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A violência contra as
mulheres como questão de saúde no Brasil
Simone G. Diniz
Na última década tivemos
uma ampliação da visibilidade da violência de gênero como problema
de saúde pública, com uma aceleração do desenvolvimento de respostas
do setor saúde e de pesquisas no campo, com seus alcances e limites.
Se consideramos as primeiras iniciativas informais criadas ainda na
década de oitenta, podemos dizer que no Brasil temos quase 20 anos
de desenvolvimento de respostas e políticas na interface da
violência com a saúde. A seguir, apresentamos um mapeamento
exploratório da produção de evidências (Sullivan, 2001; NHS,
2004.) sobre a magnitude da violência de gênero e de seus impactos
sobre a saúde, da criação de respostas institucionais frente às
várias formas de violência, e algumas das questões em aberto para o
debate neste campo.
Esse texto é um capítulo da
pesquisa “25 anos de respostas brasileiras em violência contra a
mulher”, desenvolvida pelo Coletivo Feminista de Sexualidade e
Saúde, com o apoio da Fundação Ford. Para a elaboração deste
trabalho, fizemos entrevistas semi-estruturadas com
informantes-chave do movimento de mulheres, pesquisadoras, e pessoas
envolvidas com serviços e com a formulação de políticas, em todas as
regiões do Brasil. Foi também feita análise de documentos
institucionais, relatórios de pesquisa e publicações do movimento de
mulheres. No decorrer do trabalho, desenvolvemos um banco de dados
de serviços, que também foi utilizado como fonte de informações.
A definição de um tema como
objeto de trabalho em saúde, a aceitação de sua respeitabilidade e
magnitude, assim como a disponibilidade de recursos humanos e
materiais para a produção de evidências empíricas e desenvolvimentos
conceituais, são questões fundamentalmente políticas. No caso da
violência de gênero, dependeram (e ainda dependem, embora o campo já
tenha conquistado considerável "sustentabilidade"), de um movimento
social que pressione por mudanças, e que desenvolva alianças com
serviços e com as instituições produtoras de conhecimento. Depende
também da correlação de forças local, nacional e mesmo
internacional, do desenvolvimento de redes de pesquisa e de
intercâmbio acadêmico, como veremos.
Introdução: breve nota
histórica
Desde o início da "segunda
onda" do feminismo, a partir da década de 60-70, o movimento
internacional de mulheres teve a violência doméstica e a saúde como
temas centrais na sua agenda. Porém o entendimento das relações
entre a violência sofrida pelas mulheres e sua saúde não foi óbvio
nem automático, uma vez que havia um silêncio, uma ausência de
discurso sobre o tema. Os grupos de mulheres que abordavam um tema
ou outro na maioria das vezes não eram os mesmos. A interlocução
entre essas formas de ativismo foi aos poucos se desenvolvendo nas
alianças que surgiram como a criação de serviços pelo movimentos de
mulheres, na década de setenta (BWHBC, 2005). No Brasil, o
surgimento de um movimento de mulheres contra a violência com os SOS
Mulher na década de 80, inspiram políticas públicas como as
Delegacias da Mulher, marcando um momento de definitiva
visibilização do problema.
Desde meados da década de
oitenta, os grupos feministas que tinham a saúde como sua prioridade
já eram mobilizados para atender os casos de violência, em que
estivessem envolvidas questões de saúde, identificadas por outros
grupos de mulheres ou referidas pelas recém-criadas Delegacias da
Mulher. Estas demandas podiam incluir desde aspectos de saúde
emocional até questões como contracepção de emergência ou tratamento
de DSTs, exigindo novos conhecimentos e a articulação com outros
serviços.
Muitos serviços,
profissionais e pessoas de nossas redes informais de contatos nos
referiam casos das mais diversas formas de violência, por se tratar
de um serviço que, embora sem qualquer especialização para lidar com
o tema, poderia oferecer apoio e solidariedade para aquela mulher,
para além da ajuda concreta em acessar os poucos recursos então
disponíveis
(CFSS, 1999).
Isto contribuiu para chamar
a atenção sobre a complexidade das relações entre saúde e violência
e a conseqüente necessidade de uma abordagem interdisciplinar do
problema. Este processo levou a uma aproximação dos dois campos de
militância e para o desenvolvimento de formas de atendimento até
então inexistentes (CFSS, 1999).
Nos governos municipais
progressistas eleitos em 1988 surgem várias políticas
"experimentais" na interface entre violência e saúde, influenciados
pela entrada de feministas nestes governos (1. Macaulay, 2006). Um
exemplo dessas experimentações é a criação dos primeiros programas
de atenção à mulher vítima de violência em Centros de Saúde em São
Paulo a partir de 1989, na gestão da prefeita Luíza Erundina, com
uma importante ênfase na saúde mental dessas mulheres. Neste mesmo
governo, surgem também iniciativas como a do Programa de Aborto
Legal para as mulheres que sofreram violência sexual em 1989. Esta
iniciativa já tinha sido proposto anos antes no Rio de Janeiro,
porém inviabilizado por pressões da Igreja Católica (Teles, 2003).
Em março de 1990, uma
parceria entre a Coordenadoria Especial da Mulher de São Paulo e a
Secretaria de Saúde viabilizou a abertura da Casa Eliane de Grammont,
um centro de referência público para o atendimento interdisciplinar
em violência. Este serviço contou com a participação de feministas,
algumas vindas do SOS Mulher de São Paulo, numa relação estreita e
muitas vezes contraditória entre ativismo e criação de serviços e
políticas. Em 1990, um Seminário Municipal chamado "Violência - É
possível viver sem ela?" reúne representantes daquele governo e da
sociedade civil para discutir estratégias inter-setoriais (nas áreas
de educação, segurança, planejamento urbano, transportes, lazer,
entre outros). Neste seminário são explorados projetos voltados para
a violência contra as mulheres nas instituições de saúde, e o
atendimento da violência doméstica e sexual nesses serviços,
propondo um programa municipal amplo de enfrentamento intersetorial.
Outras iniciativas surgem em vários governos municipais
progressistas, do PT como de outros partidos (Macaulay, 2006),
compondo uma rede informal de ativistas. Além da criação de
políticas, estas iniciativas inspiraram pesquisas sobre a violência
em serviço. Mesmo que fora do âmbito acadêmico, estas ações
inauguram um mapeamento das muitas expressões da violência, sua
invisibilidade e suas potenciais respostas pelos serviços de saúde
(Souza, 1992).
No Encontro Feminista
Latinoamericano e do Caribe que se realiza em San Bernardo, na
Argentina em 1990, acontecem reuniões dos grupos que trabalham na
interface entre saúde e violência na região. No ano seguinte,
acontece o I Instituto Global Violência e Direitos Humanos nos EUA,
com participantes dos cinco continentes e que teve como um dos
grupos de trabalho a interface da violência a saúde e a sexualidade.
O grupo discute estratégias de ação internacional sobre
violência e saúde, tais como a documentação e o combate da violência
de gênero cometidas nas instituições de saúde, o treinamento dos
profissionais para reconhecer, referir e lidar com os casos de
violência, a criação de parcerias com universidades para promover a
pesquisa e o ensino em violência de gênero, o convencimento de
instituições como a OMS de que a violência de gênero é uma questão
de saúde pública e a promoção das ações decorrentes desse
reconhecimento, entre outras estratégias (CWGL, 1992)
[2].
Em Viena no ano de 1993,
durante a Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, o movimento de
mulheres levantou a bandeira de luta "Os Direitos das Mulheres
também são Direitos Humanos". Conquistou assim avanços
significativos com a inclusão na Declaração e Programa de Ação de
Viena de que "os direitos humanos das mulheres e das meninas são
inalienáveis e constituem parte integral dos direitos humanos
universais". (Ref. Texto 5 mulheres) Esta declaração, como parte
de uma ampla coalizão internacional de movimentos de mulheres,
teriam um impacto importante nas formulações das interfaces sobre
saúde, violência e direitos humanos que viriam a ser reforçadas nas
Convenção de Belém do Pará (1994), e nas Conferências de População e
Desenvolvimento (Cairo, 1994) e Mulher e Desenvolvimento (Pequim,
1995).
A organização Pan-americana
de Saúde (OPAS) em 1993, no documento da 49º Assembléia da
Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece que a violência contra
a mulher é um problema de saúde pública, publicando o estudo
intitulado “A violência contra as mulheres e as meninas: análises e
propostas dentro da perspectiva da saúde pública”.
O Programa de Ação
resultante da Conferência do Cairo (1994), incorpora explicitamente
a questão da violência e seu impacto na saúde: em seu Capítulo V (A
família, suas funções, direitos, composição e estrutura) propõe que
a política social deve ser orientada de forma a apoiar as famílias
vulneráveis, entre estas: “(...) onde ocorram abusos contra as
crianças e violência doméstica”. Em seu Capítulo VII (Direitos
reprodutivos e saúde reprodutiva), afirma o direito de “tomar
decisões sobre a reprodução livres de toda discriminação, coação e
violência”.
