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25 anos de luta contra a violência contra as mulheres
no Brasil - Alcances e limites
1. Antecedentes
O movimento de mulheres que re-emerge na década de
60 teve o mérito de introduzir na agenda política
questões que estavam antes restritas à esfera
supostamente despolitizada e neutra da vida privada, trazendo
para o debate público temas como a sexualidade e o
corpo feminino. O movimento denuncia o papel de controle e
tutela sobre as mulheres exercido por instituições
como as religiões, a família, a medicina e o
estado, e propõe novas relações sociais,
baseadas na eqüidade entre homens e mulheres.
Ao final da década de 70, a violência contra
a mulher passa a ser um dos temas priorizados pelo movimento.
No Brasil, como resposta a uma sucessão de assassinatos
de mulheres por seus parceiros e/ou ex-parceiros "em
defesa da honra", as feministas lançam o lema
"Quem ama não mata". O tema ganha visibilidade
com manifestações de rua e espaço na
mídia. Em outubro de 1980 é criado em São
Paulo o primeiro grupo de combate à violência
contra a mulher, o SOS Mulher, e a ele se seguem outras iniciativas
não-governamentais.
Em 1985 é criada a primeira Delegacia da Mulher (SP)
e muitas são implantadas em outros estados brasileiros.
Em 1990, já eram mais de duzentas em todo o país.
Na década de 90 surgem outras respostas institucionais
à violência contra a mulher, entre elas os centros
de atenção integrada (como a Casa Eliane de
Grammont, fundada em 1990), e os abrigos para mulheres em
risco de vida.
A demanda feita pelo feminismo de que o Estado, por meio
de suas políticas sociais incorporasse as reivindicações
e perspectivas das mulheres, foi a uma das frentes de trabalho
escolhida pelo movimento. Nesta direção, muitas
foram as ocasiões em que as próprias feministas,
como profissionais, assumissem cargos públicos e contribuíssem
para a construção dessas políticas.
Também na última década, os estudos
das mulheres/estudos feministas e de gênero ganharam
legitimidade nas universidades e centros de pesquisa. Esses
estudos instauram um esforço de interlocução
com virtualmente todas as áreas do conhecimento científico,
criando publicações e encontros próprios.
Entre esses temas está o da violência, que motivou
uma produção considerável de pesquisas
e trabalhos acadêmicos em várias regiões
do país.
O setor saúde também articula sua resposta,
com o surgimento de programas de treinamento e pesquisa na
interface entre violência de gênero e saúde
já na primeira metade da década de 90, como
componente de uma assistência integral. Uma das frentes
é a garantia de assistência à saúde
(inclusive ao aborto legal) da mulher que sofreu violência
sexual. A relação entre as mulheres e o setor
saúde é problematizada, evidenciando a violência
institucional de gênero nesse setor.
Mais recentemente, a adoção por parte dos governos
nacional, estaduais e municipais do modelo de assistência
de saúde da família, traz um conjunto novo de
questões sobre como lidar com a promoção
dos direitos das mulheres em geral, e no campo da saúde
coletiva em especial. Como as questões de gênero
serão incorporadas pelas equipes? Que treinamento específico
terão para lidar com os conflitos familiares? Que concepção
de família permeará o trabalho? Qual o lugar
do homem nessas políticas?
Há também um crescimento desproporcional entre
as respostas dos vários setores sociais, com respostas
mais rápidas e elaboradas vindas do setor saúde
(ainda que raramente avaliadas em seus resultados finais),
e as respostas dos setores jurídico e de assistência
social. A resposta policial e a criação das
delegacias da mulher, embora seja um avanço considerável,
em geral é insuficiente para ajudar as mulheres a superar
a situação violenta.
Com a criação do Juizado Especial Criminal,
em obediência a Lei 9099/95, o delito da violência
contra as mulheres em geral acaba ficando sem sanção
reparatória, sendo banalizado pelo pagamento de uma
cesta básica - além de manter a primariedade
do agressor. Ainda que o Juizado tenha seus méritos,
nesse caso é reconhecido como um retrocesso para as
mulheres. Nos casos de separação, questões
de guarda de filhos ou de patrimônio, o acesso das mulheres
mais pobres à informação e acompanhamento
jurídico é limitada ou quase ausente. Poucos
são os programas sociais, entre eles os de fortalecimento
pessoal, de geração e acesso à renda
ou de moradia, destinados a atender prioritariamente as mulheres
que enfrentam a violência - mesmo aquelas que estão
em abrigos.
