002, p. 7.
[18] Villela, W. - fazendo um balanço
dos 25 anos de luta do feminismo contra a violência
contra a mulher, em entrevista concedida a Simone Diniz
em 22/8/03.
[19] Silveira, L. P. – Entrevista
sobre seu trabalho com mulheres vítimas de violência,
concedida a mim em 2 de dezembro de 2004.
[20] Francisquetti, P. P. S. N. –
“Saúde mental e violência”. In Saúde das Mulheres:
experiência e prática do Coletivo Feminista Sexualidade
e Saúde. São Paulo. Coletivo Feminista Sexualidade e
Saúde e Fundação MacArthur. 2000, p. 130.
[21] Keijzer, B. de – “Sexualidade e
socialização masculina: cuidem de suas galinhas que meu
galo está solto”. In Homens: tempos, práticas e
vozes. Série Olhares de Gênero. 2004, p. 41.
[22] Birman, J. – Por uma
estilística da existência. São Paulo, Editora 34, p.
48.
[23] Saffioti, H. I. B. – “Já se mete
a colher em briga de marido e mulher”. São Paulo:
Perspectiva, Dezembro de 1999, v. 13, no
4, p. 82-91.
[24] Portella, A. P. – Violência
contra as mulheres – Um breve contexto e algumas
questões políticas. Texto apresentado na XI Reunião
Nacional da Associação de
Mulheres Brasileiras – Brasília, 2004.
[26] Francisquetti, P. – fazendo um
balanço dos 25 anos de luta do feminismo contra
violência contra a mulher, em entrevista concedida a mim
em julho/ 2003.
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