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40 anos de Coletivo: Médicas de Família e Comunidade

40 anos de Coletivo: Médicas de Família e Comunidade

Como parte de nossa programação de 40 anos de Coletivo Feminista, hoje convidamos a médica de família e comunidade Luiza Cadioli para apresentar um pouquinho de sua trajetória e das contribuições que o Núcleo de Médicas de Família e Comunidade traz ao Ambulatório em Saúde do Coletivo. Confere aqui:

“Meu primeiro contato com o Coletivo foi no final de 2013. Estava numa oficina sobre gênero, sexualidade e saúde e conheci a Maíra, uma de nossas obstetrizes e diretora do Coletivo naquela época. 

O convite para contribuir com o Ambulatório de Saúde das Mulheres era mais que uma oferta de emprego: indicava a possibilidade de aprender, resgatar e redesenhar os valores daquela instituição que historicamente possuía uma atuação muito importante no campo de direitos sexuais e reprodutivos. 

Pessoalmente, não é possível separar minha formação de médica de família com a atuação no próprio Coletivo, iniciada ainda no período em que realizava minha residência. Ambas se entrelaçam na medida em que os dois lugares me ensinaram e aperfeiçoaram em mim a arte que é promover cuidado. Eu me formava médica ali: de um lado saúde das mulheres; do outro, a atenção primária e a clínica médica. 

Também foi de cara aprender muito sobre feminismo de uma outra perspectiva, mais madura, menos teórica, mais prática. Maíra me ensinou a medir diafragma, coisa que nunca havia aprendido em minha formação, e ali também entrei em contato com o auto-exame ginecológico, prática muito realizada pelas instituições feministas da década de 70 e 80 e que inspiraram o surgimento do Coletivo. 

Para que perneiras? É possível que as mulheres insiram o espéculo de forma confortável e olhem para o próprio corpo e compartilhem desse conhecimento com a profissional de saúde. A simbologia de poder olhar para o próprio corpo sem tabus e poder questionar o profissional de saúde é tremenda. Parece óbvio e simples hoje, mas continua sendo revolucionário, já que a relação médico-paciente se apresenta quase sempre atravessada por uma postura médica mais vertical, autoritária e prescritiva na maioria dos consultórios. 

Além disso, era também revolucionário que uma obstetriz ensinasse tanto a uma médica. Eu nunca havia tido aula com uma obstetriz ou com uma enfermeira, o que hoje me parece absurdo dada a grande possibilidade de aprendizado que essa relação oferece.

As mulheres que passei a atender me ensinaram o quanto nossos corpos são medicalizados pela ginecologia. Enquanto aprendia sobre a necessidade de não fazer intervenções desnecessárias na residência e sobre a importância dos conceitos de prevenção quaternária, rastreamento, “primeiro não causar dano”, “watchful waiting” e sobrediagnóstico, as mulheres me mostravam na prática o sofrimento que é ter o corpo invadido a cada 6 meses com exames desnecessários e rótulos de condições que sequer são doenças: HPV positivo, mioma assintomático, mamas densas, cisto de ovário… Todos frutos de um check-up distorcido muito comumente realizado em pessoas saudáveis, especialmente mulheres, o que as mantém reféns dos serviços de saúde e dos cuidados médicos  realizados várias vezes ao longo de um mesmo ano. O hábito de ter a vagina “revisada” todos os anos, ainda que não se sinta nada. A necessidade de ter o aval médico para se sentir saudável, sem a possibilidade de construir verdadeira autonomia e entendimento sobre seus processos fisiológicos e, claro, pedir auxílio quando se tem uma dúvida, um sintoma, uma preocupação, um conflito. 

As mulheres que passei a atender também me ensinaram muito sobre a diversidade de seus corpos, a diversidade de sua sexualidade, a complexidade do que é ser mulher, a multiplicidade nisso. É por isso que dizemos saúde das mulheres e não saúde da mulher, por exemplo. Somos muitas.

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Foram várias as vezes em que questionei o que aprendia. Pensava, “não é possível que tantas mulheres realizem esses exames sem precisar, devo estar aprendendo errado na residência”. 

A indignação abriu espaço para a chegada de novas médicas de família junto às ginecologistas e parteiras (obstetrizes) e para a construção de protocolos de cuidado e rodas de conversa. Juntas, experimentamos e resgatamos o modelo de escuta das mulheres em suas experiências e a produção de conhecimento em saúde a partir desse encontro. A proposta era – e continua sendo – romper ou ao menos questionar o modelo ginecológico autoritário que faz com que nos sintamos inadequadas e doentes e, no lugar, promover as vantagens de lutar por um atendimento mais integral e pautado no que hoje consideramos serem os valores de nosso ambulatório: respeito à diversidade, luta pelos direitos sexuais e reprodutivos, cuidado livre de dano, desmedicalização, decisão compartilhada. 

Nesse período, foram chegando também as crianças, os homens, as pessoas não binárias, as pessoas trans e tantos outros corpos e histórias pedindo escuta, atendimento e nos motivando a sonhar, estudar e construir novas linhas de cuidado para esses outros indivíduos. 

Hoje considero que o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde ganhou muito com a entrada das MFCs, verdadeiras especialistas em tudo que é prevalente clinicamente, grandes estudiosas da comunicação e do cuidado integral, igualmente preocupadas com a longitudinalidade, com a clínica e com as evidências científicas de um modo que nunca visto antes. Acima de tudo, somos absolutamente comprometidas com as pessoas. Do lado de cá, somos também imensamente gratas por este espaço que nos ensina tanto e pela oportunidade de atender tantas pessoas que confiam a nós seus cuidados, sua saúde.”

Escrito pela equipe do Coletivo Feminista

Rua Bartolomeu Zunega, 44 Pinheiros – São Paulo/SP
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Segundo a OMS, o Brasil tem a 5a. maior taxa de feminicídios do mundo. Entre 1980 e 2013, 106.093 mulheres morreram por serem mulheres. A Agência Patrícia Galvão traz dados que confirmam que ser mulher é um risco: uma travesti ou mulher trans é assassinada no país a cada dois dias; 30 mulheres sofrem agressão física por hora; uma mulher é estuprada a cada dez minutos; 97% das mulheres já foram vítimas de assédio no transporte; e 76% das mulheres já sofreram violência e assédio no trabalho.