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Por que conversar sobre diversidade sexual com homens autuados pela Lei Maria da Penha?

O trabalho do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde com homens denunciados pela Lei Maria da Penha (Lei 11.340 de 2006) materializa-se na realização de grupos reflexivos semanais. Temos uma equipe profissional multidisciplinar que procura debater e refletir, juntamente com esses homens, temáticas relacionadas à violência contra a mulher, relações de gênero, machismo e construção das masculinidades. A realização desses grupos ocorre há cerca de 10 anos na sede da instituição em Pinheiros. Desde o mês de abril de 2020, devido à pandemia de Covid-19, os encontros passaram a acontecer de forma virtual. 

Um dos temas mais sensíveis de serem discutidos com esses homens, envolvidos em uma situação de violência doméstica (e podemos alargar a dificuldade dessa discussão também para uma grande parcela dos homens heterossexuais fora do grupo reflexivo) relaciona-se ao campo da diversidade sexual e das orientações sexuais não heteronormativas. 

O machismo é estrutural em nossa sociedade. Questioná-lo e tentar desconstruí-lo passa também por problematizar a masculinidade hegemônica, que engessa a existência do sexo masculino num modelo único e fechado: heterossexual, viril, que não demonstra fraqueza e não expõe seus sentimentos. Nesse sentido, vale refletir o quanto uma postura homofóbica se apresenta como forma de oprimir outras sexualidades e expressões de gênero: 

“(…) o medo em ser associado às mulheres e homossexuais e o ódio promovido contra esses mesmos grupos se torna um elemento poderoso na construção da masculinidade hegemônica, pois a produção de virilidade se torna um aspecto que afasta o temor da homossexualidade para muitos.”
– ANDREO, PERES, TOKUDA E SOUSA, 2016, p. 59

 O modelo de masculinidade tido como hegemônico é fortalecido por piadas e xingamentos homofóbicos desde a infância. Insultar alguém o chamando de “viado” é uma atitude que busca ferir o orgulho e o brio do macho heterossexual. A repetição deste comportamento faz com que muitos homens ajam de modo machista, para reforçar um papel que ele considera “másculo”, forte e robusto, e não ser vinculado a alguém que no seu imaginário seria um “viado”.

Em contraposição a um modelo único e hegemônico de masculinidade, procuramos sempre conversar com os homens participantes do grupo reflexivo sobre o fato de as masculinidades escreverem-se no plural. As diversidades de raças, classes sociais, culturas, etnias e orientações sexuais tornam possíveis masculinidades mais ricas e múltiplas. Levantar esse tipo de discussão procura questionar a reprodução de comportamentos formatados e a crença machista de que o homem apenas será homem se ele for heterossexual, agressivo, viril, provedor do lar, não chorar e não broxar.

O incômodo e o desconforto que podem surgir ao se debater diversidade sexual num grupo reflexivo com homens autuados pela Lei Maria da Penha têm também um efeito pedagógico. Muito provavelmente essa foi a primeira oportunidade que eles tiveram para se informar a respeito do significado das letras LGBTQI, para pensar sobre a violência cometida contra pessoas trans ou, ainda, para ouvir que “homossexualismo” tem uma carga pejorativa e deve ser substituído pelo termo homossexualidade.

Temos entre os objetivos do grupo reflexivo despertar nos homens inquietações, dúvidas e até mesmo incômodos sobre a reprodução e a repetição de modelos de masculinidades machistas. Debater assuntos ligados às orientações sexuais não heteronormativas e à visibilidade LGBTQI busca gerar efeitos a médio e longo prazo, proporcionando, inclusive, um aumento de repertório para esse homem não se amparar no machismo e na violência ao lidar com situações do seu dia a dia. 

 Andrêo, C., Peres, W. S., Tokuda, A. M. P., Souza, L. (2016), “Homofobia na construção das masculinidades hegemônicas: queerizando as hierarquias entre gêneros”. Rio de Janeiro: Estudos e Pesquisas em Psicologia, p. 46-67. 

Ivan Baraldi

Pesquisador e colaborador da ONG Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, atuando no Núcleo de Masculinidades (NUM). É doutorando pelo Programa “Direito, Justiça e Cidadania no séc. XXI” do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES/UC), mestre em Filosofia e Teoria do Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e bacharel em Direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Atua em temáticas relacionadas a direitos sexuais e reprodutivos, gênero e masculinidades.

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