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Ei, profissional de saúde, essa conversa sobre aborto é com você!

Ei, profissional de saúde, essa conversa sobre aborto é com você!

No Brasil, 1 a cada 5 mulheres aborta ou irá abortar ao longo de sua vida reprodutiva (PNA, 2016). O aborto é frequente e faz parte da vida reprodutiva das mulheres,já sabemos disso. Num país como o nosso que criminaliza o aborto, estamos falando de abortos que ocorrerão na clandestinidade, provocados pelo desejo dessas mulheres de não terem mais um filho, mulheres que estão reivindicando sua saúde física, mental e, mais do que isso, exercendo seu direito de autonomia reprodutiva, direito esse negado pelo nosso Estado. Mas não é porque mulheres abortam clandestinamente que esses abortos precisam ser inseguros. Vejam, existe uma diferença entre clandestino e inseguro. O aborto clandestino é o que não é previsto em lei. O aborto inseguro é o que coloca a vida da pessoa em risco (de morrer e de ter sequelas irreversíveis, como a perda do útero). E hoje queremos falar do papel dos profissionais de saúde em prevenir as sequelas do aborto inseguro.

Infelizmente a maioria dos profissionais de saúde não recebe orientação adequada para acolher uma gestação indesejada e fornecer informações importantes para a paciente realizar um aborto seguro. A maioria inclusive ainda acha que falar sobre aborto é crime ou, pior, por serem muitas vezes contrários ao aborto, acham que acolher a demanda da paciente e ouvi-la, significaria “induzir” a mulher a abortar, adotando uma postura moralista e julgadora, o que, sabemos, compromete o vínculo e é violência institucional.

Se você, profissional de saúde que nos segue, valoriza, assim como nós, uma consulta com foco na autonomia dos direitos sexuais e reprodutivos, na medicina baseada em evidências, na decisão compartilhada e no respeito à diversidade, aqui vão algumas informações que podem mudar seu jeito de atender uma mulher gestante (que deseja abortar)

1. Pergunte se a gestação é desejada – parece óbvio, mas muita gente ainda vê um exame de gravidez como sinônimo de alegria. Não aceite que seu serviço de saúde ignore essa parte da anamnese e saia pedindo ultrassom e passando ácido fólico direto sem ter essa conversa antes

2. Se a gravidez é indesejada, pergunte o que a mulher pretende fazer – perguntar não é induzir, influenciar. A mulher em situação de gestação indesejada já sabe o que é melhor pra si e o que vai fazer. A diferença entre perguntar ou não é se você, profissional de saúde, ficará sabendo

3. Se ela optou por abortar, respeite! Frases moralistas e recriminadoras geram insegurança e quebra de vínculo, além de maior chance de expor a paciente a um aborto inseguro. 

4. Denunciar uma mulher que vai abortar é quebra de sigilo e código de ética médica prevê cassação de CRM – médicos, vocês não podem denunciar suas pacientes

5. Posso falar sobre aborto e sobre como abortar? Sim! Falar sobre métodos seguros de aborto não é crime: é bom compartilhamento das evidências científicas. Negar o acesso a informações de qualidade sabidamente benéficas para um paciente é negligência e má prática. Conversar sobre e orientar é diferente de realizar um aborto.

6. Objeção de consciência – uma pessoa pode ter, um serviço não. Não sabe como conversar sobre isso? Chame um colega. De preferência, estude e aprenda. Acolher mulheres nessa situação de vulnerabilidade é um compromisso ético com o indivíduo e com a saúde pública.

Referência: 

Abortamento seguro: orientação técnica e de políticas para sistemas de saúde – 2ª ed OMS, 2012

Giugliani  C,  Ruschel  AE,  Silva  MCB,  Maia  MN,  Oliveira  DOPS.  O  direito  ao  aborto  no 

Brasil  e  a  implicação  da  Atenção  Primária  à  Saúde.  Rev  Bras  Med  Fam  Comunidade.  2019;14(41):1791. 

http://dx.doi.org/10.5712/rbmfc14(41)1791

 

 

Sobre a autora:

Luiza Cadioli é Médica de família e comunidade formada pela FMUSP, atua no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde desde 2014 e em um posto de saúde da Zona Oeste de São Paulo desde 2017.

Rua Bartolomeu Zunega, 44 Pinheiros – São Paulo/SP
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Segundo a OMS, o Brasil tem a 5a. maior taxa de feminicídios do mundo. Entre 1980 e 2013, 106.093 mulheres morreram por serem mulheres. A Agência Patrícia Galvão traz dados que confirmam que ser mulher é um risco: uma travesti ou mulher trans é assassinada no país a cada dois dias; 30 mulheres sofrem agressão física por hora; uma mulher é estuprada a cada dez minutos; 97% das mulheres já foram vítimas de assédio no transporte; e 76% das mulheres já sofreram violência e assédio no trabalho.