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Portas

um texto de Bruna Novaes

Vejo um muro. Através da janela vejo um muro branco, com algumas rachaduras que o atravessam. Ouço um bebê chorar, é o meu. Meu bebê chora, mas não consigo me mexer, alguma coisa não me deixa mover, estou paralisada. Ouço gritos: sua filha está chorando, não vai cuidar dela?
Minha história começa como a de muitas outras mulheres, com uma paixão. Sexta feira, em um bar com amigos, um olhar cruzado. Estava com 20 anos na época, lembro bem do olhar daquele homem alto, um olhar profundo de desejo. Trocamos umas palavras, telefones e prontamente combinamos de sair.
Estou em pé na sala de casa, olhava na janela a cada 15 segundos, o carro dele encosta, a euforia toma conta de mim, quero muito que dê certo dessa vez, coloquei meu vestido favorito, pintei um olhar irresistível. Do alto do meu salto me encho de coragem e saio de casa. Ele me espera com a porta aberta.
Eu entro no carro e na vida dele. Compartilhamos tudo, passamos os dias fazendo planos, mergulhando um no outro, já não respiro longe dele. Quando eu estou na faculdade ele me liga em todos os intervalos, não aguenta de saudade, quer sempre saber de mim. Às vezes queria que ele se esquecesse um pouco.
Tudo caminha como eu sempre desejei, pelo menos era o que me diziam que deveria ser, o que os filmes e desenhos me ensinaram. Ele era o meu príncipe, me tratava como princesa, sempre gentil, abrindo portas, me protegendo, cuidando de mim.
A porta se abre, o véu se adianta e voa na minha frente, eu vôo atrás, flutuo de branco, meu pai me segura no chão e me conduz até o meu maior sonho. Encontro meu amor, não consigo acreditar na minha sorte. Esse homem, uma família, perante a Deus, não preciso de mais nada, tenho tudo o que uma mulher sempre quis. É mesmo isso que eu sempre quis?
Ontem ele chegou sentou na mesa e trouxe um vinho caro, eu tremia, enquanto ele checava as mensagens do meu celular. eu não tinha nada para esconder, mas me escondia de tudo. Lembro de ouvir a voz se elevando, lembro de gritos, lembro do medo. Uma taça cai, algo além dela se quebra.
Não sei quem eu sou, eu não existo, fui esvaecendo de mim mesma. Tenho uma casa confortável e um marido, o que mais eu deveria querer? Não é o sonho de toda mulher? Porque preciso ser algo além de esposa? Sou ingrata. Não sei porque ainda me questiono, está tudo bem.

Ele se despede, se desculpa, me toca com um carinho arrependido, promete não repetir, não explodir, diz que me ama e vai cuidar de mim. Escuto, sinto um aconchego, tenho fé. Ele vai trabalhar, tranca a porta e leva a chave. Eu não tenho a cópia.
Estava atrasada, uma semana atrasada, mas não seria possível, eu tomo pílula. Dois traços azuis, coração dispara, pulmão não acompanha, me falta o ar. Ele chega, vê o que está na minha mão, me abraça, fica feliz, comemora, diz alto que vai ser Pai. No meu horizonte só existe mais privações e culpa.
Acordei de manhã, já com 30 semanas de gestação, cansada. Ele olha pra mim e começa seu ritual diário de humilhações, você está enorme de gorda, você tem que me agradecer que tirei da sua vida de vadia e te dei uma família. Levanto da cama muda, caminho até o banheiro, me olho no espelho e não me reconheço. Volto para o quarto digo que vou embora, ele ri copiosamente, para onde você iria? Ninguém te quer, só eu te aturo. Se for embora com a minha filha na barriga vou dar um jeito de você nunca mais ver ela depois que ela nascer.
Chega a hora, lágrimas escorrem pela minha face, dor, dor que dilacera, mas é por uma boa causa e quero que seja assim, minha filha, que aprendi a amar e esperar vai chegar, junto dela a esperança. Você não vai aguentar, você é fraca, pequena demais, a bebê é muito grande, não vai conseguir, melhor fazer cesária, meu amor.
Pela primeira vez em muito tempo me sinto bem, recebo visitas para minha filha. Com esse novo título de Mãe, me sinto respeitada, talvez as coisas mudem. Pessoas chegam para visitar, conversam, abraçam, mas no fim todas se vão e as portas se fecham novamente.
As coisas mudaram, uma esposa e mãe, não é mais uma pessoa, não é mais uma mulher. No meu claustro só tenho uma função, cuidar da casa, do marido e da cria. Ele já não me procura mais, diz que eu estou cheia de banhas, feia e fedida de leite. Não acho ruim, há muito tempo isso era mais uma obrigação. A solidão me toma bruscamente e me quebra.
Barulho de chave, a porta abre repentinamente, sem um aviso, sem batida. Por alguns segundos meu corpo para, não respiro. É a minha sogra:
– Sua amiga está aí na porta, vou deixar ela entrar, mas não é pra ficar muito tempo, você tem que cuidar da sua filha e da sua casa.
Fico ali sentada na sala com minha amiga, não tenho ideia do tempo que passou, me senti anestesiada, só respondi reflexamente que estava tudo bem. Me despeço, observo a porta fechar lentamente, o que fica fora e o que fica aqui dentro.