A Convenção de Belém do
Pará (Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a
Violência contra a Mulher), foi adotada pela Assembléia Geral da
Organização dos Estados Americanos em 6 de junho de 1994 e
ratificada pelo Brasil em 27 de novembro de 1995. No Brasil, essa
Convenção tem força de lei interna, conforme o disposto no § 2º do
artigo 5º da Constituição Federal vigente. A Convenção, embora não
lide especificamente com a saúde, define a violência contra a mulher
como "qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause
morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher",
tanto no âmbito público como no privado. Conclama os Estados-parte a
treinarem os profissionais de suas instituições para responder ao
problema da violência, e deixa claro que as violações dos direitos
das mulheres incluem aquelas cometidas por quaisquer instituições,
nomeadamente as de saúde, no seu Capítulo 1, art. 2º. (Ref.
mulheres)
No Brasil como em outros
países, as organizações não-governamentais tiveram um papel
pioneiro, e em parceria com universidades e serviços, desenvolveram
programas de treinamento de profissionais de saúde para a
identificação, manejo e referência dos casos. Um exemplo dessa
parceria é foi o Programa "Saúde Violência e Direitos Humanos -
Novas Questões para a Saúde". Desenvolvido pela parceria entre o
Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde (que atendia os casos de
violência referidos pelas Delegacias desde a década de 80) e o
Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo, no
período de 1993 a 2002. Além dos treinamentos básico e avançado (com
áreas de concentração em saúde reprodutiva e saúde mental), esse
programa desenvolveu pesquisas sobre tecnologia assistencial,
estratégias de referência e contra-referência, violência de gênero
na assistência e outras, além de publicaru várias edições de um
guia de serviços que atendem violência na cidade de São Paulo e
depois da Grande São Paulo, cartilhas sobre como atender os casos,
prevenir a violência na assistência, e um site com todo o material
dos cursos e pesquisas, o
www.mulheres.org.br.
O projeto foi uma referência para várias outras iniciativas.
Uma publicação
especialmente importante para a consolidação das interfaces entre
saúde e violência foi o Manual "Improving the Health Care Response
to Domestic Violence", do Fundo de Prevenção da Violência Doméstica.
Publicada em 1995, já continha revisões bibliográficas extensas
sobre a identificação, manejo, segurança, referência dos casos pelo
setor saúde, incluindo o que fazer com os agressores. Este manual
reforça cinco princípios para uma resposta do setor saúde, que
permanecem atuais: a prioridade da segurança das mulheres e seus
filhos; o respeito às suas escolhas de vida; a responsabilização dos
agressores; a defesa dos direitos das mulheres e seus filhos; e o
compromisso em implementar mudanças no setor saúde para uma
desenvolver uma resposta apropriada (FVPF, 1995).
No 8º Encontro
Internacional Mulher e Saúde, realizado no Rio de Janeiro, em 1997,
ocorrem workshops sobre o tema com a participação de ativistas dos
vários continentes. É aprovada a Declaração do Glória, que inclui
entre as suas recomendações que:
"A violência de gênero deve
ser reconhecida como uma questão de saúde pública com efeitos
negativos sobre a saúde física e mental e o bem-estar das mulheres.
·
É urgente que se façam pesquisas para identificar e
avaliar os impactos negativos da violência de gênero na saúde das
mulheres.
·
Os profissionais de saúde devem ser sensibilizados e
capacitados quanto ao diagnóstico da violência doméstica nos
sistemas de saúde pública.
·
Devem ser criados mecanismos legais de garantia de
direitos humanos, em nível nacional e internacional, visando
prevenir e erradicar a violência de gênero."
Na direção apontada por
essas recomendações, se multiplicam as iniciativas colaborativas na
década de 90 no Brasil, muitas das quais de parcerias entre ONGs
feministas com serviços públicos e/ou universidades. A União de
Mulheres de São Paulo inicia em 1996 com Hospital Pérola Byington um
projeto para implantação do Serviço de Atendimento aos Casos de
Violência Doméstica no hospital, que já atendia casos de violência
sexual. Em Minas Gerais, é feito o “Protocolo: considerações e
orientações para atendimento à mulher em situação de violência na
rede pública de saúde”, elaborado em 1998 pelo Grupo de Trabalho “A
violência contra a mulher é também uma questão de saúde pública”.
Este GT foi organizado pelo MPM (Movimento Popular da Mulher) e
Nzinga – Coletivo de Mulheres Negras, ambos de Belo Horizonte, Minas
Gerais, sob a orientação da Regional Minas Gerais da Rede Feminista
de Saúde. Também é criado o projeto Violência Contra a Mulher –
PROVIM, implantado na emergência do HUAP (Hospital Universitário
Antônio Pedro), da Universidade Federal Fluminense, Niterói/RJ, em
funcionamento desde 1998.
O movimento de mulheres
negras teve um papel destacado no desenvolvimento desta interface.
Em 1999, a Casa de Cultura da Mulher Negra desenvolve iniciativas
como a Campanha “Violência Contra a Mulher: uma questão de saúde
pública”; com seminários com profissionais de saúde; o II Encontro
Nacional de Entidades Populares (em conjunto com a União de Mulheres
de São Paulo) para debater o tema da violência contra a mulher; e o
Seminário Nacional “Saúde, Mulher e Violência intrafamiliar”, com a
participação de dezenas de grupos trabalhando com a violência na
área de saúde. (Ref. CCMN)
Consolidando o
reconhecimento oficial do tema, em abril de 1999 é criada a Câmara
Temática sobre Violência Sexual e Doméstica do Ministério da Saúde.
Esta teve entre seus objetivos a implantação e a implementação da
Norma Técnica “Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da
Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes” e a análise de
experiências como o “Protocolo”, para sua viabilização enquanto
norma técnica do Ministério (ref.).
No Brasil, a Rede Nacional
Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos teve a violência contra a
mulher como um dos seus temas principais, tendo organizado um Dossiê
e dois números de sua Revista sobre as relações entre violência e
saúde, além de um dossiê sobre humanização do parto, que aborda a
violência institucional naquela forma de assistência ( Redesaúde,
site).
Pode-se dizer que essas
iniciativas foram relativamente bem-sucedidas, pois o tema foi
incorporada como “questão” no campo da saúde, em especial naquela
área que se convenciona chamar a “Saúde Coletiva”. O acúmulo
conceitual do feminismo foi resultado de uma já tradicional
“infiltração” de feministas tanto no papel de formuladoras de
políticas quanto na academia, propiciando uma interfecundação entre
ativismo político, criação de serviços e produção de conhecimento.
Esta interfecundação foi acelerada pela criação do Grupo de Trabalho
de Gênero da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde
Coletiva (ABRASCO), já em 1995. Na área de ginecologia e
obstetrícia, vários profissionais assumiram as questões trazidas
pelo movimento de mulheres e aos poucos o tema da violência foi se
institucionalizando nos Congressos da especialidade, assim como na
FEBRASGO, que em 1997 criou uma “Comissão Nacional Especializada em
Violência. Sexual e Aborto Previsto na Lei” (Faúndes, 2004).
Na formulação de políticas
de saúde e no processo de reforma setorial posterior à criação do
SUS em 1988, em muitas situações os movimentos sociais - como o
movimento feminista pela saúde e o movimento que impulsionou a
chamada “resposta brasileira ao HIV” – tiveram uma papel primordial
na construção do SUS.
Em várias
situações, as instituições governamentais e os pesquisadores tiveram
que aprender com a “militância” e traduzir as lições aprendidas para
uma ótica científica, a fim de produzir evidências que
re-alimentassem a formulação de políticas. Esses profissionais se
transformaram então em “pesquisadores militantes” ou “militantes
pesquisadores”, conseguindo viabilizar investimentos financeiros,
nacionais e internacionais e que continua até hoje
. O adensamento dessa produção científica levou à busca de
estratégias para aperfeiçoamento teórico-metodológico, que culminou
na formulação do Programa Inter-institucional de Treinamento em
Metodologia de Pesquisa sobre Gênero, Sexualidade e SSR a partir de
1996, de alcance nacional,
que contribuiu para dar ainda mais consistência à criação de
políticas de saúde que, ao mesmo tempo, expandissem os direitos da
cidadania e reforçassem a construção e o alcance do SUS.
Desta forma, enquanto
mundialmente o debate sobre a reforma do setor saúde era francamente
desfavorável às propostas universalistas e de sistemas nacionais de
saúde, preconizando-se a focalização, a seletividade e a exclusão,
ou seja a restrição de direitos, nas áreas da luta feminista e da
luta contra a epidemia de HIV/AIDS as coalizões internacionais foram
francamente favoráveis à inclusão e à expansão de direitos.
As políticas de violência na interface com a saúde da mulher, com
seus alcances e limites, são exemplos dessa dinâmica: na contra-mão
da redução do Estado, foram criadas novas demandas e novos serviços
de saúde.
1. A produção de evidências
sobre magnitude da violência contra as mulheres
Os dados sobre violência
utilizados nas pesquisas brasileiras são em sua maioria "baseados em
serviços", ou seja, são dados secundários, produzidos por aquelas
instituições nas quais as mulheres buscam ajuda. Estas são
principalmente as Delegacias da Mulher, e também os Centros de
Referência, os abrigos e serviços de saúde, além das informações
provenientes do judiciário.
Esses dados
baseados-em-serviços têm várias limitações: em termos da informação
em saúde, não há senão excepcionalmente uma busca ativa de violência
pelos serviços; não há uma padronização de registro quando há
perguntas sobre violência; mesmo quando a violência é referida, nem
sempre é registrada. Um estudo recente mostrou que o reconhecimento
e registro "espontâneo" da violência é extremamente baixo (Schraiber,
2003). Vários estudos sobre prevalência das diversas formas de
violência em serviços de atenção primária ou de emergência, em
várias capitais brasileiras, mostram altas prevalências e a
predominância de agressores familiares da vítima (Deslandes, 2000;
Moraes, 2002; Schraiber et. al, 2002; Silva, 2003; Menezes, 2003). O
maior desses estudos (Schraiber, 2003), com 3193 usuárias de 19
serviços públicos em São Paulo mostrou que 55% das mulheres
relatavam que já haviam sofrido violência física ou sexual por algum
agressor alguma vez na vida, e entre as que algum dia foram unidas,
52,8% delas relataram violência psicológica, 40,4% relatavam
violência física e 21% violência sexual. Considerando a superposição
dessas formas de violência na vida dessas mulheres, um total de
61,1% relatava ter sofrido alguma forma de violência na vida.