Em termo dos movimentos da sociedade civil organizada, esse
crescimento desproporcional também pode ser evidenciado
pelo desenvolvimento e institucionalização da
Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos,
e o virtual desaparecimento da Rede Contra a Violência,
sua contemporânea de criação no início
da década de 90.
Todo esse esforço no Brasil completará em breve
um quarto de século de luta contra a violência
contra a mulher, com um considerável número
de respostas, menos ou mais bem sucedidas, em várias
esferas da vida pública. Partimos do reconhecimento
da importância e da legitimidade conquistadas nesse
esforço coletivo. Tanto no setor governamental quanto
em ONGs, muitas respostas criativas serviram de exemplo e
inspiração mesmo para outros países.
Porém essas iniciativas são raramente avaliadas
de forma sistemática. Há reconhecidamente uma
carência de estudos que sistematize as evidências
da efetividade e da segurança dessas respostas.
Os programas que lidam com transformações culturais,
como os de violência de gênero e os de saúde
sexual e reprodutiva, sofrem de dificuldades semelhantes quando
de sua avaliação. Na falta de indicadores diretos
na avaliação dos resultados, e dada uma certa
indefinição teórica no campo, se buscam
formas alternativas de avaliação da eficácia
dos programas, com ênfase na quantificação
de ações, tendendo a um certo "fetichismo
numerológico", referido aos volumes demonstráveis,
como por exemplo o número de consultas realizadas,
recursos distribuídos ou de atividades educativas feitas.
Sabemos pouco sobre qual o resultado final, concreto, dessas
políticas na vida das mulheres sujeitas à violência,
em termos de sua segurança, bem-estar e satisfação
com a ajuda recebida. Para além dessa dimensão
individual, as políticas contribuíram para diminuir
essa violência como fenômeno coletivo? Há
um aumento da violência contra a mulher, ou apenas de
sua visibilidade?
Quais as lições aprendidas nesses anos? Quais
as experiências consideradas bem-sucedidas, e por quais
parâmetros? Precisamos mapear o que sabemos e o que
não sabemos sobre o efeito dessas políticas,
e também nos perguntar o que consideramos como 'evidência'
desses resultados.
2. Objetivos:
Fazer um balanço dos 25 anos de luta contra a violência
contra a mulher no Brasil, e dos alcances e limites das respostas
políticas desenvolvidas
2.1. Fazer um levantamento do conjunto de respostas
à violência contra a mulher nesses 25 anos, incluindo,
quando pertinente, os estudos de avaliação sobre:
- O papel da incorporação pela academia e
pelo aparelho formador;
- as Delegacias de Defesa da Mulher;
- as respostas do setor saúde;
- as respostas do setor jurídico;
- as políticas públicas de assistência
social às mulheres vítimas
- as respostas dirigidas aos homens
2.2. Consolidar as avaliações em andamento
e propor uma agenda de pesquisa e intervenção
capaz de avançar na identificação e implementação
das políticas mais efetivas e promissoras.
3. Cronograma e etapas do trabalho
Etapas, algumas das quais podem ser simultâneas:
- Realização inicial de uma oficina de planejamento
do trabalho, com a equipe do projeto (uma pesquisadora principal,
duas colaboradoras e eventuais consultore/as), para refinar
os papéis, tarefas, resultados e prazos do projeto.
- Levantamento e revisão da bibliografia sobre os
temas das respostas à violência contra a mulher/
violência de gênero no Brasil nas últimas
duas décadas.
- Entrevistas com informantes-chave sobre os temas. Levantamento
de um conjunto mínimo de "atrizes sociais"
envolvidas com a reflexão e o ativismo na área
de violência de gênero. Elaboração
de um roteiro de entrevistas, diferenciado conforme a entrevistada.
- Fazer visitas a instituições e serviços
que estejam envolvidos com os temas em pauta, para conhecer
seus limites e alcances, e entrevistar os seus agentes/atrizes,
em locais selecionados no Brasil.
- Levantar as experiências de avaliação
dos projetos, incluindo seus processos e indicadores desenvolvidos.
- Promover encontros para a apresentação de
trabalhos de avaliação no campo de violência
de gênero.
- Disponibilizar em formato eletrônico o material
da pesquisa (textos produzidos, documentos principais encontrados;
recursos para a avaliação; contatos e referências),
a partir do website www.mulheres.org.br
- Escrever o relatório final do trabalho, assim como
uma versão publicável na forma de livro e
no de website.
- Desenvolver um banco de dados de serviços nacional,
on-line, incluindo os serviços que oferecem treinamento,
supervisão e avaliação em violência
contra a mulher.
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