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Tiago Iorc também mexeu com você?

Masculinidades brancas e narcisismo: Tiago Iorc também mexeu com você?

Vocês devem ter visto por aí que, após uma temporada de sumiço depois de um “climão” cibernético envolvendo até mesmo envio de foto de pênis e vazamento, o cantor Tiago Iorc acaba de soltar música e clipe novos, né?

Sob o título “Masculinidade”, durante 6 longos minutos, o bonito canta e dança entre versos que parecem um grande apanhado de postagens sobre “novas masculinidades”, “positivas” e “saudáveis” e sobre a necessidade de se distanciar de velhos modelos. Nele, o cantor nomeia as violências cometidas pelos homens de maneira genérica, mas principalmente seus sofrimentos.

A música – e seu clipe – foi recebida pela internet com grande alvoroço: alguns amaram, outros odiaram. Aqui no Coletivo, em termos de melodia, nós não achamos grande coisa. Por outro lado, acreditamos que, como a própria movimentação em torno do conceito de “masculinidade tóxica”, há um ponto positivo aí: convidar ao debate, fazer com que pensemos sobre masculinidades e transformações possíveis.

E é nesse ponto que nos aproximamos da discussão: não escondemos que apesar de bem-vindo o debate, a irritação por aqui é generalizada. Na verdade, oscilamos entre refletir com os textos da @vulvanegra e da @samyapascotto e rir de nervoso com as sátiras do @pedrocertezas e da @a.vida.de.tina.

Irritada mesmo ficou a antropóloga (que alguns chamam de machóloga) do Núcleo de Masculinidades (NUM) do Coletivo, a Isa Venturoza. Aliás, vocês sabem que aqui no NUM-Coletivo a gente não faz música e dança de calça pantalona, mas trabalha com homens denunciados por crimes da Lei Maria da Penha há 12 anos sem um tostão do poder público? Pois é.

Mas voltando à irritação da Isa e de outras pessoas na internet: o problema não é o Tiago e sua música em si, mas do que eles são sintomas.Vemos com a música “Masculinidade” um encapsulamento pela lógica neoliberal reformista de uma pauta que poderia tomar outros rumos. São mais do que necessárias a discussão e transformação das masculinidades, mas é preciso que elas sejam feitas não do lugar “desconfortável” mais confortável possível que Iorc assumiu, de maneira narcisista, focando em si mesmo, falando para os seus e ganhando bastante dinheiro para fazer “tudo” isso. Infelizmente acreditamos que há pouco de revolucionário ali. O que vemos é apenas mais um homem branco se autoflagelando e chamando a atenção para si mesmo.

Parece que os homens ou alguns deles – a quem a carapuça das masculinidades positivas e saudáveis pode servir – não entenderam direito a mensagem dos feminismos até aqui. Ao longo dos anos afirmamos que era não só bom como necessário que olhassem para si mesmos, tornando-se capazes de se responsabilizar por sua saúde mental e pelos efeitos nocivos de modelos tradicionais de masculinidade não só para as mulheres, mas para nossas comunidades como um todo, incluindo aqui os homens.

No entanto, parece que Tiago e outros amigos exageraram na auto-análise e ficaram presos no espelho. O que sugerimos é que eles usem toda essa energia (e dinheiro) para enxergar, ouvir, visibilizar e apoiar outras narrativas. Acreditamos que a revolução real passa por olhar para si mesmo – e não querer confete por isso – e então olhar para os lados. E principalmente contribuir para que os lados – marcados por gênero, raça e classe – não permaneçam abaixo.

A experiência masculina é mediada também por um corpo diferente de Tiago: o corpo que figura nos índices de mortalidade por violência, menor expectativa de vida, suicídio, abuso de substâncias, população em situação de rua, encarceramento e juventude em medida socioeducativa. Tais corpos e as subjetividades de que são recipientes são sempre marcados por raça, classe, escolaridade, regionalidade, sexualidade, deficiência, entre outras marcações que situam os homens em lugares diferenciados no mundo.

Queremos uma discussão sobre masculinidades que consiga enxergar e levar a sério que a conversa não é só sobre você, homem branco tentando se desconstruir e sofrendo no processo (mas ganhando dinheiro mesmo assim). Essa discussão sobre masculinidades tem consciência de que, como a violência contra as mulheres, essas outras dimensões são partes de um mesmo sistema sexista, racista, homofóbico e socioeconomicamente desigual que violenta as mulheres e também os sujeitos que não se encaixam em arranjos tradicionais de gênero e sexualidade. Entender as dimensões desse sistema é entender que estamos falando de algo estruturante de nossa organização social, que irá determinar como homens, mulheres e outros sujeitos irão se comprometer com certas posições de sujeito marcadas por raça e classe, por exemplo.

Ao produzir uma crítica das masculinidades tradicionais queremos estar conscientes de que elas não são somente contra as mulheres cis, mas contra todos nós e principalmente contra aqueles que não se beneficiam do conforto de serem brancos e ricos em um país racista e desigual.

Que essa crítica não fique aprisionada por um lugar narcísico, isto é, completamente voltado para si mesmo, em uma adoração excessiva da própria imagem e dos próprios sofrimentos. Que os homens cuidem de si, se repensem, se deixem ocupar espaços desconfortáveis – iniciando conversas sobre consentimento, por exemplo – e que possam principalmente se comprometer com um outro lugar em que eles não sejam novamente o centro, um centro branco heterossexual magro sem deficiência do norte global ou sudestino no Brasil.

E aí? Topa descer pro play de verdade?

Escrito pela equipe de Masculinidades do Coletivo Feminista

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Segundo a OMS, o Brasil tem a 5a. maior taxa de feminicídios do mundo. Entre 1980 e 2013, 106.093 mulheres morreram por serem mulheres. A Agência Patrícia Galvão traz dados que confirmam que ser mulher é um risco: uma travesti ou mulher trans é assassinada no país a cada dois dias; 30 mulheres sofrem agressão física por hora; uma mulher é estuprada a cada dez minutos; 97% das mulheres já foram vítimas de assédio no transporte; e 76% das mulheres já sofreram violência e assédio no trabalho.