Estudo feito por Meniccuci
e colaboradores (2005), em cerca de 8.600 prontuários médicos de
mulheres vítimas de violência sexual mostrou que, entre as que foram
ao serviço de saúde por causa da violência, em somente 10%
dos casos houve registro na polícia. Foram analisados prontuários de
mulheres atendidas entre 1998 e 2003 em três centros de referência
da capital: o Hospital Pérola Byington, o Hospital Jabaquara e a
Casa da Saúde da Mulher Professor Domingos Deláscio, ligada ao
Hospital São Paulo. Também foram feitas entrevistas com vítimas e
profissionais que atuavam nessas unidades. Segundo o estudo, 16% das
mulheres violentadas contraem alguma doença sexualmente
transmissível, e todas disseram que não aceitariam uma gravidez
resultante do estupro (Meniccuci e cols., 2005).
Como esses dados refletem
apenas a realidade das mulheres que procuram estes serviços,
seriam a "ponta do iceberg'" em termos da real magnitude do
problema, melhor abordada em estudos de base populacional
No Brasil temos dois
estudos de base populacional, ambos divulgados em 2001: o da
Fundação Perseu Abramo (FPA), e o Estudo Multipaíses da Organização
Mundial da Saúde sobre Saúde da Mulher e Violência Doméstica.
A pesquisa “Universo das
mulheres brasileiras” incluiu os temas saúde, trabalho, sexualidade,
violência, educação, trabalho doméstico, cultura política e lazer, e
foi realizada pelo Núcleo de Opinião Pública da Fundação Perseu
Abramo. O estudo consistiu na aplicação de questionário estruturado,
através de entrevistas pessoais e domiciliares a 2.502 mulheres de
15 anos ou mais, estratificadas em cotas de idade e em área urbana e
rural., distribuídas geograficamente em 187 municípios de 24 estados
das cinco macroregiões do pais. Os resultados obtidos referentes à
questão da violência mostram que cerca de uma em cada cinco
brasileiras (19%) declara espontaneamente ter sofrido algum tipo de
violência por parte de algum homem: 16% relatam casos de violência
física, 2% citam alguma violência psíquica e 1% relata assédio
sexual.
Estimuladas pela citação de
diferentes formas de agressão, o índice de violência de homens
contra mulheres ultrapassa o dobro do índice das respostas
espontâneas, alcançando a marca de 43%. Um terço das mulheres (33%)
admite já ter sido vítima, em algum momento de sua vida, de alguma
forma de violência física (24% de ameaças com armas ao cerceamento
do direito de ir e vir, de 22% de agressões propriamente ditas e 13%
de estupro conjugal); 27% sofreram violências psíquicas e 11%
afirmam já ter sofrido assédio sexual. Um pouco mais da metade das
mulheres brasileiras declara nunca ter sofrido qualquer tipo de
violência por parte de algum homem (57%).
As formas de violência mais
comuns relatadas são a agressão física mais branda, sob a forma de
tapas e empurrões, sofrida por 20% das mulheres; a violência
psíquica de xingamentos, com ofensa à conduta moral da mulher,
vivida por 18%, e a ameaça através de coisas quebradas, roupas
rasgadas, objetos atirados e outras formas indiretas de agressão,
vivida por 15%. Espancamento com cortes, marcas ou fraturas já
ocorreu com 11% das mulheres, mesma taxa de ocorrência de relações
sexuais forçadas (em sua maioria, o estupro conjugal, inexistente na
legislação penal brasileira), de assédios sexuais (10% dos quais
envolvendo abuso de poder), e críticas sistemáticas à atuação como
mãe (18%, considerando-se apenas as mulheres que têm ou tiveram
filhos)
Quando projetamos a taxa do
referido espancamento com cortes, marcas ou fraturas (11%) para o
universo investigado (61,5 milhões) indica que pelo menos 6,8
milhões, dentre as brasileiras vivas, já foram espancadas ao menos
uma vez.
Se consideramos que entre
as que admitiram ter sido espancadas, 31% declararam que a última
vez em que isso ocorreu foi no período dos 12 meses anteriores, e
projetamos esse dado para a população brasileira, cerca de, no
mínimo, 2,1 milhões de mulheres espancadas por ano no país (ou em
2001, pois não se sabe se estariam aumentando ou diminuindo), 175
mil/mês, 5,8 mil/dia, 243/hora ou 4/minuto – uma a cada 15
segundos.
Como principal agressor são
citados marido ou parceiro, variando entre 53% (ameaça à integridade
física com armas) e 70% (quebradeira) das ocorrências de violência
em qualquer das modalidades investigadas, excetuando-se o assédio.
Outros agressores comumente citados são o ex-marido, o
ex-companheiro e o ex-namorado, que somados ao marido ou parceiro
constituem sólida maioria em todos os casos.
O pedido de ajuda perante
ameaças de espancamento à própria mulher ou aos filhos; tapas e
empurrões e xingamentos e agressões verbais ocorre em pouco menos da
metade dos casos (46%, 44% e 43%, respectivamente). Mais da
metade das mulheres não pede ajuda. Somente em casos
considerados mais graves como ameaças com armas de fogo e
espancamento com marcas, cortes ou fraturas, pouco mais da metade
das vítimas (55% e 53%, respectivamente) recorrem a alguém para
ajudá-las. Cerca de pouco mais de um terço das mulheres pediram
ajuda quando vítimas de impedimento de sair, sendo trancadas em
casa; quebra-quebra em casa; assédio sexual e críticas sistemáticas
à atuação como mãe. Nas demais situações de violência o pedido de
ajuda é inferior a 30%. Em todos os casos de violência, o pedido de
ajuda recai principalmente sobre outra mulher da família da vítima –
mãe ou irmã, ou a alguma amiga próxima.
São bem mais raros os casos
de denúncia pública, ocorrendo principalmente diante de ameaça à
integridade física por armas de fogo (31%), espancamento com marcas,
fraturas ou cortes (21%) e ameaças de espancamento à própria mulher
ou aos filhos (19%). Como vimos no estudo de Meniccuci e cols,
apenas uma em cada dez vítimas de violência sexual que recorre a
um serviço por causa da violência a denuncia à polícia. (Meniccuci,
2005)
Confirmando dados de outras
pesquisas, o ciúme desponta como a principal causa aparente da
violência, assim como o alcoolismo ou estar alcoolizado no momento
da agressão (mencionadas por 21%, ambas). Essas razões se destacam,
em respostas espontâneas sobre o que acreditam ter causado a
violência sofrida, superando em larga escala as demais menções.
Além do estudo da FPA,
temos o Estudo Multi-países da Organização Mundial da Saúde sobre
Saúde da Mulher e Violência Doméstica. Trata-se a mais ampla
pesquisa já conduzida no Brasil sobre violência doméstica e suas
repercussões na saúde da mulher. Foram visitados 4.299 domicílios na
cidade de São Paulo (SP) e na Zona da Mata, em Pernambuco, e
entrevistadas 2.645 mulheres de 15 a 49 anos. O estudo foi conduzido
pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo, em parceria com duas organizações da
sociedade civil: Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, de São
Paulo, e SOS Corpo – Gênero e Cidadania, de Pernambuco. A pesquisa
foi realizada simultaneamente em 8 países, sob a coordenação da OMS
(Organização Mundial da Saúde). Em todos esses estudos foram
pesquisadas uma grande cidade e uma região de características
rurais.(REF completa)
O estudo permitiu a
produção de evidências detalhadas, apresentando estimativas
confiáveis acerca da prevalência da violência (física, sexual e
psicológica) contra mulheres e meninas e dos fatores de risco e
proteção, contribuindo para tornar visível este fenômeno. São
apontadas ainda as conseqüências dessa violência para a saúde das
mulheres e como elas têm enfrentado este problema.
A prevalência de violência
do parceiro contra as mulheres é maior em Pernambuco do que em São
Paulo, assim como naquele estado também foi maior a ocorrência de
violência nos 12 meses anteriores à realização da pesquisa. Enquanto
25,8% das mulheres de São Paulo relataram ter sofrido violência
física ao menos uma vez na vida, entre as pernambucanas este
percentual foi de 32%. No que se refere à violência sexual, a
diferença é maior: 9,6% entre as paulistas e 14,6 entre as
pernambucanas. A prevalência de violência física ou sexual ao menos
uma vez na vida foi de 27,9% em São Paulo e 35,3% em Pernambuco.
Quando consideramos os últimos 12 meses, os percentuais são de 25,7%
e 31,7% respectivamente para os dois estados, o que indica que, além
de mais freqüente, uma porcentagem maior da violência entre as
mulheres pernambucanas é recente.
Essa pesquisa utilizou o
recurso às "carinhas" para estudar subnotificação de violência -
pediu para que as mulheres escolherem uma cartela com uma carinha
feliz se de fato não houve agressão ou triste, se houve mas ela
preferiu ou não conseguiu falar sobre a violência sofrida. Essa
técnica mostrou que perto de um terço das mulheres não conseguira
relatar o fato, escolhendo a carinha triste. Esse é um achado muito
importante da pesquisa, que também treinou suas entrevistadoras para
uma escuta sensível e para a referência dos casos identificados que
se dispusessem a procurar ajuda (Ref. Lilia Congresso Curitiba).
