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O que significa ser LGBTQI+ em um país racista e classista?

“Há um timbre de voz que vem de não ser ouvido
e saber que você não está sendo ouvido
notado apenas por outros não ouvidos pelo mesmo motivo […]”*
(Trecho de “Echoes”, de Audre Lorde)

Este é um texto em primeira pessoa escrito por uma mulher negra de pele clara, neta de nordestinos e beneficiária de uma série de políticas sociais que borraram, mesmo que timidamente, as fronteiras de espaços segregados. Reconheço-me também como um sujeito queer que nega a estabilidade de classificações apressadas. E me inspiro imensamente há alguns anos pelas ideias da poetisa Audre Lorde (1934-1992), cujo pensamento ilumina nossas ações em diferentes frentes, dos feminismos aos movimentos por igualdade racial, demonstrando as confluências entre determinadas diferenças (e desigualdades).

Minhas palavras buscam inicialmente nos levar a refletir sobre o mês do Orgulho LGBTQI+, mas não são capazes de se submeter ao conforto de uma diferença em especial. Como a senhora Lorde nos indica em sua vasta escrita, as relações de poder que transformam diferenças em desigualdades são forjadas no cruzamento entre diversos lugares sociais marcados por raça, classe, gênero e sexualidade, apenas para nomear alguns. Entre a população LGBTQI+, que congrega mulheres lésbicas, homens gays, pessoas bissexuais, pessoas cis, trans e não-binárias, intersexuais e todos aqueles “+” que de algum modo desafiam as normas do gênero e da sexualidade, rejeitando a estabilidade dos binarismos e da heteronormatividade, temos pessoas que se deparam com outras zonas de vulnerabilidade e assujeitamento. São negros, pobres, pessoas com deficiência, migrantes e imigrantes, ligadas a crenças religiosas diversas. Não apenas suas identidades de gênero e formas de amar e desejar são elementos que as fazem desde cedo experimentar medos, vergonhas e violências. Nesse contexto, uma política que busque reconhecer e preservar a vida de pessoas LGBTQI+ não pode perder de vista seu compromisso com a luta anti-racista e contra o capitalismo que aniquila a possibilidade do bem viver à maior parte da população em todo o mundo. 

Mundialmente o dia 28 de junho marca o dia do Orgulho LGBTQI+ em alusão ao episódio do bar Stonewall Inn, na Nova York de 1969, quando pessoas trans, lésbicas e gays reagiram e se revoltaram contra uma série de batidas policiais realizadas no local ao longo dos anos.

No Brasil e no mundo, o mês de junho atua nos lembrando que não devemos ter vergonha de quem somos e de quem amamos e que devemos lutar para sermos reconhecidos como sujeitos e principalmente como sujeitos de direitos. Mais do que nunca, é preciso produzir políticas de coalizão em que o compromisso com nossas vidas seja de todos. Você não precisa ser mulher, LGBTQI+, negro ou pobre para assegurar que nossas vidas não sejam resumidas. Isto constitui um compromisso ético com a construção de um mundo habitável por todas. 

*No original: “There is a timbre of voice that comes from not being heard and knowing  you are not being heard  noticed only by others not heard for the same reason […]”.

Isabela Venturoza

Antropóloga e colaboradora da ONG Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, atuando no Núcleo de Masculinidades, principalmente com pesquisas, cursos e intervenções que abordam questões de gênero, masculinidades, violências e feminismos. É doutoranda pelo programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (PPGAS/UNICAMP) e mestra em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (PPGAS/USP). Integra o Núcleo de Estudos de Gênero Pagu (UNICAMP) e o Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (NUMAS/USP).

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