Aqui dentro fica o que sobrou de mim, minha filha, meus devaneios, minha angústia e medo. Fora, uma vida que poderia ter sido minha, a liberdade. Será que eu teria outro caminho? Repito o que minha mãe fez e eu prometi nunca fazer. Me sinto tão pequena e insignificante que entro na mesma caixa. Esta caixa não é feita de papel, ou papelão, não é sólida. Está caixa é feita de cada mão de homem que passou na minha vida. Eu não sirvo nesta caixa nessa caixa mas esta caixa serve em mim.
Ela é muito linda e perfeita, debruçada no berço eu a admiro, quantas possibilidades ela tem pela frente. Ele chega sorrateiramente, me abraça, estremeço, ficamos ali os dois olhando para ela, nossa filha. Eu digo o quanto a amo, ele sugere que eu continue a faculdade à distância, assim posso ter mais tempo para ficar com ela e com ele.
Não consigo levantar da cama, não tenho energia, me arrasto para ir ao banheiro, olho para o espelho e me assusto com o que vejo, um rosto envelhecido, olheiras, uma magreza, estou definhando, sumindo. Minha filha chora, tem a louça de ontem para lavar, camisas para passar, um bebê à mamar. Passo quase todas as noites em claro, amamentando, ninando e durante o dia faço todas as tarefas da casa.
Ouço risos vindo da casa da frente, minha deve sogra está recebendo uma amiga, às vezes ela aparece aqui, mas não para me ajudar. Uma vez pedi ajuda e ela me falou que eu precisava conseguir fazer tudo sozinha, que com ela foi assim também, eu tinha que ser mais forte. Ela que abre e fecha a porta, ela tem as chaves.
Quando será que aconteceu, quando perdi o controle da minha própria vida?
A televisão fica ligada o dia todo me fazendo companhia, escuto notícias, mortes de mulheres, mulheres que passam pelo que eu passo, e assim como eu, não conseguem sair, se libertar. O que acontece com elas? morrem. O que vai acontecer comigo? de uma certa forma já estou morta, mas ainda tenho a minha filha. Tantos momentos de descontrole que eu pensei que seria a minha hora.
Tem dias que nem o amor da minha filha me dá força, penso em desistir de tudo, não deveria ser tão difícil. Não tem saída, pelo menos eu não vejo, não sozinha. Será que meus pais me aceitariam de volta? não tenho contato com eles há tanto tempo. Não sei, muitas dúvidas abarrotam a minha cabeça. O que ele faria? tenho medo, uma angústia aterrorizante me corrói por dentro. Preciso fazer alguma coisa.
– Sogra. Abre a porta pra mim? Vou levar minha filha no médico.

Olho fixamente para ela, ela não tem culpa. Escuto a chave rodar, o trinco se recolhe, abro a porta.


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Essa história foi escrita a partir de uma escuta em um atendimento feito por mim no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. Mas poderia ser a minha ou a sua.

Bruna Novaes

Feminista, Médica de Camília e Comunidade pela Faculdade de Medicina do ABC, atualmente é professora de medicina na Unicid e atua no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. Também é formada em áudio visual.

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