A violência sexual isolada
não é comum em nenhum dos dois sites, sendo minoria dos casos. O
mais freqüente são episódios de violência física exclusiva, seguidos
de perto por casos de violência física e sexual. Consideramos que
isto se deva a que o que é considerado pelas mulheres "violência
sexual pelo parceiro". É bastante provável que não tenham sido
relatadas como violência as relações sexuais forçadas ou indesejadas
pelas mulheres, no interior do casamento pelo fato de que comumente
são consideradas como “dever conjugal”, não cabendo, portanto, na
definição de violência, já que, além disso, na maior parte das vezes
não envolvem ameaças ou agressões físicas. Ou seja, é
provável que as mulheres tenham relatado como violência sexual quase
exclusivamente os episódios que envolveram também violência física
também. Este dado é concordante com o encontrado por Grossi
e Teixeira (2000).
Entre as mulheres que
sofreram violência ao menos uma vez na vida, 90,9% das pernambucanas
já engravidaram, contra 82,5% das paulistas; 11,3 % das
pernambucanas e 7,7% das paulistas sofreram violência durante a
gravidez. Destas, 40,2% das pernambucanas e 26% das paulistas foram
agredidas diretamente na barriga, o que repete o quadro de piores
resultados para as mulheres pernambucanas. Na quase totalidade dos
casos (97,3% em SP e 97,9% em PE) o agressor era o pai da criança.
Na metade dos casos, para os dois estados, as mulheres já haviam
sido agredidas pela mesma pessoa, ou seja, não era a primeira
agressão, o que significa que em metade dos casos a primeira
agressão foi durante a gravidez.
A violência piorou durante
a gravidez para em torno um quarto dos casos ou mais: Entre as
paulistas, 28% piorou durante a gravidez; entre as pernambucanas,
esta proporção é de 24,9%.
No que se refere à
violência física perpetrada por outras pessoas, que não o parceiro
íntimo, a situação se inverte quando comparamos os estados de
Pernambuco e São Paulo. Neste último, há mais mulheres (20,8%) que
foram agredidas por outro tipo de agressor do que em Pernambuco
(12,6%). Do mesmo modo, também em SP, este tipo de agressão acontece
com mais freqüência: 33% das paulistas foram agredidas mais de cinco
vezes, contra 22,9% das pernambucanas. Também nos casos de violência
sexual perpetrada por outras pessoas se mantém a diferença entre as
duas amostras: 4,7% das pernambucanas sofreram violência sexual
antes dos 15 anos contra 7,6% das paulistas, das quais 12,8% das
primeiras e 18,3% das segundas foram abusadas mais de cinco vezes.
Depois dos 15 anos, em PE 4,8% sofreram violência sexual, das quais
7,4% vivenciaram mais de cinco episódios, contra 6,16% das
paulistas, das quais 14,9% passaram por mais de cinco episódios.
Isto pode significar que, enquanto em SP as mulheres são menos
agredidas no espaço privado, estão mais expostas ao ataque por não
familiares no espaço público, tanto pelo estilo de vida das grandes
cidades -- onde há uma maior presença das mulheres no espaço público
e uma menor supervisão das crianças em casa por falta de estruturas
de apoio para as atividades domésticas – como pelos maiores índices
de violência urbana na cidade de São Paulo.
1.2. A mortalidade
associada à violência de gênero
Os estudos sobre homicídio
de mulheres são dificultados pelo fato dos dados sobre mortalidade
não necessariamente especificam os autores dos crimes e sua relação
com a vítima, exigindo desenhos de pesquisa apropriadas para
explorar essas dimensões. O estudo "Direitos Humanos e Homicídios de
Mulheres" (Blay, 2005) pesquisou três tipos de fontes de informação
sobre os homicídios de mulheres em São Paulo, buscando preencher
essa lacuna: a mídia escrita de 1991 a 2000; os boletins de
ocorrência (BOs) no ano de 1998, e uma amostra dos processos
judiciais no Tribunal do Júri em 1997.
O estudo mostra que há
assassinatos em todas faixas etárias, porém há um predomínio da
faixa de 22-30 anos. O estudo dos jornais indica que as tentativas
de separação ou os ciúmes foram motivos de 28% dos assassinatos em
2000. Havia ainda 18% das mortes relacionadas ao tráfico de drogas.
Nessa pesquisa, a análise
dos BOs foi feita a partir das delegacias gerais, pois as
delegacias da mulher estavam impedidas de registras os homicídios
desde 1996. Foi levantada uma amostra de 669 vítimas mulheres, das
quais 285 foram vítimas de homicídio e 384 de tentativas de
homicídio. Na metade das ocorrências, a autoria dos homicídios era
desconhecida. Entre as identificadas, quando a vítima é mulher, 90%
dos réus são homens. A maioria das vítimas, 62%, são brancas, 7% são
negras e 30% são pardas; a maioria tinha como escolaridade o
primeiro grau, 14% tinha o secundário completo e 3% o nível
universitário. O perfil socioeconômico e de escolaridade dos
agressores foi semelhante ao das vítimas. Apesar das inúmeras
lacunas que os BOs apresentam, observou-se que 5 em cada 10
homicídios são cometidos pelo esposo, namorado, noivo ou amante, e
se incluímos os ex-parceiros, este número cresce: 7 em cada 10
mulheres que são assassinadas são vítimas de homens com os quais
tiveram algum relacionamento amoroso. O rompimento da relação se
mostra uma situação de risco, se consideramos que 2 entre cada dez
assassinatos são cometidos por ex-parceiros. Outros familiares,
incluindo pai, mãe, filho, padrasto, sogra, respondem por mais 12%
dos homicídios e tentativas, mostrando que certamente o lar não é
seguro para as mulheres. Qualquer arma serve para esse crime, faca,
fogo, madeira, ácido, as próprias mão, porém 70% dos crimes são
cometidos com armas de fogo.
Neste pesquisa, uma análise
dos processos judiciais confirmou as características
sócio-econômicas das vítimas, e mostrou que a maioria era solteira e
tinha filhos, sendo que apenas uma em cada quatro tinha filhos com o
companheiro com quem viviam quando foram vitimadas. Apenas 9% das
vítimas tinha antecedentes criminais.
O estudo mostra que cerca
da metade das vítimas era solteira, e apenas uma em cada quatro
havia sido casada legalmente. Apenas uma em cada 10 vivia junto a um
companheiro quando do crime. Em contraste, no caso dos réus, apenas
um em cada quatro era solteiro, indicando que o réu era casado, mas
não com a vítima.
Quanto ao resultado dos
processos enviados que não foram a júri ou que estão sem julgamento
definitivo, 50% foram arquivados (basicamente porque os réus não
foram identificados), 24% estão suspensos (porque o réu está
foragido), em 3 casos foram impronunciados por provas insuficientes
e em 3 casos foram absolvidos. Apenas 14% dos réus foram julgados e
condenados, atestando a impunidade desses assassinatos (Blay, 2005)
Ainda que proporcionalmente
a mortalidade por homicídio incida muito mais sobre os homens que
sobre as mulheres, esta tem aumentado os dois sexos. Em São Paulo,
no triênio 1993-95, alcançava 88,4 óbitos por 100.000 entre os
homens e 5,9 por 100.000 entre as mulheres. No triênio de 1999-2001,
as taxas atingiram 139,8 para os homens e 8.9 para as mulheres no
município (PMSP, 2004).
A pesquisa Mapa da
Violência na Região Metropolitana do Recife (período 2000 a 2003),
foi realizada com base em dados dos jornais locais. Os homicídios
verificados na Região Metropolitana do Recife –RMR- entre 2000 e
2003, a partir do banco de dados MNDH/GAJOP, representaram um total
de 5.534 assassinatos, sendo 92,77% do sexo masculino e 7,2% do sexo
feminino. Estas mortes englobam casos de pistolagem, chacina,
esquadrões da morte, casos atribuídos aos cidadãos comuns, entre
outros. Quanto aos acusados, 98,27% são do sexo masculino. O número
de mulheres acusadas de homicídios representa um percentual de 1,48%
do geral. A constatação é de que os homens morrem mais e matam mais.
No universo de 399 mulheres assassinadas, 160 são mortas em suas
residências. Isto equivale a 40,1% dos casos. Quanto ao motivo do
crime ocorrido em residência, 53 casos - o que equivale a 33,12 % -
são ocasionados por violência de gênero.
Entre as vítimas do sexo
masculino, apenas 11,53% são assassinados em suas residências. Neste
caso, as mortes são mais freqüentes em vias públicas, chegando a
59,23% do total, mostrando que enquanto a rua é um local de perigo
para os homens, a casa pode ser ainda mais perigosa que a rua para
as mulheres. (Gajop, 2005)
Mais marcantes ainda são as
características dos agressores e vítimas, em termos de gênero: em
cada cem vítimas temos 7 mulheres mortas para 93 homens, enquanto em
cada cem agressores temos apenas 2 mulheres para 98 homens.
Ainda que a mortalidade por
causas externas, aí incluídas as formas de violência interpessoal e
o homicídio, continue sendo muito mais prevalente entre os homens
que entre as mulheres, a magnitude desses assassinatos é tão alta
que se constitui na primeira causa de morte entre mulheres em idade
reprodutiva em algumas capitais, tendo aumentado tanto em magnitude
quanto na crueldade dos crimes (Brazão, ver ref.).
O monitoramento dos
homicídios de mulheres ganhou um reforço com a criação do
Observatório da Violência contra a Mulher, um
projeto do
SOS
CORPO Instituto Feminista para a Democracia
“voltado para a produção de informações e debates críticos sobre a
violência contra a mulher, com o intuito de subsidiar a atuação dos
movimentos de mulheres e dos agentes públicos no seu enfrentamento.
Propõe ainda a construção de um espaço de interlocução entre
sociedade e Estado para a formulação de propostas que venham a atuar
sobre as diversas facetas do problema”. Partindo da constatação de
que são muitas as formas de violência contra as mulheres e os
assassinatos são a mais grave delas, reconhece que “apesar dos
avanços sobre o tema, pouco ainda se conhece sobre a questão e muito
menor ainda é o avanço na implementação de políticas públicas
voltadas para o enfrentamento do problema, em suas raízes” O
monitoramento dos homicídios também trouxe o reconhecimento de que
“no campo da violência, nossas análises ainda pecam pelo
universalismo ao desconsiderar as situações de classe e raça das
mulheres”. Segundo Portella,
“Nosso desafio é superar
a fragmentação teórica e política que circunscreve a violência
contra as mulheres como um campo isolado de conhecimento e ação
política. Nessa direção, teríamos que trabalhar com a idéia de
grupos mais e menos expostos à violência que demandam políticas
diferenciadas, sem abrir mão das ações voltadas para a sociedade em
geral e que objetivam transformações nos valores e na cultura
política”(Portella, 2005).
3. Repercussões da
violência sobre a saúde
3. 1. Impactos da violência
sobre a saúde reprodutiva e sexual
As conseqüências para a
saúde das várias formas da violência de gênero são um tema recente
de estudo, porém com uma produção de evidências consistente e
em crescimento (CDC, 2005).
No Brasil, o "Estudo
Multi-países..." já mencionado é uma das pesquisas que evidencia que
a violência tem um impacto enorme sobre a saúde reprodutiva,
principalmente com relação à capacidade das mulheres de proteger a
própria saúde, como veremos abaixo. Por exemplo, o uso de
contraceptivos e de condons foi inversamente proporcional à
exposição à violência. Entre as mulheres que não queriam ter filhos
e mesmo assim engravidaram as maiores porcentagens correspondem as
que sofreram violência.
Chama a atenção a
associação entre ter sofrido violência e ter tido um aborto
voluntário (ilegal no Brasil). Entre as não expostas à violência,
7,7% das mulheres paulistas declararam ter feito aborto, enquanto
entre as que sofreram violência física, 17,1% fizeram aborto, que
chegou a 29,3% entre as que tiveram exposição à violência física e
sexual. Entre as pernambucanas, a associação se mantém, embora a
interrupção voluntária da gestação seja menos freqüente,
provavelmente pela maior dificuldade do acesso e/ou uma maior
condenação do procedimento por razões culturais.
O estudo do Perseu Abramo
mostra que 33% das mulheres contou ter tido uma gravidez
interrompida, dessas, 20% seriam interrupções voluntárias, o que
equivaleria a 6% das mulheres que já tiveram vida sexual . Dessa
perspectiva, a violência parece deixar as mulheres muito mais
vulneráveis a precisar de um aborto voluntário, o que pode ser um
importante agravo à saúde, especialmente nas condições de
ilegalidade – o que faz o acesso a esse recurso mais inseguro quanto
menor for a renda da mulher (RNSDR, Dossiê Aborto Inseguro).
Com relação ao uso de
contraceptivos, houve associação entre sofrer violência e não estar
usando contraceptivos no momento da pesquisa em São Paulo. Entre as
não expostas em São Paulo, apenas 17,9% não usava proteção, enquanto
entre as que sofreram violência sexual 51,4% não usava método e
entre as que tiveram exposição à violência física e sexual, 39% não
usava atualmente. A associação entre sofrer violência e o parceiro
tentar impedi-la de usar um método contraceptivo manteve-se tanto em
São Paulo como em Pernambuco.
A violência durante a
gravidez foi um dos problemas que mais chamou a atenção: das que
relataram já ter estado grávidas, 11,3% em SP e 7,7% em PE forma
agredidas durante a gestação. Dessas gestantes agredidas, 40,% em
Pernambuco e 26% em SP, foram agredidas diretamente no abdome, dado
bastante relatado na literatura especializada (Campbell, 2002).
Quando perguntadas sobre se
fizeram pré-natal, houve uma diferença significativa entre sofrer
violência e não fazer pré-natal. Quando perguntadas sobre se o
parceiro se importava ou cuidava dela quando grávida, o não-cuidado
dos parceiros foi muito maior entre as que sofriam violência em São
Paulo. O consumo abusivo de álcool e drogas na gravidez foi bem
maior entre as que sofriam violência, evidenciando que as dimensões
relacionadas ao auto-cuidado - tanto a busca de serviços de saúde,
quanto evitar hábitos danosos à saúde - são fortemente prejudicadas
pela violência.
Todos esses dados mostram
que a magnitude do impacto da violência de gênero sobre á saúde em
geral, e sobre a saúde reprodutiva em especial, pode ser muito maior
de que aquele de muitas das enfermidades para as quais os serviços e
programas de saúde dedicam sua atenção e recursos. Eles mostram que
é urgente uma reformatação das prioridades das ações de saúde para
contemplar esses agravos, articulando ações intersetoriais entre a
saúde, a segurança pública, a assistência social e outros atores
importantes para ajudar as mulheres a superar a situação de
violência.
Confirmando estudos de
outros países, no EMP/OMS, a exposição isolada à violência sexual
teve um efeito ainda mais devastador sobre a saúde e o auto-cuidado.
Pode ser que para muitas das mulheres que responderam estas
pesquisas, a idéia de “violência sexual” só se aplique em situações
onde a violência física está presente, o que levaria a uma
subestimação dos casos de violência sexual quando na situação não
houver violência física. É possível que nos casos de violência
sexual a mulher, não tendo chances de revidar, se percebe mais
impotente e humilhada com a agressão, enquanto a violência física
implica em alguma chance de reação. Não sabemos se o alcance do
revide por parte das mulheres, que pode ser tanto protetor contra a
violência, como levar a uma escalada com conseqüências mais graves.
O revide por parte das mulheres é um tema pouco estudado nas
pesquisas, e talvez até certo ponto, evitado, por ameaçar a equação
mulher-vítima versus homem-agressor. Mesmo assim, algumas
investigações já o incluíram:
Nesta grande pesquisa
multipaíses, o questionário foi criado por mulheres de todo o
mundo, todas comprometidas com o movimento, feministas, e foi
possível incluir algumas perguntas sobre quando e porque as
mulheres batem também, mostrando que elas não são vítimas passivas,
mas que procuram se defender
O reconhecimento de que a
identificação da violência doméstica é subestimado frente ao da
violência sexual - embora esta primeira seja muito mais prevalente -
de forma alguma diminui o mérito do esforço empreendido por uma
ampla coalizão de ativistas, dentro e fora das instituições de
saúde, na implementação e manutenção dos serviços que atendem a
violência sexual. Em especial, aqueles serviços que oferecem aborto
nos casos em que este é legal, pois apesar do aborto ser permitido
nos casos de estupro e de risco de vida da mãe, desde 1940, apenas
em 1989 tivemos primeiro serviço público oferecendo tais serviços,
como resultado de uma cuidadosa articulação institucional incluindo
o setores de saúde e justiça. Estas iniciativas se expandiram de
forma a existirem 82 serviços que atendiam os casos de violência
sexual, 44 dos quais ofereciam aborto nos caos de gravidez
resultante de estupro, a maioria deles localizados nas capitais
(Ministério da Saúde, 2005).
3.2. Violência e saúde
mental: o sofrimento e inadaptação
O movimento feminista deu
representação ao sofrimento das mulheres, nomeou-o, chamou-o de
“violência”. Esse percurso foi necessário para que “depois de
sabermos do que sofremos, partir para almejarmos saídas, planeá-las,
reivindicá-las”. Dessa forma, as mulheres puderam se ver como
vítimas de violência e esse reconhecimento, com seus avanços e
possibilidades, ofereceu possibilidades de sair desse lugar. Com
isso, as feministas puderam formular as demandas para os setores
políticos e conseqüentemente a academia incorporou essa temática e
iniciou o desenvolvimento de novos conhecimentos sobre as relações
de gênero e o sofrimento psíquico (Mirim, 2005).
O Projeto Mapeamento
Nacional de Pesquisas e Publicações sobre Violências contra as
Mulheres, coordenado por Miriam Grossi, mapeou 34 trabalhos
acadêmicos na área de saúde sobre violência, sendo quatro em Saúde
Pública, seis em Medicina Social, dois em Psicologia Social, dois em
Serviço Social, dois em Saúde da Mulher e dezesseis trabalhos em
Enfermagem. Nenhum deles tinha como foco principal a saúde mental,
embora vários deles apontem para estes agravos como conseqüências
da violência.
Os estudos se referem aos
sintomas psicológicos encontrados nas mulheres que sofrem as várias
formas de violência, entre os quais estão as doenças psicossomáticas
e queixas vagas ligadas à tensão e à ansiedade (Silva, 2000); os
distúrbios cognitivos e de memória, o comportamento depressivo, a
cefaléia e as gravidezes indesejadas (Monteiro, 2000). Vários
estudos apontam para o despreparo dos profissionais e a falta de
acolhimento das mulheres que vivem situações violentas
(Angulo-Tuesta, 1997, Porto, 2004), sua tendência a referir os casos
de violência para a saúde mental (d'Oliveira, 2000). Porto chama
também a atenção para os fatores psicológicos relacionados à
permanência da mulher agredida na relação violenta, entre eles a
dependência emocional, o medo de criar filhos sozinha, os
sentimentos de culpa e a baixa auto-estima.
Várias autoras chamam a
atenção para o forte impacto emocional que a violência contra a
mulher provoca no profissional de saúde, e recomendam a criação de
novas estratégias de atendimento, incluindo a elaboração de ações
que levem em conta as dimensões emocionais não apenas das usuárias,
mas também dos profissionais, implicando em supervisões e discussões
interdisciplinares (Pedrosa, 2003; Angulo-Tuesta, 1997, Porto,
2004).
Do ponto de vista das
pesquisas de base populacional, as conseqüências da violência para a
saúde mental foram exploradas pela EMP-OMS (2001). Nesse estudo, foi
utilizada a escala de sofrimento emocional (SQR20) nas quatro
semanas anteriores à pesquisa, que mostrou uma poderosa associação
entre a exposição à violência e o sofrimento emocional em ambos os
estados pesquisados (Pernambuco e São Paulo). Enquanto o escore
médio das que não sofriam violência foi de 4,6 em SP e 5,6 em PE, as
que sofreram violência física tiveram um escore médio ponderado de
7,1 em SP e 8,1 em PE; as que sofreram violência sexual um escore de
9,7 em SP e 8,3 em PE e as que tiveram exposição à violência física
e sexual de 7,7 pontos em SP e 9,6 em PE.
Mais robusta ainda foi a
associação com os pensamentos suicidas, que foram relatados por
20,9% das que não sofreram violência, 44,6% das que sofreram
violência física, 42,8% das sofreram violência sexual e 49,8% das
que tiveram exposição à violência física e sexual entre as
paulistas. As tentativas de suicídio também foram mais freqüentes
entre as que sofreram violência, sendo que essas tentativas foram
feitas por 82.2% (dentre as que tiveram pensamentos suicidas) que
sofreram violência sexual em São Paulo.
Entre as mulheres
pernambucanas, apesar dos pensamentos suicidas serem menos
freqüentes, a freqüência manteve-se bem maior entre as que sofreram
violência, especialmente entre as que sofrem violência física e
sexual (44,5%). Porém, estes percentuais sobem significativamente
quando se trata da violência física (32,6%) e da violência física e
sexual (56,1%), o que nos sugere mais uma vez a dificuldade em
dissociar a violência sexual da física e, mais importante, a
provável dificuldade em relatar o que se denomina “estupro conjugal”
não acompanhado de violência física. Esta diferença importante entre
aos pensamentos e intentos suicidas entre as pernambucanas pode
significar uma maior legitimidade da violência de gênero, que se
constituiria em menor causa de pensamentos e intentos suicidas. Mas
deve-se lembrar que esta taxa também é menor entre as mulheres que
não sofreram violência, o que demonstra diferenças regionais que
devem-se, provavelmente, às diferenças sociais e culturais da vida
em grandes cidades e regiões rurais e às diferenças de idade e
camada social das amostras. Esses dados são consistentes com estudos
de outros países sobre as conseqüências para a saúde da violência de
gênero, que indicam que a depressão e a síndrome de stress
pós-traumático (com suas condições associadas/co-morbidades) são as
seqüelas mais freqüentes da violência na relação com parceiro.
Entre as co-morbidades, estariam associadas as tendências suicidas,
além de ansiedade, insônia, e as chamadas “disfunções sociais”
(Campbell, 2002).
O "Balanço do enfrentamento
da violência contra a mulher na perspectiva da saúde mental",
(Mirim, 2005), mostra que nas últimas décadas, com a visibilidade
dada ao tema pelo feminismo, muitas respostas foram criadas,
permitindo para as mulheres o rompimento do silêncio que a violência
impõe. Este "dar voz ao sofrimento" possibilitou um reconhecimento
social, coletivo, das suas causas, conseqüências, abrangência e
ramificações; as várias expressões desta violência e suas seqüelas:
a agressão física, a psicológica, a moral, suas relações com outras
formas de opressão como o racismo e a pobreza. Há uma mudança na
subjetividade, que não pode ser subestimada, com efeitos sobre o
significado do sofrimento decorrente da violência - agora redescrita
como injusta.
A possibilidade da escuta
das falas sobre a violência fez com que o tema pudesse entrar para a
política, para a academia, para a esfera pública. Deixa de ser um
não-dito e torna-se um assunto que diz respeito à vida social. A
sociedade se mobiliza, ainda que com os muitos limites conhecidos,
para oferecer algumas respostas às mulheres que sofrem violência.
Pode-se dizer que além da criação dos serviços ser simbolicamente
uma possibilidade, ele oferece à mulher a probabilidade concreta de
sair da situação em que ela vive." Assim, foram criados no Brasil
centenas de serviços que oferecem uma escuta sobre a violência
doméstica contra as mulheres, nos quais os profissionais de saúde
mental quase sempre estão presentes, muitas vezes trabalhando em
redes articuladas com outros profissionais, procurando fortalecer (empower)
essa mulher simbólica e concretamente.
Porém a autora chama a
atenção para um lado que ficou descoberto nesta luta: o cuidado às
profissionais entendido como parte importante do trabalho em saúde
mental. Uma vez que a violência é um sintoma complexo da sociedade,
o cuidado às profissionais é deixado de lado em grande parte dos
serviços, por falta de planejamento ou de recursos, ou ambos. Isto
seria um limite importante para o crescimento dos serviços e para o
enfrentamento das dificuldades das profissionais, equipes e das
instituições (Mirim, 2005). Seria também um limite à produção de
conhecimento e de aperfeiçoamento dos recursos terapêuticos. Como a
quase totalidade dos profissionais que atendem violência são
mulheres, talvez haja aqui um componente de gênero nessa negligência
do suporte às profissionais, que por serem mulheres, deveriam
suportar este sofrimento sem causar novas demandas ou problemas para
as instituições.
3.3. Violência e DST/Aids:
sinergia de opressões e vulnerabilidade
No caso brasileiro, várias
das ações na interface entre violência e DST/AIDS são exemplos do
reconhecimento da complexidade das relações de gênero. Partem do
reconhecimento de que a vulnerabilidade a um e outro agravo são
muito semelhantes, incluindo a exposição e relações sexuais não
consensuais e muito precoces, a carência de redes sociais de apoio
na família e na comunidade, a baixa escolaridade, as dificuldades de
comunicação e de negociação entre os parceiros, o uso de álcool e
drogas pelo parceiro ou pela própria mulher, entre outros. Desta
forma, quanto maior a falta de controle da mulher sobre seu próprio
corpo e sobre as decisões sexuais e reprodutivas - desde o sexo sob
coerção à negativa pelo parceiro do uso de camisinha ou
contraceptivos - maior a vulnerabilidade (Diniz, GPDST/AIDS).
Um estudo sobre violência
contra mulher e saúde, mostrou que a exposição à violência parece
ser ainda maior entre as mulheres HIV positivas ou que tem DSTs,
sugerindo que há uma superposição de vulnerabilidades. A pesquisa
envolveu usuárias de serviços de saúde da rede pública do SUS na
Grande São Paulo, e foi realizado pelo Departamento de Medicina
Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Foram entrevistadas 3.193 mulheres, de 15 a 49 anos, em 19 serviços
participantes da pesquisa. Entre as mulheres usuárias do ambulatório
do Centro de Referência em DST/AIDS de São Paulo, mais de 30%
daquelas mulheres declaravam já ter tido relações sexuais mediante
violência física, dado muito superior aquele encontrado na população
em geral, cerca de 13%. (Schraiber, 2002)
Entre os principais
resultados, 40% das mulheres entrevistadas declararam violência
física – exclusiva ou conjugada com a forma sexual – cometida pelo
parceiro atual ou anterior; 5% relataram casos exclusivos de
violência sexual. A violência sexual, portanto, ocorre sobretudo
associada à violência física.
Entre as usuárias do Centro
de Saúde Escola da Barra Funda (CSE) e do Centro de Referência e
Treinamento em Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids (CRT/Aids)
foram verificadas as maiores taxas de violência física e/ou sexual.
Mais de 50% das usuárias entrevistadas relataram casos de violência
conjugal.
No EMP/OMS, no que diz
respeito ao uso de condom, como já vimos, existe associação entre
sofrer violência e o parceiro interromper o uso do método nos dois
sites. Enquanto entre as não expostas de São Paulo, 20,3% dos
parceiros se negaram ao uso da camisinha quando solicitados, entre
as que sofreram violência física, 29,9% dos parceiros se recusaram;
39,1% dos parceiros entre as que tiveram exposição à violência
física e sexual, e 86,1% dos parceiros entre as que sofreram
violência sexual. Estas porcentagens são ainda mais altas para
Pernambuco, mantendo-se a associação: 41,5% dos homens recusaram-se
a usar condom entre as não expostas, enquanto 77,5% dos parceiros
das mulheres que sofrem violência física e sexual alguma vez
recusaram-se a usar condom.
A prevenção
secundária nas mulheres, pode ser melhorada pela redução do atraso
no diagnóstico e tratamento melhorando o problema do acesso a
serviços. Isso exige por parte dos serviços de saúde a superação da
“cegueira de gênero” da abordagem estereotipada da mulher “normal”
(heterossexual, monogâmica, casada, e bem comportada) em oposição à
“de risco”, uma vez que paradoxalmente, o risco aqui se associa cada
vez mais à suposta normalidade.
Tais mudanças
necessitam estar fortemente vinculadas a reformas no aparelho
formador dos profissionais de saúde, no sentido de viabilizar que
esta discussão mais ampla sobre as relações entre a saúde e as
desigualdades sociais de gênero estejam incluídas tanto na graduação
e pós-graduação, quanto no nível médio e nas oportunidades de
reciclagem profissional daqueles que já estão no mercado de
trabalho. Isto se aplica especialmente aos nos novos modelos
assistenciais como é o caso do Programa de Saúde da Família, que por
sua abordagem mais próxima à vida cotidiana das populações, estaria
em uma posição potencialmente privilegiada para lidar com questões
sensíveis como as relações de gênero e suas consequências para a
saúde.
3.4. Violência
institucional de gênero e o movimento pela humanização da
assistência
A partir da segunda metade
da década de 90 o debate sobre violência vai refletir em grande
medida essa abordagem "baseada em serviços", pois trata-se do local
onde as mulheres são encontradas. Seu foco estará na adequação ou
inadequação, limites e possibilidade da assistência oferecida.
Estes trabalhos mostram como a violência contra as mulheres
perpetrada por seus parceiros íntimos ou familiares é ou deixa de
ser devidamente identificada (como questão de saúde),
referida (aos serviços disponíveis), ou manejada (em suas
conseqüências para a saúde física ou mental).
Por outro lado, um tema
identificado desde o início do movimento como central na interface
da violência com a saúde - a violência de gênero perpetrada pelos
próprios serviços de saúde - apesar de considerada um assunto
fundamental, apresenta um manejo muito mais delicado e complexo.
Esta forma de violência de gênero, como as demais, se caracteriza
por sua invisibilidade, por sua aceitabilidade social como violência
"natural", justificável, de forma que as violações dos direitos das
mulheres à sua integridade corporal e sua condição de pessoa são
considerados irrelevantes ou mesmo necessários, praticados para o
bem das próprias mulheres (Diniz, 1997; CLADEM, 1998; d'Oliveira
e cols. 2002).
Se os serviços de saúde já
têm dificuldades de reconhecer a violência cometida por terceiros,
como vimos nos estudos citados, reconhecer a violência praticada
pelas próprias instituições requer muito mais esforço conceitual e
político. Na passagem da década de 80 para 90, o tema era abordado
como “violência institucional contra as mulheres”.
Esta abordagem, por seu tom acusatório, tornava o assunto ainda mais
difícil de ser discutido ou reavaliado pelos profissionais de saúde.
Nesse campo, por questões estratégicas, a violência é descrita pelo
seu oposto, por sua potencial superação, como “humanização”. Assim,
a violência institucional de gênero desaparece inclusive dos
descritores dos estudos sobre o tema, o que muitas vezes
se justifica diante da extensa polissemia do termo (Diniz, 2001).
Um exemplo desta "manobra
conceitual" é expressa na Carta de Campinas, que funda a Rede pela
Humanização do Parto e do Nascimento. A Carta de Campinas, documento
fundador da Rehuna, denuncia “as circunstâncias de violência e
constrangimento em que se dá a assistência, especialmente as
condições pouco humanas a que são submetidas mulheres e crianças no
momento do nascimento” (REHUNA,1993). Considera que, no parto
vaginal
“a violência da
imposição de rotinas, da posição de parto e das interferências
obstétricas desnecessárias perturbam e inibem o desencadeamento
natural dos mecanismos fisiológicos do parto, que passa a ser
sinônimo de patologia e de intervenção médica, transformando-se em
uma experiência de terror, impotência, alienação e dor. Desta forma,
não surpreende que as mulheres introjetem a cesárea como melhor
forma de dar à luz, sem medo, sem risco e sem dor”
(REHUNA,1993).
Parte do reconhecimento e
da denúncia da violência técnica e relacional na assistência ao
parto, e por razões estratégicas escolhe a proposição da
humanização, ao invés da denúncia da violência. O tema da
humanização nas ações de saúde parte do pressuposto do "tratamento
desumano, cruel e degradante" das mulheres por serem tais,
desconstruindo este sofrimento como natural e imediatamente propondo
a superação da violência. Trata-se de uma politização da técnica, de
uma compreensão de que técnica é política, e que ali, nos
procedimentos de rotina – na imobilização, na indução das dores do
parto, cortes desnecessários, na solidão, no desamparo - estão
“encarnadas” as relações sociais de desigualdade: de gênero, de
classe, de raça, entre outras.
A “humanização” referida à
violência institucional de gênero (pela proposta de sua superação)
se expandiu para outros campos e formas de assistência à saúde mais
notadamente violentas, como a assistência ao aborto (RHAMAS). Como
citado pela Redesaúde no folheto dos 16 dias de ativismo contra a
violência, divulgando a Norma Técnica de Atenção Humanizada ao
Abortamento:
Mulheres atendidas em
serviços de saúde por aborto incompleto e/ou infectado relatam
violência institucional, manifestada por intolerância, atendimento
cruel e maus-tratos de profissionais de saúde: demora no
atendimento, curetagem sem anestesia, violência verbal, assédio
moral e até denúncia do abortamento para a polícia. Tal prática se
configura como tortura contra as mulheres, pois é consentida por
quem deveria protegê-la. (Redesaúde, 2004)
As referência à violência
institucional de gênero nos serviços, em sua sinergia com a
discriminação racial e de classe (Cladem,1998; d´Oliveira e cols,
2002), tem sido uma das contribuições mais inovadoras do feminismo
latino-americano. Esta interface entre violência e saúde,
permaneceu a uma certa margem do debate mais amplo sobre violência
de gênero, possivelmente por sua intensa capacidade de provocar
mal-estar entre os profissionais, dificultando alianças.
Porém constitui um campo
crescente na produção acadêmica brasileira. Nos últimos anos, o tema
da violência institucional de gênero tem chamado a atenção de
pesquisadores e formuladores de políticas (Deslandes e Ayres, 2005).
Um dos focos dessa abordagem é o reconhecimento de que as
instituições reproduzem valores e prioridades sociais hegemônicas,
entre elas o acesso diferencial e privilegiado de setores sociais
que detêm mais poder - sejam eles os mais ricos sobre os mais
pobres, os homens sobre as mulheres, os brancos sobre os negros e
assim por diante.
Dessa forma, as
instituições freqüentemente "sinergizam" várias formas de opressão,
reproduzindo comportamentos e rotinas discriminatórias, sem que
muitas vezes consiga reconhecer nessas rotinas seu conteúdo
opressor. Isso é especialmente verdadeiro nas ações de saúde, onde
as rotinas técnicas, de tanto repetidas, se "descolam" de sua
finalidade original, parecendo aos seus agentes como neutras, e não
como recursos que podem limitar, promover ou violar os direitos dos
seus usuários.
Se no caso brasileiro e
latino-americano, as iniciativas de mudança nas práticas para
coibir as várias formas de violência institucional de gênero na
saúde reprodutiva são chamadas de "humanização", esse termo não tem
uma única interpretação, permitindo uma ampla polissemia. O termo
humanização e seus derivados em muitos contextos se refere
essencialmente à incorporação da chamada medicina baseada em
evidência (centralmente em sua preocupação de prevenir lesões
desnecessárias resultantes de iatrogenia), mas se expandiu para
incorporar a idéia de um tratamento acolhedor, não intimidativo e
promotor de direitos. Porém tanto o termo pode ter muitos outros
sentidos, quanto as propostas de combate à violência institucional
pode se valer de outros termos (Diniz, 2005) .
4. O desenvolvimento de
programas e políticas
4.1. Programas de atenção
ao aborto legal e à violência sexual
Na área da saúde pública, o
atendimento mais visível à violência em sua interface com a saúde
tem sido feito à violência sexual. A primeira iniciativa para a
implantação do serviço de atendimento aos casos de aborto previsto
por lei partiu da deputada Lúcia Arruda (PT/RJ). O projeto de lei
464/84 de autoria da então deputada torna-se Lei em 1985, tendo sido
sancionado pelo então governador do Estado de Rio do Janeiro, Leonel
Brizola, que posteriormente recuou diante da forte pressão da Igreja
Católica.
Em 1988, o prefeito da
cidade do Rio de Janeiro, Saturnino Braga, regulamentou a Lei nº
1.042, de 28/07/1987, estabelecendo a obrigatoriedade do atendimento
médico pela rede de serviços de saúde para a prática do aborto nos
casos previstos pelo Código Penal (Seminário Nacional Aborto,
Cidadania e Justiça Social - São Paulo, maio/95).
Na cidade de São Paulo, em
1989 o governo da prefeita Luiza Erundina criou este serviço por
meio da Portaria nº 629/89, de 26/04/89, que dispõe a
"obrigatoriedade da rede hospitalar do município, do atendimento
médico para o procedimento de abortamento nos casos de exclusão de
anti-juricidade, previstos no Código Penal".
Os programas de atenção à violência sexual que surgiram no final dos
anos 80, tinham como proposta de atender aos dois casos de aborto
previsto na lei – gravidez decorrente de estupro e risco à vida da
gestante. Naquele momento, representaram um marco político, um
grande avanço na história do cumprimento dos direitos das mulheres,
buscando reparar um passado de abandono político – ao qual o Estado
brasileiro relegou as mulheres, ao não oferecer a assistência isenta
de punição prevista no Código Penal de 1940 – e de abandono
subjetivo e afetivo de tantas que se deparam com uma gravidez
proveniente de estupro.
Foi então no contexto de
implantação desses programas que as ações de identificação,
tratamento e prevenção da violência sexual e doméstica começaram a
ser implementadas no serviço de saúde. O fato é que o aborto legal
acabou se revelando como apenas mais uma das ações incluídas no
conjunto da assistência demandada por aquelas que sofrem a violência.
Com a implantação desses serviços pioneiros revelou-se a necessidade
de ampliar a abrangência e o foco do atendimento, que passou a
centrar-se na assistência integral à saúde da mulher vítima de
violência, levando a problemática para dentro do setor de saúde em
todas as suas dimensões, o que vem possibilitando reflexões e
exigindo outros esforços.
Em 1998, profissionais de
saúde que estão à frente dos serviços de aborto legal elaboram, em
conjunto com a Coordenação da Área Técnica de Saúde da Mulher do
Ministério da Saúde, a norma técnica para a “Prevenção e tratamento
dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e
adolescentes”. Bastante claro e objetivo, o referido documento trata
de orientar corretamente as ações a serem desenvolvidas pelo
serviço, desde o atendimento inicial, a prevenção da gravidez
(anticoncepção de emergência), a profilaxia das doenças de
transmissão sexual, a profilaxia da AIDS e, se e quando ocorrer a
gravidez, os meios necessários para a interrupção da gestação, no
âmbito da legislação atual. Essa atitude firme e decisiva da equipe
de saúde da mulher do Ministério da Saúde foi positiva em muitos
aspectos, possibilitando que, ainda hoje, novos serviços sejam
desenvolvidos a partir da experiência dos serviços já existentes e
contando com o apoio de uma equipe técnica do Ministério.
Neste contexto, pode-se
dizer que o atendimento à violência sexual é o mais reconhecido e
estruturado dentre as formas de atendimento à violência de gênero no
setor saúde. Por parte dos profissionais, é possível que o
privilegiamento da violência sexual ocorre porque o profissional
tem mais procedimentos, podemos dizer, clínicos, objetivos, que ele
sabe fazer e acredita que são resolutivos. Como por exemplo os que
são traduzidos na Norma Técnica de Atenção as Mulheres Vitimas de
Violência Sexual, desde a prevenção da gravidez, até a prevenção das
DSTs e do HIV, sem falar no manejo das gravidezes resultantes. Esta
norma é uma das expressões mais importantes e bem-sucedidas do
reconhecimento da violência como questão para as políticas públicas
e serviços de saúde e sua tradução prática, em procedimentos. A
existência de um protocolo de atendimento pode ser considerada
também como um marcador das mudanças institucionais quanto ao
reconhecimento da violência de gênero.
Desde o inicio das
políticas existe uma compreensão de que o setor de saúde é uma porta
de entrada muito privilegiada dos casos de violência e que seria
responsabilidade do setor, pelo menos identificar esses casos e
referi-los adequadamente. Oferecer uma alternativa concreta do
que fazer, e um trabalho que seja efetivo, é uma tarefa que tem
mais chances de incorporação na prática pelos profissionais do que
uma questão para a qual ele não tenha respostas. Isso inclusive
reduziria muita o desconforto, a ansiedade do profissional de saúde,
que como outros profissionais ( advogados, enfermeiras, assistentes
sociais, psicólogas), provavelmente não tiveram em sua formação nada
sobre como lidar com as questões de violência.
Nesse sentido, a questão da
violência sexual e a existência de um protocolo de assistência se
torna muito mais aceitável para os profissionais de saúde, do que as
outras formas de violências.
Valorizar a morbidade no
caso da violência contra a mulher, seria valorizar o rotineiro. A
violência doméstica, a violência do parceiro íntimo e não a sexual
por estranho, seria a inversão desta lógica. Então você tem um
evento preciso, para o qual tem uma resposta precisa. Mas é que a
área da saúde obviamente, como toda a planificação se aceita
indicadores e os indicadores mais confortáveis são esses de eventos
muito precisos, os imprecisos não dão bons indicadores. Não se
planeja para as coisas imprecisas - é uma lógica do sistema. [26]
Os dados resultantes destes
serviços não são padronizados, o que dificulta sua totalização
nacional. Um estudo em São Paulo mostrou que de 575 mulheres adultas
e 546 adolescentes atendidas por violência sexual, 88,1% e 84,5%
respectivamente, declararam que seus agressores foram estranhos,
enquanto entre as 71 crianças atendidas, 84,5% dos crimes foram
cometidas por pessoas que elas conheciam (Drezett, 2000).
Aparentemente, esta “des-familiarização” dos casos os tornam mais
aceitáveis para o profissional de saúde, por provocar menos
contradições agudas e sofrimentos emocionais para aqueles que
atendem os casos.
4.2.
Violência de gênero no Sistema Único de Saúde e a incorporação do
tema na atenção primária
A criação de políticas
públicas de combate à violência é parte do reconhecimento, pelo
Estado brasileiro de que "a violência doméstica tem importante
repercussão no processo de saúde a adoecimento das pessoas.
Especificamente na saúde das mulheres, esses agravos vão repercutir
seriamente na saúde mental, sexual e reprodutiva" (Ministério da
Saúde, 2005).
De acordo com o Ministério
da Saúde, a situação de violência leva a um sofrimento crônico que,
de forma perversa, compromete as possibilidades das mulheres de
cuidarem de sua saúde e a dos outros. Há um reconhecimento de que
essa negligência de cuidados é demonstrada em estudos, como já
vimos, relacionada ao uso abusivo de álcool e drogas; de maiores
possibilidade de sexo inseguro, de busca tardia de todas as formas
de assistência, inclusive no pré-natal, e baixa adesão a programas
preventivos, como os de prevenção de câncer cérvico-uterino.
De acordo com o Ministério
da Saúde, entre as atividades desenvolvidas pelo neste campo, se
incluem: a criação e a disseminação da Norma Técnica de Prevenção e
Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra
Mulheres e Adolescentes; o Caderno de Atenção Básica sobre Violência
Intra-Familiar; a Cartilha sobre Direitos Humanos e Violência Intra
Familiar; a orientação para prevenção de DST/HIV e Hepatites Virais
pós-exposição Sexual; a recomendação para apoio psicossocial à
vítima de violência; o apoio aos projetos estaduais e municipais
para formação de redes locais de atenção à saúde da mulher; e oferta
de anticoncepção de emergência para a rede.
Durante as comemorações do
25 de novembro de 2003, data dedicada ao combate à violência contra
a mulher, o Governo Federal sancionou a Lei nº 10.778. Esta Lei
"Estabelece a notificação compulsória, no território
nacional, do caso de violência contra a mulher que for atendida em
serviços de saúde públicos ou privados." A lei torna obrigatório aos
serviços de saúde públicos ou privados, dar conhecimento do
atendimento que fizerem às vitimas deste tipo de violência. Faz
parte de um conjunto de atividades, pactuado entre a Fundação
Nacional de Saúde - FUNASA (órgão executivo do Ministério da Saúde),
Secretarias Estaduais de Saúde - SES e Secretarias Municipais de
Saúde - SMS, relativos a área de epidemiologia e controle de doenças
e agravos. A finalidade dessa notificação é servir para que o
Estado (federal, estadual e municipal) planeje políticas públicas
para eliminar a violência contra a mulher, a partir da realidade
brasileira: onde acontece, que tipo de violência ocorre com mais
freqüência, quem comete a violência, quem é esta mulher que sofre a
violência (sua raça, idade, classe social etc.), revertendo esse
planejamento para a própria mulher que também sai beneficiada.
Ainda segundo o Ministério
(MS, 2005), estão planejadas as seguintes ações para a melhoria da
Saúde das Mulheres em situação de violência: aumentar em 30% o
número de serviços que atendem mulheres em situação de violência,
incluindo a anticoncepção de emergência; realizar pesquisas sobre a
situação dos serviços existentes; incluir o tema nos processos de
capacitações do Ministério da Saúde; assessorar estados e municípios
na implantação de Rede Locais de Atenção à Saúde da mulher em
situação de violência; e parceria com a Secretaria Especial de
Políticas para as Mulheres para implantação do Plano Nacional de
Prevenção, Assistência e Combate à Violência contra a Mulher.
Em 1997, existiam 17
serviços de referência para atendimento às mulheres em situação de
violência no Brasil. Atualmente há, aproximadamente, 82 serviços,
sendo que 44 deles realizam a interrupção da gravidez nos casos
previstos em Lei. A maioria desses serviços está situada na região
Sul e Sudeste. A região Norte conta com menor número.
Nos documentos do MS, há
uma expectativa de que "com as mudanças sociais em curso, fruto da
ação cotidiana de todos aqueles que são contrários à violência,
avancem para um novo padrão de relacionamento entre homens e
mulheres, onde a solidariedade e o respeito mútuo constituam as
bases das relações familiares, afetivas e amorosas"e de que se
trata de mudanças culturais mais amplas, que dependem de mais do que
a criação de novas modalidades de assistência à saúde. Há o
reconhecimento de que as mudanças culturais implicam em articulações
intersetoriais, criação de novos saberes e práticas, e uma abertura
para novos modelos de assistência, que vão além da área de saúde,
articulados em redes de assistência.
Esse é um exemplo de
"modelo" que se inicia em grupos de mulheres é incorporado - com
menos ou mais limites - pelo estado é o atendimento às mulheres que
foi inicialmente proposto por grupos como os SOS Mulher, criado em
1980. O atendimento individual ou em grupo, a escuta solidária da
história das mulheres agredidas, a afirmação do direito a viver sem
violência, o trabalho inter-disciplinar e em redes de serviços, a
democratização das informações ditas técnicas (legais,
assistenciais, médicas, etc.), entre outras, foram inovações
desenvolvidas pelos grupos de mulheres, que puderam posteriormente
ser incorporadas pelos organismos governamentais e saberes
acadêmicos.
O trabalho em redes
é fundamental pois o setor saúde é uma das "portas" mais utilizadas
pelas mulheres que procuram ajuda para a questão da violência, para
o acolhimento, identificação e referência dos casos. Não apenas os
serviços de atenção primária, os hospitais e pronto-socorros são a
forma de acesso mais procurada no setor saúde, em geral atendendo os
casos agudos das formas de violência que provocam lesões que exigem
cuidados de emergência. No EMP-OMS, em São Paulo, 17,6% das mulheres
que sofreu violência chegou a procurar a polícia, e 15,8% procurou
um hospital. Em Pernambuco, 11,2% procurou um hospital e 10,0%
procurou a polícia - diferença que pode se dever às diferentes
disponibilidades dos recursos nos dois locais.
No Brasil, várias ONGs
trabalharam não apenas no desenvolvimento de modelos assistenciais -
sociais, de saúde, psicológicos e jurídicos - mas também na criação
de redes de referência, de articulação política internacionais e com
organizações governamentais, e em campanhas de prevenção à
violência [9]. Muitos desses projetos foram potencializados através
de parcerias com a academia e com serviços, ampliando seu alcance e
sustentabilidade, como é o caso d |